Esculturas colocam a criatividade no espaço

A diversidade de técnicas e materiais simples, como arame e sabão de coco, pode ajudar o professor que decide explorar a tridimensionalidade para dar forma à produção dos alunos

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NOVA ESCOLA, Ana Ligia Scachetti, Márcia Scapaticio
Com as próprias mãos, os estudantes moldaram os bonecos, depois cobertos com papel e cola. Tintas e tecidos foram utilizados no acabamento. Foto: Marina Piedade
Arame e papel Com as próprias mãos, os estudantes moldaram os bonecos, depois cobertos com papel e cola. Tintas e tecidos foram utilizados no acabamento.

Além do que os museus acolhem, a escultura pode ganhar forma e relevo no espaço urbano e no ambiente escolar. Embora a linguagem não seja muito abordada nas aulas de Arte (e nos cursos de licenciatura), há materiais simples que permitem introduzir os alunos no mundo da tridimensionalidade com práticas criativas interessantes, acompanhadas do embasamento histórico.

A teoria e a prática se encontraram nas aulas da professora Sandra Oliveira, da Escola Santi, em São Paulo. É claro que os estudantes, quando perguntados, respondem preferir a prática. Mas eles mergulharam na proposta e ela deu tão certo que foi parar na 4ª Bienal de Artes da escola. O pátio foi transformado, imitando os cômodos de uma casa e, a cada passo, os visitantes puderam observar obras produzidas com diferentes técnicas.

Na sala de aula, o aprendizado começou pela história da arte. A professora apresentou uma série de fotografias que permitiram à turma conhecer vários estilos e escultores. Sandra passou por períodos emblemáticos, como o Renascimento, trabalhou aspectos como as proporções do corpo humano no Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci (1452-1519), e se focou no estudo da linha e do seu papel na composição visual das obras de arte planas, como as pinturas. Os primeiros passos práticos foram dados com a elaboração de um desenho de observação da figura humana. Para isso, um aluno fazia o papel de modelo.

Passando à escultura, o artista plástico que serviu de referência para a série de quatro aulas foi o suíço Alberto Giacometti (1901-1966), escultor que teve no corpo humano uma de suas inspirações, conhecido pelo estilo marcante de sua série de figuras alongadas e fantásticas. "O objetivo era levar os alunos a visualizar a diferença entre um objeto bidimensional e um tridimensional", resume Sandra. "Transferimos as características da obra do artista para um trabalho de criação, mas sem copiar."

Após afiar os traços no papel, os alunos do 7º ano partiram para o arame. Usaram as próprias mãos para torcê-lo e moldá-lo até chegar ao formato desejado para os bonecos inspirados em Giacometti, produzidos em diversas posições. A estrutura foi colocada numa base de argila, que sustenta a peça durante o trabalho, e depois revestida de papel e cola. Em seguida, cada aluno pôde se esbaldar na escolha das cores e dos materiais a serem utilizados para dar o seu toque final. Foram usados de guache a tecido no acabamento.

Por trás das mãos sujas de argila e dos rostos orgulhosos com o resultado, há uma série de conceitos que podem ser envolvidos na abordagem desse tema. Para Jurema Sampaio, professora da Universidade Padre Anchieta, em Jundiaí, a 63 quilômetros de São Paulo, é recomendável aliar o conhecimento de tópicos da geometria ao ensino de escultura. "Saber a diferença entre um objeto bidimensional e outro tridimensional é desejável para trabalhar conceitos de espaço, largura e profundidade", reforça. "A arte é uma intervenção humana. Ela é o que eu, humano, posso transformar."

Erinaldo Alves do Nascimento, do Departamento de Artes Visuais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), considera importante que se estabeleçam outras relações com os materiais aproveitando a variedade de recursos utilizados em esculturas contemporâneas (leia mais sobre a diversidade de técnicas ao longo da história no quadro da página seguinte).

Jurema também reforça a importância da contextualização e das etapas de preparo. Até mesmo artistas profissionais precisam analisar primeiro os itens a serem utilizados, estudar as várias tintas e seus elementos químicos, checar a combinação das cores, aprender a manusear ferramentas etc. O mesmo vale para os pequenos artistas da sua turma. "Com os alunos mais velhos, é interessante promover uma sensibilização e deixar que eles compartilhem o que aprenderam sobre formas, volume e dimensões nos anos anteriores", indica. Também é interessante investigar as visões que possuem sobre alguns aspectos, como os materiais que poderiam ser utilizados.

Sabão também pode virar arte

Material simples e barato permite esculpir na cor do mármore e desmitifica o trabalho como sendo algo necessariamente sofisticado. Foto: Marina Piedade
Sabão de coco Material simples e barato permite esculpir na cor do mármore e desmitifica o trabalho como sendo algo necessariamente sofisticado.

Outro elemento ainda mais fácil de trabalhar que o arame e que pode ser uma boa alternativa na produção de esculturas com a classe é o sabão de coco. Sua cor, semelhante à do mármore, tão presente nas peças de artistas como Auguste Rodin (1840-1917) e outros mestres dessa técnica, inspira ainda mais a criançada após conhecer obras deles.

O ato de esculpir pode ser comparado a uma subtração: o aluno tem de retirar material para conseguir dar a forma, usando noções de proporção para não perder a proposta inicial. O pensamento é bem distinto da modelagem com argila, por exemplo, na qual o segredo é apenas dar forma e agregar mais massa. O sabão não deve ser aquecido nem amolecido. Quanto mais resistente, melhor será para o resultado final. A subtração pode ser feita com espátulas, facas e colheres de sobremesa.

Tanto os arames, que dão origem a figuras humanas, como o sabão de coco quebram o mito de que trabalhar com escultura é difícil e depende de materiais sofisticados. Para Jurema, é bom usar o que o ambiente da escola possui. "Em vez de perguntar o que falta, devemos pensar no que está disponível", recomenda.

Também é o que aconselha Nascimento: "A compreensão da escultura contemporânea permite explorar alternativas que substituam artigos caros". Propor situações com base no dia a dia dos estudantes, para que eles ampliem os conhecimentos prévios, é a saída para que o plano de aula dê um bom resultado.

Um pouco de teoria
Uma viagem nas técnicas 

A variedade de técnicas de escultura permite uma viagem ao tempo dos grandes artistas dessa linguagem. Falando sobre os usos do bronze e do mármore, pode-se visitar os períodos grego, romano e renascentista. As criações do mestre Aleijadinho (1730-1814) com pedra-sabão convidam a conhecer as obras barrocas e entender as expressões da cultura popular. Mais um salto histórico e chega-se à Semana de Arte Moderna de 1922, com a terracota usada por Victor Brecheret (1894-1955). Obras cinéticas e tecnológicas chamam à reflexão sobre a arte contemporânea.

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