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É tudo na prática

Para valorizar a atitude investigativa e o conhecimento prévio da turma, o ideal é realizar experiências científicas com jovens do 5º ao 9º ano

POR:
Thiago Moura, Rodrigo Ratier, Anderson Moço, NOVA ESCOLA
MÃO NA MASSA Estudantes de Curitiba conhecem bem a vidraria e sabem como usar os recursos do laboratório. Foto: Marcelo Almeida
MÃO NA MASSA Estudantes de Curitiba 
conhecem bem a vidraria e sabem como usar 
os recursos do laboratório. 
Foto: Marcelo Almeida

Apenas 15% dos alunos brasileiros da rede pública de Ensino Fundamental estudam em escolas com laboratório de Ciências. Nas particulares, a taxa não passa dos 60%. Números bem abaixo dos Estados Unidos, onde esse índice é de quase 90%. O que não significa que não se possa oferecer um ensino de qualidade em Ciências. É claro que a infra-estrutura ajuda, além de garantir segurança em procedimentos específicos. Mas o que realmente importa é a intenção do professor. "Muitas instituições com bons equipamentos não sabem usá-los, transformando o laboratório num local de confirmação dos conteúdos trabalhados em sala de aula", afirma Luciana Hubner, selecionadora do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10. "É como se fosse preciso provar que era verdade o que foi dito em classe, o que torna a atividade chata."

Realizar experiências por si só não melhora o aprendizado. Afinal, não é o fazer que faz a diferença, mas a reflexão sobre os processos para entender a lógica dos conteúdos abordados. "O ensino de Ciências deve ser uma maneira de pensar o mundo e a relação que estabelecemos com ele para permitir que os estudantes saibam usar o conhecimento", completa Luciana. É por isso que escolas sem laboratório conseguem fazer suas turmas avançarem - com atividades práticas e simples. Basta propor experiências que estimulem a observação, a experimentação e a pesquisa, não com uma visão cientificista, mas com a intenção de dar os meios para que todos relacionem o conteúdo ao cotidiano (leia mais no quadro abaixo). Em outras palavras, é preciso levar a garotada a se perguntar por que e como as coisas acontecem. "E, para tanto, não é preciso ter microscópios, vidraria completa, bancadas e pias. Basta ensinar com determinação e oferecer tarefas focadas na aprendizagem", ressalta Antonio Carlos Pavão, diretor do Espaço Ciência, ligado ao governo de Pernambuco.

Em linhas gerais, as fases podem ser: definição do tema principal, estabelecimento do conjunto de conteúdos necessários para que o aluno trabalhe o problema a ser investigado, alinhamento de objetivos a alcançar, seleção de atividades e clareza nos critérios de avaliação. Nunca é demais lembrar que, para estimular a autonomia, é aconselhável que os alunos participem da elaboração do protocolo, utilizem todos os materiais, organizem as anotações e discutam os resultados. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais, os três principais blocos de conteúdos no ensino de Ciências devem ser os conceitos, os procedimentos e as atitudes. Infelizmente, muitos colégios trabalham cada um separadamente - mas os especialistas garantem que as experiências práticas são um dos melhores meios de integrar e explorá-los de forma articulada.

Conceitos sem decoreba

Os conceitos são aquilo que a turma precisa saber: a base teórica, os dados, os fatos, as classificações e os princípios (um jeito antigo de pensar a prática de sala de aula é fazer a garotada só decorar informações, o que não leva a uma aprendizagem consistente). "As teorias científicas são complexas, geralmente distantes do senso comum, pois precisam de um alto grau de abstração. Daí a importância da experimentação para a compreensão desses conceitos", ressalta Ildeu de Castro, do Departamento de Popularização e Difusão da Ciência e Tecnologia do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Criar condições para que os alunos observem o conceito na prática é o que faz Daniel Inácio de Lima, do Colégio Estadual Humberto Mendes, em Palmeira dos Índios, a 136 quilômetros de Maceió. A escola possui um amplo e bem equipado laboratório, mas a experiência proposta para a classe de 7ª série é simples: construir um suporte para uma lâmpada, ligálo a uma bateria e deixar duas extremidades do fio soltas. Na bancada, três potes: um com água, outro com água e sal e o terceiro com água e sabão. Mergulhando as extremidades do fio nesses líquidos, em qual deles a lâmpada vai acender?

No primeiro momento, a maioria costuma apostar que isso ocorre nos três - o que valoriza ainda mais a experiência. No copo com água, a lâmpada fica apagada e o professor pergunta por quê. A água não conduz energia? Nos outros dois potes, a luz se acende. Novas questões são lançadas. Como o sal facilita a passagem da corrente? E o sabão? Daniel já havia ensinado em classe o papel dos íons na condução de eletricidade. "Num primeiro momento, alguns não conseguem relacionar o conteúdo da aula à observação e é preciso intervir", conta. Será que as outras substâncias mudam a estrutura química da água? Todos concordam e passam a pensar no produto final dessa mudança. Depois de muita discussão, vem a conclusão: a mistura faz com que parte das moléculas se separe e forme íons, que permitem a passagem da eletricidade - e o conceito de condutividade fica na cabeça, pois foi construído cientificamente em vez de ser apresentado apenas como um conceito a decorar.

Assim a turma aprende mais

Confira a seguir quatro dúvidas comuns sobre como melhorar o ensino de Ciências na escola.

- É imprescindível organizar uma feira de Ciências?
De maneira nenhuma. Muitas escolas com bons programas de ensino da disciplina não fazem feiras anuais. A idéia desse tipo de evento é apresentar para estudantes, professores e familiares um pouco do trabalho de investigação feito pelos alunos. Mas a feira não serve para nada quando só reproduz ano a ano experiências já conhecidas. Ela só faz sentido quando as turmas mostram como desenvolvem suas investigações e os caminhos percorridos, como num congresso de verdade.

- Como repor os materiais usados nas experiências?
Muitas instituições públicas com laboratório de Ciências contam com a ajuda das Associações de Pais e Mestres para ajudar a manter a estrutura funcionando. Reagentes, vidraria e os itens específicos para cada experimento são comprados pela APM e doados para a escola (já que requisitar o material para a Secretaria de Educação pode levar meses). Em outros casos, a direção se encarrega de adquirir o equipamento necessário. E também é possível pedir que os alunos levem de casa o necessário.

- É possível buscar apoio externo para aperfeiçoar o ensino?
Sem dúvida. Universidades e centros de pesquisa podem oferecer uma valiosa contribuição. A estrutura física e o conhecimento de seus professores estimulam ainda mais a turma. E faculdades públicas oferecem cursos de formação continuada para professores.

- Trabalhar com projetos é o melhor jeito?
Eles são bastante úteis porque favorecem o trabalho em equipe e a articulação entre os diversos conteúdos. Além disso, permitem chamar pessoas de fora da escola, o que pode ser muito interessante. Cabe a você planejar a seqüência de etapas, tendo em mente um claro objetivo final. E não se esqueça de documentar todas as etapas. No fim, a garotada pode produzir folhetos, jornais, cartazes, maquetes, dramatizações etc.

Procedimentos eficientes

Quando se fala em conteúdos procedimentais, é preciso responder às seguintes perguntas: como fazer uma boa investigação científica? Que passos garantem o sucesso de um trabalho desse tipo? Qual a forma correta de usar os instrumentos no laboratório? E a importância da pesquisa de campo? Vale destacar que a aprendizagem de procedimentos é inerente à aprendizagem de conceitos. O importante é que ela implica aprender a fazer. Para saber argumentar, é preciso dar espaço para os alunos desenvolverem e sustentarem idéias, confrontando-as com outras. "Os procedimentos devem aproximar a turma das formas de trabalhar mais rigorosas, criativas e coerentes com o modo de produção do conhecimento científico", ressalta Marcos Engelstein, formador de professores.

No Instituto de Educação do Paraná Professor Erasmo Pilotto, em Curitiba, Sherley Tamazini dá ênfase à aprendizagem desse bloco de conteúdos na 8ª série. Depois que a experiência do dia é explicada, ela convida um integrante de cada grupo a ir até a bancada e separar os ingredientes e materiais necessários. "Poderia deixar tudo pronto, mas acho importante que eles manuseiem os reagentes e a vidraria. Alguns têm medo de quebrar algo, mas é preciso torná-los confiantes." No fim de cada atividade, um relatório simples garante que todos cheguem a conclusões, sempre com a ajuda da professora, num caminho bem parecido com o seguido por cientistas de verdade.

Atitude de cientista

Já a categoria de conteúdos atitudinais abrange as normas e os valores que têm por objetivo criar um vínculo com o saber e sua produção, a chamada atitude científica. Aqui têm espaço a curiosidade, a busca constante, o desejo de conhecer pelo prazer de conhecer, a crítica e o questionamento, em oposição ao critério de verdade única. O mesmo vale para a valorização da vida em sua diversidade, a responsabilidade em relação à saúde e ao ambiente, a consideração de variáveis que envolvem um fato, o respeito às provas obtidas por investigação e a interação nos grupos de trabalho.

Na EEEMF Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, em Monte Negro, a 250 quilômetros de Porto Velho, os estudantes aprendem que persistir é fundamental e que um primeiro resultado não satisfatório serve de incentivo e base para novas investigações. Na escola, qualquer lugar com pia é candidato a sediar experimentos, muitos deles já premiados em feiras Brasil afora: melhor projeto de Ciências da Região Norte em 2007 concebido pela Fundação Oswaldo Cruz, destaque na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia em 2007 e 2006, e convite para expor na SBPC Jovem, evento da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

"Nossa idéia de trabalho é propor problemas para os alunos resolverem. Isso desperta o gosto pelas aulas", diz a professora Filomena Minetto Brondani. A palavra de ordem, diz ela, é evitar a reprodução de experiências conhecidas ou previamente ensinadas em sala. "Quando um experimento não dá certo, explico que isso também ocorre com os cientistas, o que nos leva a descobrir o que causou o problema." O projeto Sabão Antiinflamatório com Óleo de Copaíba teve início em 2006 com a missão de investigar se era possível acrescentar à fórmula do sabão comum o óleo de copaíba, uma árvore comum na região que índios e seringueiros usam com essa função. Orientados por Filomena desde a coleta do óleo, os jovens fabricaram várias amostras. Nas primeiras, o sabão ficou com uma aparência grosseira e o óleo não se dissolveu por completo. Depois de vários testes, muitos erros, anotações sobre cada passo e cada resultado, apareceu a fórmula ideal. "O valor de continuar pesquisando e testando é obter um resultado satisfatório", afirma a professora.

No Ensino Fundamental, o ensino de Ciências não visa formar biólogos, físicos e químicos, mas aproximar os alunos do saber científico e fazê-los pensar sobre os fenômenos naturais e o uso da tecnologia. Por isso, ele tem como referência o conhecimento produzido pela comunidade científica, mas precisa ser adequado à escola (confira uma sugestão de atividade no quadro ao lado). Os especialistas são unânimes em afirmar que essa é a única maneira de melhorar a qualidade das aulas no país. A julgar pelos testes nacionais e internacionais de avaliação, ainda temos um longo caminho a seguir. Um caminho que as escolas citadas nesta reportagem já estão trilhando.

Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA

A Didática das Ciências, Jean Pierre Astolfi e Michel Develay, 132 págs., Ed. Papirus, tel. (19) 3272-4500 , 27 reais

Didática das Ciências Naturais: Contribuições e Reflexões, Hilda Weissmann, 248 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444 (edição esgotada)

CONTATOS

Colégio Estadual Humberto Mendes
, Av. Muniz Falcão, 701, 57602-490, Palmeira dos Índios, AL, tel. (82) 3420-1224

EEEFM Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, R. Justino Luiz Ronconi, 2122, 67880-000, Monte Negro, RO, tel. (69) 3530-2943

Instituto de Educação do Paraná Professor Erasmo Pilotto, R. Emiliano Perneta, 92, 80010-050, Curitiba, PR, tel. (41) 3323-2511

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