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Reunião de pais: o que é importante garantir no encontro de fim de ano

Após um período conturbado, o fechamento deste ciclo com as famílias deve ser de acolhimento e de valorização das conquistas

POR:
Paula Salas
Crédito: Getty Images

Finalizar um ano marcado por uma pandemia e pelo enfrentamento de tantas dificuldades e perdas não é algo simples. Neste contexto, as reuniões de fim de ano com os pais e responsáveis requerem um olhar especial. O acolhimento e a escuta são importantes sempre, mas, especialmente em 2021, tornaram-se palavras-chave para fortalecer a relação escola-família. 

Para Ivonete Dezinho, professora de Matemática de Anos Finais na Escola Municipal de Ensino Fundamental Prof. Milton Dias Porto, em Naviraí (MS), nesses encontros é necessário acolher e ouvir primeiro para depois dizer o que precisa ser colocado. “Dar abertura para os responsáveis falarem sobre como viveram esse momento, quais os sentimentos e sonhos. Devemos mostrar que há esperança. Parabenizar quem conseguiu e [salientar] que estamos lá para ajudá-los, que o ano que vem será melhor. Temos de levar uma palavra de esperança.”

Luciana Caetano, especialista em psicologia escolar e autora do livro Dinâmicas para Reunião de Pais: Construindo a parceria na relação escola e família (Editora Paulinas), reforça que a reunião de fim de ano precisa ter escuta ativa e respeitosa. “[Um espaço] de troca de experiência, livre de tensões, competições e cobranças", pontua. 

“Este é o momento ideal para fortalecer a parceria com os pais e responsáveis, abrir o diálogo e tranquilizar as famílias em relação à continuidade das aprendizagens”, acrescenta Alessandra Tavares, formadora na Comunidade Educativa CEDAC, de São Paulo (SP). “Não [deve] ser um encontro tradicional, mas de celebração do que foi possível fazer em um ano desafiador.”

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O funcionamento dessas reuniões varia muito de escola para escola. Sem dúvida, a gestão escolar tem o importante papel de organizar, trazer informações sobre aquele ano e dar o panorama para o próximo. No entanto, é fundamental a presença dos professores. “O protagonismo é de quem está na sala de aula”, afirma Cíntia Feliz, coordenadora pedagógica na Escola Estadual Professor Suetônio Bittencourt Jr., em Santos (SP). 

Construção da relação escola-família que desejamos
Os encontros com as famílias, seja durante o fechamento do ano ou não, são um momento importante para dar o tom da parceria que a escola quer construir com os pais e responsáveis. “Essas reuniões precisam ser orientadas pela troca, pela comunicação e pela transparência”, resume Alessandra. “Esse vínculo de confiança com a família possibilita uma compreensão mais aprofundada das necessidades de cada criança e traz informações importantes para planejar as ações da escola.”

Construir essa relação “só é possível quando há uma disponibilidade efetiva para o diálogo, o qual se desenvolve na troca de pontos de vista”, afirma Luciana. Para tal, a especialista destaca que é necessário se despir de julgamentos prévios como, por exemplo, não ver a diversidade de configurações familiares como um problema. 

Estabelecer uma relação de troca e transparência permite um entendimento de que os educadores nem sempre terão todas as respostas – e está tudo bem. Juntas, escola e família podem pensar em caminhos para contornar dificuldades. “Por exemplo, se tem um desafio de busca ativa, é possível incluir as famílias para que elas façam parte do plano de ação”, sugere Alessandra.

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Nova parceria trazida pela pandemia
Após os desafios de comunicação e busca ativa dos alunos e famílias desde o início da pandemia, em 2021, muitas escolas sentiram maior proximidade com os responsáveis e tiveram mais retorno. “Este ano, eles estiveram mais presentes desde o início [do ano letivo]”, conta Fernando Rosa, vice-diretor e professor de História para turmas de Anos Finais do Fundamental e de Ensino Médio na Escola Estadual Pedro II, em Belo Horizonte (MG). 

A possibilidade de canais digitais, inclusive para fazer as reuniões, aumentou o engajamento das famílias. “Essa comunicação on-line nos ajudou a atingir mais famílias do que antes, porque nem sempre elas conseguiam se deslocar para participar dos encontros”, observa o educador. 

O que fez a diferença no Centro Municipal de Educação Infantil Profª Maria Estela Diniz Gazetta, em Nova Odessa (SP), foi o trabalho com brincadeiras heurísticas – proposta em que a criança espontaneamente explora materiais não-estruturados, tais como caixas, tampinhas, garrafas plásticas, para brincar – no qual as famílias recebiam kits temáticos. “Os pais e responsáveis resgataram brincadeiras da sua época e contaram para as crianças as suas experiências na infância. Isso motivou as famílias a continuarem participando do trabalho remoto, e nós tivemos um retorno super bacana”, diz Kelly Moreira, professora de crianças bem pequenas na instituição.

Brincadeiras que começam na escola e seguem em casa

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Reuniões presenciais
Kelly conta que no dia 21 de dezembro acontecerá a reunião com as famílias. No encontro presencial, seguindo todos os protocolos de segurança, haverá um momento de conversa com os responsáveis, em que a gestão escolar trará as mensagens gerais de como foi o ano e o planejamento para o próximo. Na sequência, os professores se reunirão com os pais ou responsáveis da sua turma. “Eu penso em propor um texto reflexivo ou uma dinâmica de brincadeira [heurística] para começar”, compartilha a professora. 

A pauta da reunião prevê ainda momentos para refletir a respeito das experiências do ano e comentar sobre os kits que foram enviados. As famílias também terão um espaço para compartilharem suas dificuldades, as conquistas e as dúvidas. “Abro [um espaço] para eles contarem o que acharam do ano e vamos trocando.” 

Assim como Kelly, Alessandra aponta a necessidade dessas trocas durante as reuniões de fim de ano – para saber como fazer esse trabalho, confira o material Diálogo escola-família produzido pelo CEDAC. “É importante ouvir o que as famílias têm a dizer, ter abertura para essa devolutiva e fazer com que os responsáveis se sintam pertencentes”. Para a especialista, ter momentos que foquem no individual de cada família e outros para colaborar com o coletivo daquela comunidade é uma forma de fortalecer o sentimento de pertencimento.

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Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Prof. Milton Dias Porta, em Naviraí (MS), as reuniões com os pais e responsáveis serão com revezamento, assim como aconteceu com os alunos nas aulas presenciais. Serão dois dias de reuniões no período da manhã e da tarde. Quando chegar a vez do seu grupo, os responsáveis receberão as notas dos alunos e terão mais informações em relação àqueles que ainda não foram aprovados. 

Após as orientações e recados gerais, os professores responsáveis de cada sala, chamados de coordenadores de turma, conversam com as famílias. Nesse momento, é possível se aprofundar nas particularidades daquele grupo. 

Ivonete, além de dar aulas de Matemática para o 8º e o 9º ano, é coordenadora de uma das salas de 8º ano da escola. Com isso, além de falar sobre o rendimento dos alunos no seu componente, também passa os pareceres dos demais educadores. “Nós temos uma pasta com todas as observações que todos os professores colocam sobre cada aluno no conselho de classe”, explica.

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Com os coordenadores de sala, os responsáveis têm um momento com todo o grupo. “Conversamos sobre a forma de avaliar, os conteúdos trabalhados e os problemas da sala”, conta a educadora. Ivonete diz que tem o costume de começar pelos pontos positivos e, para falar dos aspectos negativos, toma cuidado com as palavras que usará para não constranger ninguém durante esse momento. 

Por fim, individualmente, as coordenadoras chamam cada família. “O pai chega esperando ouvir coisas ruins do filho e quer ir embora rápido. Mas é bacana quando mostramos uma atividade ou um vídeo de uma produção do aluno. Eu tento mostrar esse lado bom”, ressalta Ivonete. 

Encontros remotos
Na Escola Estadual Pedro II, apesar do retorno presencial integral, a reunião com os responsáveis continuará no formato remoto. A partir das experiências do que funcionou nas reuniões bimestrais desde 2020, o professor Fernando conta que é realizada uma reunião geral para toda a comunidade escolar. Ela será transmitida ao vivo pelo YouTube da escola e permanecerá gravada para aqueles que não conseguirem participar ao vivo. 

Entre os tópicos que estão sendo planejados para essa reunião, Fernando diz que a ideia é fazer uma retrospectiva do que foi realizado e falar sobre os esforços de busca ativa, como foi a retomada presencial e a rotina escolar com protocolos de segurança. Também conversarão, de forma geral, sobre as notas e passarão as orientações e datas para os alunos que ainda não estão aprovados. Durante toda essa conversa, as famílias podem interagir, fazer perguntas e tirar dúvidas pelo chat da transmissão. 

Na Escola Estadual Professor Suetônio Bittencourt Jr., em Santos (SP), as reuniões também serão on-line por meio do Google Meet. A coordenadora Cintia explica que a decisão de manter o modelo remoto foi graças à grande adesão aos encontros. 

Especialmente no fechamento do ano, a educadora aponta a necessidade de retomar tudo o que aconteceu durante aquele período, as produções que foram feitas e como foi todo o processo. Também há um momento de olhar para as avaliações de cada turma. “Mostramos os níveis de proficiência, em quais [aspectos] estão melhorando e as habilidades em defasagem. Mostramos que existe uma ciência por trás do que está sendo feito”, afirma Cíntia. 

Inicialmente, há uma apresentação da equipe gestora e dos professores que estão participando. Cíntia conta que estão considerando fazer uma apresentação em PowerPoint, com vídeos curtos e fotos, para mostrar as melhorias do prédio escolar, as atividades que foram realizadas e todas as ações que aconteceram na escola. Durante todo esse tempo, o chat permanece aberto para interações e esclarecimento de dúvidas. 

Para Alessandra, um erro que deve ser evitado nas reuniões remotas é descuidar do encontro. “É preciso organizar uma pauta para a reunião, acolher as pessoas que forem chegando e ter uma pergunta [ou uma dinâmica] para iniciar a conversa”, orienta. “Temos de cuidar para que seja um momento de escuta e de reflexão sobre a comunidade escolar e os caminhos possíveis.”

Orientações para uma boa reunião com as famílias
Especialistas e educadoras dão algumas dicas para esses encontros com os responsáveis, sejam presenciais ou remotos 

Garanta a presença dos responsáveis. Este ainda é um grande desafio para as escolas. No entanto, o primeiro passo para uma boa reunião é contar com a participação dos pais e responsáveis. “O que eles nos falam é a questão do horário, de ser mais flexível, no fim do dia”, afirma Kelly. Pensando nisso, ela acha necessário fazer um levantamento dos melhores horários para os responsáveis da sua turma. 

Repense o formato dos encontros. Ivonete ressalta que é importante repensar o formato das reuniões para que sejam mais atrativas – especialmente nos Anos Finais do Fundamental. “Acho que falta a gente discutir mais formas de reuniões diferentes para trazer mais pais. Só assim é possível ter uma escola que funcione”. 

Cuide de todas as etapas. “É preciso ter um olhar para o convite, estabelecer com antecedência a data, o horário e a pauta do encontro e organizar o espaço que vai ser utilizado”, aponta Alessandra. “Esses momentos têm de ser muito bem planejados. Precisa ser uma reunião produtiva, não chamar os pais para questões que poderiam ser resolvidas por meio de um bilhete, WhatsApp ou e-mail”, complementa Luciana. 

Valorize a participação. “O que eu vejo que funciona é começar a reunião falando sobre a importância de eles estarem ali, de participarem do processo de aprendizagem. [Reforce] que a escola precisa deles”, aconselha Ivonete. 

Fale também de coisas boas. Especialmente após um ano difícil e de muitas perdas, enaltecer e celebrar as conquistas é necessário. “Valorizar cada ponto positivo que aconteceu, trazer otimismo para o próximo ano e [acreditar] que teremos novas vitórias. Mostrar que a escola está com eles”, sugere Cíntia. 

“Quando temos algo [bacana] para apresentar, eles vêm mais. Quando eu estava com o projeto [que foi vencedor do Educador Nota 10 em 2018], além de os pais terem participado do trabalho, eu mostrava o que o aluno produziu e, na reunião seguinte, eu tinha cada vez mais [famílias participando dos encontros]”, relata Ivonete. 

Mostre todo o trabalho que é realizado. “A família precisa entender que estamos preocupados com a aprendizagem [cognitiva] dos alunos, mas também [olhando] para a integridade das crianças”, afirma Cíntia. “A nossa escola trabalha com duas frentes: excelência acadêmica e habilidades socioemocionais. Os responsáveis devem entender o que é feito em cada uma das frentes.” 

Vá além das reuniões “de recados”. Não realize um encontro em que apenas a gestão ou os professores falam, mas que tenha momentos para uma participação efetiva das famílias. “Dar espaço [para que compartilhem experiências próprias] nos ajuda a entender a vida deles e do nosso aluno”, observa Ivonete. “[Garantir que] além de cumprir com o compromisso, a família saia de lá sentindo que agregou na relação dela com a escola”, completa Alessandra. 

Evite constrangimentos. No momento coletivo, deve-se destacar os pontos positivos, e os negativos devem ser conversados, de preferência, no particular. “Por mais que estejamos juntos numa parceria, não sabemos as particularidades das famílias”, lembra Cíntia.

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