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Tereza Perez: “Precisamos aprender a ouvir as famílias”

Diretora da Comunidade Educativa Cedac fala sobre a importância da empatia e da promoção, na prática, do convívio harmonioso entre a escola e a família

POR:
Tory Helena
MAU EXEMPLO: Para Tereza Perez, perde-se muito tempo quando escola e família vivem em conflito. Crédito: Renato Stockler

“Os pais não vêm às reuniões na escola”, “Aquele diretor é estúpido”, “Esse professor implica com o meu filho”. Essas frases, ditas e ouvidas na porta da escola, na sala dos professores ou mesmo no WhatsApp, revelam que a relação entre a escola e a família, muitas vezes, é pontuada por descompassos, conflitos e ressentimentos. Focado no diretor e organizado pela educadora Tereza Perez, da Comunidade Educativa CEDAC, o livro Diálogo Escola-Família, disponível gratuitamente, aponta sugestões práticas para que os gestores possam virar essa página e melhorar o convívio. 

NOVA ESCOLA: Quais são as principais representações equivocadas, como o livro Diálogo Escola-Família chama, que a comunidade escolar tem a respeito das famílias? 
TEREZA PEREZ: Não só sobre a família. Quando pensamos nos alunos, temos um estereótipo idealizado de um estudante maravilhoso, que é respeitoso, estudioso, interessado, solidário, interage com todos e que tenha disponibilidade para a aprendizagem enorme. Trabalhamos também com uma família idealizada: que tem tempo para falar com os filhos, interesse pelo conhecimento e pelo que ocorre na escola, que tem tempo de ir à escola no horário marcado. O que buscamos fazer no livro é falar que nada funciona assim. Nenhuma família ou raríssimas famílias têm esse perfil.

NE Por que isso mudou? 
TP Hoje os familiares responsáveis pela criança têm uma dinâmica de trabalho muito intensa. Com isso, resta pouco tempo para estar junto com as crianças e os jovens. Além disso, não existe mais uma dinâmica orquestrada para fazer esse cuidado da criança. Isso é raro porque os avós, todo mundo, trabalha ou porque os valores também são diferentes entre pais e avós etc. Isso gera um isolamento da família em relação às crianças e aos jovens. Além do isolamento, há pouco repertório de relacionamento, de diálogo. Sabemos da extrema importância do ambiente familiar para a aprendizagem. Se as famílias têm muita dificuldade para educar os filhos, o que a escola pode fazer? A escola pode ajudar a família a se repertoriar também. E aí vem a relevância de esse trabalho ser feito de maneira mais próxima, sem os preconceitos. Quando falei, no começo, que trabalhamos com famílias e alunos idealizados, é porque tem uma carga de preconceito muito grande mesmo. Por exemplo, se eu tenho um aluno cujos pais são alcoólatras, vou colocar ele de lado por isso? Essas questões precisam vir à luz para eu poder interagir com os meus reais alunos e com as reais famílias. E olhar para aquilo que temos e não para o que queremos.

NE Qual é o primeiro passo para que a família e a escola cultivem o diálogo e a colaboração? 
TP É que o diretor faça esse debate junto com a sua equipe, com a escola. Sugerimos que leia algumas partes do livro e desencadeie encontros com elas. 

NE A polarização e a facilidade de comunicação pelo WhatsApp acentuaram os conflitos entre a família e a escola ou ela sempre foi conflituosa? 
TP Quando eu era criança, a família depositava total confiança na escola e a frase corrente era: “O professor sempre tem razão”. E não acho que tenha de ser assim, por isso propomos o diálogo. Mas os conflitos sempre existiram, acho que hoje estão mais acentuados em razão dessa dinâmica da idealização, então precisamos colocar o pé no chão e trabalhar com a realidade para diminuir essa tensão. E o WhatsApp é tanto para o bem quanto para o mal. Porque uma questão que é pequena, mas quando você coloca em debate e os ânimos vão se acentuando, você pode destruir alguém. No WhatApp rola conversa para falar mal da escola como também para trocar acusações sobre os alunos. Isso é uma coisa muito perigosa, especialmente se não há uma mediação. Acho que o WhatsApp traz um imediatismo que é prejudicial, precisamos de tempo para poder dialogar e entender de fato o que está acontecendo antes de sair no julgamento. 

Crédito: Renato Stockler

NE Ao mesmo tempo que há grupos de pais no WhatsApp, também fala-se mal de famílias na sala dos professores, nos grupos de docentes... 
TP Você fala mal porque aquilo te dá trabalho. Aquele menino te dá trabalho porque a família não está cuidando direito. Agora, quais são as condições daquela família? O que de fato está acontecendo para a criança reagir de um jeito ou de outro? A gente sabe que nunca existiu tudo às mil maravilhas, então acho que também precisamos tirar a idealização, trabalhar a empatia e buscar um convívio harmônico, que entra pelo diálogo. Voltando à questão do WhatsApp, quando eu dialogo só dentro de um grupo para falar mal de outro grupo, isso é péssimo. E acho que a gente ensina muito as crianças e os jovens, porque todos nós aprendemos tendo como referência as atitudes de quem está do nosso lado. Então, um familiar que comece a falar mal e não vai dialogar com a escola sobre o que está acontecendo está ensinando aos seus filhos esse tipo de atitude, que não é a que pregamos em uma sociedade democrática. 

NE Como a direção e a gestão da escola podem contemplar essa participação da família sem prejudicar o trabalho dos professores? Por exemplo, o que fazer quando um pai ou mãe acusa o professor de ser um doutrinador? 
TP Eu chamaria esse pai junto com o professor para conversar. Aí o professor pode expor suas razões e o pai também e chegar num tipo de conduta mais adequada. Tenho de ser empático com aquilo que eu não corroboro também, digamos assim. Eu não corroboro com a posição do professor ou do pai, mas preciso olhar do ponto de vista dele para poder entendê-lo. É um exercício necessário. 

NE Quais são as consequências para os alunos quando a escola e a família não conseguem dialogar e vivem em conflito? 
TP A primeira coisa é uma perda de tempo enorme, que não constrói nada. A outra é que as crianças aprendem a agir dessa maneira também, o que é totalmente contrário a tudo que está escrito no PPP da escola. De forma geral, qualquer PPP diz que queremos um sujeito crítico, consciente, colaborativo, solidário. Então, vamos ser coerentes: se queremos aquilo, quais ações precisamos ter? As crianças e os jovens aprendem com aquilo que a gente faz. A cultura e o aprendizado de valor e atitude é o mais difícil que tem, porque não adianta eu falar uma coisa e fazer outra. O aprendizado se dá nesse fazer, na conduta cotidiana. Se eu prezo o diálogo, preciso exercer isso continuamente. Não adianta nada eu ser bacana em um dia e estúpido no outro.

NE Como tornar a reunião com a família mais produtiva? 
TP Precisamos aprender a ouvir as famílias. Quando trazemos um assunto ou uma demanda, vamos pedir, por exemplo, que os familiares presentes recuperem o que eles viveram na escola com aquela faixa etária igual à dos filhos. Ao fazer isso, vão aparecer questões em relação ao conhecimento, às atitudes, aos preconceitos. Uma série de preconceitos é vivida cotidianamente, mas quando os pais retomam os seus viveres na escola, eles trazem isso à tona e, para a escola, isso abre os olhos para tratar as desigualdades de outras maneiras. Então, quando deixamos que as falas e os sentimentos dos familiares venham, isso vai humanizando as relações e eu vou conhecendo melhor o meu interlocutor. Além disso, trazer temas atuais que são preocupação dos pais, por exemplo, o uso de internet. Porque essas reuniões com os familiares, muitas vezes, são apenas para falar o que a escola vai fazer ou só para falar dos problemas com os alunos. Os problemas existem, mas podemos abordar buscando a compreensão do problema, olhando o ponto de vista da família e da escola, e não a solução imediata dele.

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