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''Na greve, ocupei a Assembleia e enfrentei a tropa de choque''

Autorretrato

POR:
Laís Semis
Marchi: de Londrina a Curitiba no protesto contra a retirada de direitos dos docentes. Foto: Sergio Ranalli
Marchi: de Londrina a Curitiba no protesto contra a retirada de direitos dos docentes

 

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"Éramos 8 mil professores do lado de fora da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), em Curitiba, naquele 10 de fevereiro. Pelo caminhão de som do sindicato, ouvíamos o que acontecia lá dentro. O governador Beto Richa (PSDB) encaminhou duas leis com medidas que cortavam nossos direitos: entre outras coisas, modificavam nosso quinquênio (o reajuste dado a cada cinco anos), acabavam com promoções, extinguiam nosso fundo previdenciário e fixavam um teto para a aposentadoria. Era o tal pacotaço, que visava cobrir um rombo de mais de 1 bilhão de reais nas contas do estado. Ele seria votado em regime de urgência num único dia, por uma comissão especial - e não nas comissões fixas, como seria normal no Parlamento. Se aprovassem, perderíamos tudo.

O governador tinha maioria. Não podíamos deixar a votação acontecer. Decidimos ocupar a Alep.

Os PMs estavam ali adiante, na entrada da Assembleia Legislativa. A situação deles era igual à nossa: por serem servidores públicos, eles também seriam atingidos pelo pacotaço. Quando furamos a barreira, eles não resistiram. Falaram para a gente tomar cuidado e defender a carreira deles também.

Entramos.

Descemos rápido e fomos tomando o plenário. Rasgamos os papéis dos projetos enquanto professores gritavam palavras de ordem e colocavam bandeiras de movimentos sociais. Cantamos o Hino Nacional.

No dia 12, uma nova confusão. Eu já havia saído da Alep, mas muitos docentes seguiam lá dentro. Mesmo com a ocupação, alguns deputados tentaram entrar para votar num camburão da tropa de choque. Eu estava com um grande grupo na frente da Assembleia que se revoltou e forçou outra invasão. A repressão veio na forma de bombas de efeito moral e balas de borracha - enfrentávamos o choque e não os PMs comuns. Pessoas jogavam flores nos policiais e gritavam: ‘Sem violência, sem violência’. Foi muito emocionante. Por sorte, caiu uma chuva providencial e a fumaça das bombas não surtiu tanto efeito.

Para mim, o esforço valeu. Eu era professor de escola particular. Vim para a rede pública porque o estado do Paraná oferecia possibilidades atraentes de carreira. Como isso estava ameaçado, fui de Londrina a Curitiba participar da greve. Dormi em sofás na Assembleia e em barracas no acampamento no Centro Cívico, próximo à Alep. A população abraçou nossa causa. Vi gente aparecer e dizer: ‘Estou de carro e posso levar quatro pessoas para tomar banho na minha casa’. As escolas da capital se organizavam e ofereciam almoço para os grevistas.

Com a mobilização, o governo desistiu do pacotaço. A paralisação durou 29 dias e teve a adesão de 90% da categoria. Apesar de estar em greve, senti que aprendi. Foi um movimento de resistência para não perder direitos. Voltamos às aulas de cabeça erguida. Os alunos nos olham de outra forma. Eles viram que fomos para a rua. Estamos unidos."

Marcelo Birello Marchi é professor de Educação Física e Educação Especial da rede pública do Paraná

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