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Por: Lucia de Menezes, Raissa Pascoal e Rosi Rico

Retratos de família

Arranjos variados exigem atenção do gestor para trabalho sobre diversidade e valores como respeito e tolerância

A  avó procura os gestores porque está sobrecarregada com a criação de muitos netos. A mãe teme ver o filho encaminhado para um psicólogo por cuidar dele com sua esposa. A tia travesti é impedida de participar de uma reunião pela coordenadora pedagógica porque não estaria vestida adequadamente. O padrasto não consegue fazer a matrícula da enteada porque só o pai biológico é considerado responsável. Essas são algumas das histórias que ocorrem nas escolas brasileiras e que representam parte dos desafios gerados pela existência de famílias com diferentes configurações. Muitas equipes, porém, ainda não estão preparadas ou dispostas a lidar com essa realidade. E isso precisa mudar. 

A família não está acabando, mas seu perfil passa por mudanças. De acordo com o Censo de 2010, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foram identificados 19 arranjos familiares na sociedade brasileira (veja gráfico na página seguinte). A formação tradicional, de um casal heterossexual com filhos, vem cedendo espaço para casais sem filhos ou homoafetivos, para famílias monoparentais (pai ou mãe solteiros) ou  reconstituídas - quando um dos integrantes tem filhos de relacionamentos anteriores -, entre outras composições. "As pessoas pensam que falar sobre essas ligações diferenciadas é negar a família. Pelo contrário, ela se transforma para afirmar o seu lugar como ambiente importante no desenvolvimento do sujeito", diz Edna Bittelbrun, professora de Psicologia da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e doutoranda em configurações familiares.

 

Em Porto Alegre, vice-diretora e orientadora debateram os arranjos familiares na formação. Foto: Marcelo Curia

"Nunca fui discriminada. Me dou muito bem com a diretora e não sou de faltar em nenhuma reunião", diz  Claudia Müller (à dir. na imagem dentro do quadro acima), com o filho Luis Felipe e Laila de Oliveira, também mãe do jovem

 

Hoje, são aceitas várias interpretações sobre esses grupos de pessoas. "Não há uma definição teórica, mas observamos que as famílias estão tendo relações cada vez mais construídas em laços de afetividade e não apenas de consanguinidade", diz Rosa Maria da Exaltação, professora da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).

Essas mudanças se devem a diversos fatores, como quebra de preconceitos e estigmas, avanços na medicina e conquistas legais e políticas como o divórcio ou o direito de adoção por solteiros ou casais do mesmo sexo.

"Fingir que não existem essas famílias é ignorar um dado real. Portanto, cabe à escola, que prepara para o convívio social, incluir e lidar com isso de alguma maneira", diz Carolina Aragão Escher Marques, doutora em Educação e especialista em relações interpessoais na escola pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Débora Rana, formadora do Instituto Avisa Lá e consultora de GESTÃO ESCOLAR, concorda. "O tema diversidade está todo dia em pauta numa unidade de ensino. O gestor precisa estar atento sobre onde estão as diferenças para saber em que medida elas demandam ou não uma intervenção", afirma. Não se trata de resolver problemas alheios, mas de cuidar de tudo que tem influência no processo de desenvolvimento do estudante.

 

Mais trabalho?

Engana-se o diretor que acha ser esse um trabalho extra em uma rotina já atribulada. A obrigação de informar as famílias, independentemente de seus formatos, sobre as aprendizagens dos alunos está prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). "Muitas são acusadas de não participar dos eventos que ocorrem na escola. Às vezes, no entanto, elas não são acolhidas pela equipe por possuírem uma estrutura diferenciada ou por, mesmo tendo pai e mãe, não se enquadrar no modelo esperado", explica Rosa Maria. Se a instituição não é receptiva a essas especificidades, os responsáveis tendem a se afastar.

Carolina presenciou a história da tia travesti relatada no início desta reportagem. Ela, que cuidava do sobrinho, foi a primeira parente a ir a um evento da escola, mas, ao chegar lá, foi impedida de entrar pela coordenadora. "Essa gestora foi preconceituosa e não deu atenção ao fato de uma pessoa da família querer participar da reunião e acompanhar a aprendizagem do aluno", diz. Após esse episódio, a tia nunca mais voltou, o que teve um impacto grande no sentimento de pertencimento da criança na instituição.

Se a gestão corrobora com esse tipo de prática, toda a comunidade pode ser influenciada. "A escola incentiva a formação de opinião a respeito do que ocorre dentro e fora daquele espaço. Se discrimina ou até expulsa da convivência uma família que não faz parte do contexto considerado ideal pela sociedade, está mostrando que ela não é bem-vinda e que acredita ter algo de errado", diz Maria Helena Vilela, diretora executiva do Instituto Kaplan, em São Paulo. Situações como essa podem acentuar atitudes de intolerância.

Diante do caso, Carolina foi convidada a fazer um trabalho com a equipe. "Pedi que hierarquizassem os valores imprescindíveis para a escola. Entre muitos, estava o respeito. Solicitei, então, que refletissem sobre onde estava esse valor numa situação como a que ocorreu", conta. Esse exercício, que pode ser proposto por gestores e usar exemplos ocorridos em lugares externos à instituição, ajuda o grupo a avaliar se suas práticas estão distantes ou não do que almejam. Mas não adianta impor comportamentos. "Dizer que nenhuma família deve ser impedida de entrar não funciona se não for discutido. Dessa maneira, as pessoas vão lidar com as situações porque tem de ser assim. Mas queremos que elas tomem consciência, o que só ocorre pela reflexão", diz Carolina. 

Formação com intencionalidade

É comum a questão dos arranjos só surgir quando acontece algo específico. No entanto, é importante que essa discussão ocorra sempre e com intencionalidade, para que todos estejam preparados para lidar com a diversidade. Ou seja, diretores e coordenadores precisam desenvolver um plano de ações, que pode incluir atividades como a indicada por Carolina, que levem à reflexão sobre valores e condutas. "Mas todos precisam entender que uma mudança de cultura não ocorre da noite para o dia. É necessário fazer um trabalho frequente", diz Maria Helena.

Na EMEF Lauro Rodrigues, em Porto Alegre, o debate foi feito após a observação da comunidade. "Há alguns anos, fizemos visitas à casa dos alunos para saber como eles viviam. Notamos que a estrutura das famílias havia mudado. Por isso, sentimos necessidade de estudar para acompanhar essa evolução", conta a vice-diretora Simone Malta Moraes, que trabalha na escola há 18 anos.

O tema, que virou pauta regular da formação docente, também é desenvolvido com base nas fichas de matrícula, que têm perguntas sobre os responsáveis, e nas entrevistas feitas pelos orientadores educacionais com os familiares. "As informações que envolvem a aprendizagem e o comportamento do aluno são repassadas para o professor", diz a orientadora Andrea Pessin Mendes. Para Maria Helena, o resultado desse tipo de levantamento deve ser apresentado à equipe com o objetivo de desmistificar tabus. E é preciso abrir espaço para que todos digam o que pensam.

Mas qual deve ser a atitude da equipe gestora quando alguém não aceita famílias diferenciadas por questões pessoais ou religiosas? "Nesse caso, cabe ao gestor dizer que todos têm um papel de educador. Portanto, a pessoa pode não aceitar um casal homossexual, por exemplo, mas, dentro da instituição, a postura precisa ser de respeito. Esse valor não está em discussão", diz Carolina.

A escola da coordenadora Lucilene não comemora datas específicas como Dia das Mães ou dos Pais. Foto: Ricardo Toscani

"Sempre participamos juntos dos eventos para os quais a família dos alunos é convidada", diz Mário Martins (na foto dentro do quadro acima), separado, pai de Mariana, com a irmã Elaine, o sobrinho  Mateus e a mãe Ana

O cuidado está nos detalhes

A demonstração de tolerância deve acontecer sempre. Na EMEI Perola Ellis Byington, na capital paulista, o cuidado no trato da questão perpassa diversos aspectos, da comunicação aos projetos desenvolvidos ao longo do ano. "Sempre que mandamos um convite para reunião ou evento, por exemplo, não convidamos o pai ou a mãe, mas aqueles que se responsabilizam pela criança", diz a coordenadora Lucilene de Lucca Marini. 

Ela destaca que todos, porém, têm cautela para não invadir a privacidade de ninguém. "Não autorizamos nenhum profissional a entrar na vida familiar se não for vontade da criança ou de um responsável", explica. "Somos cada vez mais provocados a tratar dos meandros das relações interpessoais. Já houve um caso de recebermos uma avó chorando porque estava com vergonha do filho e da nora estarem presos. Temos o cuidado de acolher essa pessoa e nos preocupar com a maneira que isso está afetando a criança."

A equipe também está atenta ao selecionar livros que trazem modelos variados de família. "Essas histórias já abrem caminho para, na roda de conversa, a criança trazer a sua configuração. Não sabemos o que as outras vão falar, mas temos o suporte do livro para dizer que o importante é quem cuida da gente", conta Lucilene. 

Datas comemorativas

Mas o que fazer com comemorações como o Dia das Mães ou dos Pais? Abolir? Depende do contexto. "Se o aluno é preparado para viver sem essas figuras, isso não vai criar problema de identidade, de carência afetiva e de constrangimento. O que faz alguém se sentir inferior não é a falta desses elementos familiares, mas a maneira como a sociedade lida com isso", diz Maria Helena. Algumas instituições, no entanto, preferem optar pelo Dia da Família, no qual não há distinção e todos são convidados a participar. Antes dessa data, é possível fazer uma reflexão com os estudantes sobre o que é ser mãe ou pai, papéis que podem ser exercidos por diversas pessoas.

A EMEF Lauro Rodrigues fez essa opção. "Há dez anos, comemorávamos Dia das Mães e dos Pais, mas percebemos que a realidade na nossa comunidade era diferente do que estávamos propondo", conta Simone. Hoje, antes do Dia da Família, quando os alunos apresentam os trabalhos desenvolvidos em sala, as turmas realizam atividades com o tema diversidade. No caso das crianças ou jovens abrigados, os monitores são chamados para as reuniões e, no evento, participam aqueles que exercem esse papel para esses estudantes. Já a EMEI Perola Ellis Byington optou por não comemorar datas específicas, mas convida os responsáveis para encontros ao longo do ano. Às vezes, no entanto, alguns pais questionam a escolha. "Colocamos, durante a apresentação do projeto pedagógico, que a escola preza pela diversidade e que temos de construir espaços acolhedores", relata Lucilene.

Os ganhos com esse cuidado são aprender a boa convivência e propagar valores como respeito e tolerância. "Quando uma instituição é bem- -sucedida no trato com os diferentes arranjos familiares, é porque a equipe é formada para incluir e atender a todos", conclui Edna. 


Ilustrações: Pedro Hamdam