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“Você não pode excluir alguém porque tem uma família diferente da sua”

Diane Clay Cundiff é freira da Congregação das Irmãs da Santa Cruz e diretora do colégio católico Santa Maria. Aos 73 anos, se posicionou a favor do respeito à diversidade diante de um grupo de pais que queria restringir debates sobre gênero na escola

POR:
Diane Clay Cundiff

Depoimento a Laís Semis

Irmã Diane Clay Cundiff. Crédito: Acervo Colégio Santa Maria

Nossa escola – o Colégio Santa Maria, em São Paulo – sempre trabalhou o respeito à diversidade, questões de bullying e preconceito. No Dia Internacional da Mulher, é discutida a questão feminina e o tratamento igualitário para mulheres e homens nas aulas de  História. Não é nada de novo. Em 2015, um grupo de alunos do Ensino Médio, sensibilizados pelo tema, formou o Coletivo Feminista Santa Sororidade para discutir temas relacionados a gênero. Todo ano publicamos na revista do colégio algum material sobre diversidade sexual na escola. Ninguém nunca reagiu, nem questionou. Somos uma escola católica.

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No ano passado, começou um movimento de grupos de pessoas falando contra “ideologia de gênero”. Com isso, a palavra “gênero”, de uma hora para outra, passou a despertar um sentimento de extremo medo. O bispo escreveu uma carta, que foi lida por padres em missas, dizendo que os pais deveriam verificar se as escolas falavam sobre “ideologia de gênero”, que trazia várias “crenças muito perigosas”.

Quando um pai veio me perguntar se nós ensinávamos a questão de gênero, que as crianças nascem sem sexualidade ao invés de meninos ou meninas, eu ainda não sabia o tamanho do movimento. Respondi: “Você tem uma filha. Quando a pegou na maternidade, soube que era menina. Mesmo antes dela nascer, você já sabia. Mas existem outros fatores que, em diversas sociedades, determinam papéis do que compete à mulher e ao homem. Enquanto Eva estava no pomar, Adão estava caçando animais. As culturas têm posições diferentes. Mas, ao longo da história, pessoas que tinham outras formas de expressar sua sexualidade foram expulsas de suas comunidades ou mortas. Há muito preconceito contra homossexuais ou transsexuais, por exemplo”.
 

A notificação contra a "ideologia de gênero"

Não muito tempo depois, um oficial da justiça chegou ao colégio dizendo que duas famílias estavam nos notificando legalmente que não poderíamos usar certos termos, como  “gays”, “trans” ou outras coisas que pudessem ir “contra a família”. Minha reação foi pensar: se a família vai diretamente informar à justiça por considerar que a escola de seus filhos está pregando algo perigoso para a família dele, essa família não deveria ter um filho nessa escola.

Fui pesquisar e vi que vários países e escolas católicas dentro do Brasil estavam discutindo o tema. Descobri que era um movimento internacional com uma grande preocupação em divulgar sua posição. É uma forma de polêmica. Imagina uma escola católica que vai dizer que está pregando contra a família? Mas o fato é que a definição de família mudou. Quando eu era criança, era pai, mãe, filhos, tios e avós. Hoje, entendemos que todo ser humano faz parte da grande família de Deus. Uma mãe que é viúva deixa de ser ou ter família? Uma criança que é adotada por duas pessoas do mesmo sexo não tem família? A definição de família é muito mais ampla.

Os nossos professores não pautam discussões sobre diferentes famílias. As próprias crianças levantam essa questão a partir de histórias de patinhos, que têm a mãe pata e o pai pato. Eles se comparam e questionam: mas eu tenho duas mães, ou não tenho irmão, ou meus pais são separados e eles têm outras famílias. É algo que a experiência de vida da criança e dos colegas já revela para eles. As crianças ficam confusas: isso está certo ou errado? Não dizemos o que é certo ou errado. Trabalhamos no sentido de não haver preconceito ou bullying na escola. Você não pode excluir uma pessoa porque ela tem uma família diferente da sua. Isso de não excluir um ou outro por ser diferente não é uma bandeira de hoje do Colégio Santa Maria. Estou na escola há 50 anos e sempre trabalhamos assim. Todo mundo tem que ser respeitado.

A tempestade perfeita

O que aconteceu no Colégio Santa Maria foi uma “tempestade perfeita” – aquela tempestade que, sozinha, não é tão dramática. Mas que somada a outras condições naquela circunstância se torna algo muito maior. Publicamos uma matéria sobre um projeto do Coletivo Feminista que se chamava “Projeto Gênero: o X da questão”. Isso começou a circular no WhatsApp dos pais. São muitos grupos: o do 2º, o 3º ano, o das mães… ao mesmo tempo, outras coisas estavam acontecendo: celebramos os 30 anos da Constituição Federal de 1988, as Diretas Já, os direitos humanos. E comemoramos com um ciclo de palestras. Também fizemos uma visita à indústria de agronegócio e a um assentamento sem terra.

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As pessoas misturam as coisas. Tudo foi colocado junto e virou uma panela de pressão. Começaram a questionar por que chamamos determinada pessoa para palestrar e não outra. Por que fazíamos determinadas saídas pedagógicas. Os pais começaram a jogar todas essas coisas como provas de que a escola era comunista, acreditava na “ideologia de gênero” e não acreditava em Deus. Virou uma polêmica muito desagradável entre os pais e responsáveis. Mas havia um grande grupo que confiava no colégio.

Não houve reclamação por parte dos alunos. Os alunos – principalmente do Ensino Médio – ficaram surpresos e chocados com o movimento. Eles não entenderam porque os pais tinham tantas perguntas e qual a razão de tanto conflito. Os pais de alunos dos anos iniciais do Fundamental chegaram a pedir a dissolução do Coletivo Feminista, do qual seus filhos nem podiam participar porque era uma iniciativa independente dos alunos do Médio. Quem tinha filhos no Coletivo não se posicionou contrário a ele.

Eu não via um movimento tão intenso e polêmico de pais na escola desde a Era Collor. Na época, o governo informou o congelamento financeiro, mas os preços continuavam subindo. No início do ano letivo, a mensalidade da escola foi corrigida porque os salários dos professores estavam muito defasados e queríamos continuar garantindo a qualidade da escola. Isso criou uma grande polêmica entre as famílias.

A posição da escola diante do impasse

Há muita “fake news” misturada com informações verdadeiras e as pessoas não sabem direito o que é verdadeiro ou falso. Convocamos uma reunião para tentar esclarecer dúvidas. Como nosso auditório só comporta cerca de 400 pessoas, marcamos duas datas e distribuímos entradas. Muitos falaram que não pensavam se tratar de algo tão dramático ou perigoso. Agradeceram o fato de a escola abrir essa possibilidade para que pudessem entender o que estava acontecendo. Não abrimos brecha para discutir se a escola precisava mudar de linha – isso não vai acontecer. Se a comunidade escolar tem dúvidas de qual é a linha, se a escola acredita na família, nós vamos esclarecer. Mas mudar não é um debate, bem como a nossa crença de que a família precisa ser protegida.

O diálogo em nossa escola é sempre aberto. Ouvimos sempre o que os pais têm a dizer. Houve oportunidades em que eles indicaram que determinados materiais que estavam sendo usados em aula não eram adequados. Analisamos e vimos que, realmente, não foram escolhas felizes. Mudamos.

Naquela reunião, eu ofereci a oportunidade para que qualquer pai que não concordasse com a nossa linha, viesse no dia seguinte solicitar o valor integral do que eles tinham pago de matrícula, sem nenhuma penalidade. Duas famílias solicitaram a transferência.

Uma freira "diferente"

Até hoje, as pessoas têm na cabeça um “modelo de freira” que não fala isso ou tem determinada reação frente a um assunto. Não existe mais – acho que em nenhuma época existiu – um único modelo de freira. Do mesmo jeito que não existe um único jeito de ser mãe, professora ou pessoa. Todo mundo tenta ser melhor que os modelos que conhece. Acho que é o meu caso.

Muitas vezes, as “fake news” levam as pessoas a tirar conclusões falsas ou acreditar em coisas que não são verdadeiras. É exatamente por isso que queremos que nossos alunos sejam capazes de ir atrás de várias fontes e não serem convencidos por tudo que leem ou pelo que o vizinho, o pai ou o padre fala. Eles têm que ter suas próprias ideias.

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Eu acho que essa é a contrariedade do Escola Sem Partido. O que se diz é que você não deveria ser partidário, que precisa abrir para todo mundo, porém afirma que não é para falar disso, daquilo ou daquilo outro. Nenhuma escola deveria ser partidária. Nenhuma escola deveria doutrinar. A menos que seja uma escola muçulmana ou judaica, por exemplo, que fala explicitamente sobre proselitismo. Mas essas escolas possuem programas específicos para suas comunidades.

Escola é para ser polêmica porque há ideias diferentes circulando e é preciso analisar o que é senso comum e o que são as outras opiniões, formas de pensar e qual é o embasamento delas. Fazer a pessoa pensar e analisar a partir de diferentes visões faz parte do processo educativo. Ninguém deveria ler um único editorial – deveria ler vários. Precisamos trabalhar com os alunos como ler com compreensão, explorar e entender o que está sendo falado. Concordar ou não, de imediato, sem reflexão, é radicalismo. A iniciativa do Coletivo Feminista nasceu justamente pela possibilidade de explorar temas relacionados e debater essas questões.

Para as comunidades escolares que enfrentam movimentos como esse, meu conselho é: fiquem tranquilos e aproveitem para buscar entre as acusações e elogios o que se tira de verdade. Porque, às vezes, o elogio pode enganar. Enquanto, por outras vezes, a oposição pode servir muito bem para refinar cada vez mais qual é a missão e o papel social da escola.

Diane Clay Cundiff nasceu nos Estados Unidos e chegou ao Brasil em 1973. É diretora geral do Colégio Santa Maria e responsável pelo marketing do Residencial Santa Cruz. Ingressou na Congregação das Irmãs da Santa Cruz em 1963 e optou por viver sua vocação religiosa em São Paulo. É formada em História pela Saint Mary's College, possui mestrado em Sociologia pela Universidade Valparaiso, fez cursos de administração na Fundação Getúlio Vargas e participa de ciclos de estudos sobre Educação na Universidade de Harvard desde 1990. A Irmã Diane também foi professora do Colégio Santa Maria e desde 1984 atua como gestora.

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