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Conhecer as famílias é essencial para organizar atividades remotas na creche

Escuta e parceria têm sido determinantes na organização de um atendimento a distância que considere o perfil e as necessidades da comunidade escolar e esteja alinhado às suas possibilidades e expectativas

POR:
Muriele Salazar Massucato
Crédito: Getty Images

Sabemos que o desafio do ensino remoto não se esgota. Embora estejamos, desde o ano passado, trabalhando predominantemente nesse formato, as questões continuam e são muitas. Como atender a todos, como ampliar as formas de participação e como evitar um processo educativo puramente transmissivo, que desconsidere os sujeitos envolvidos, são alguns dos exemplos. 

Na Educação Infantil, esse desafio é ainda mais complexo. Isso porque essa etapa da Educação trabalha em um contexto de interação e brincadeiras, com respeito à infância e a todas as suas formas de ser e experienciar, conforme preconiza a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Mas como fazer tudo isso caber em um projeto de atendimento não presencial?

Para falar sobre isso, vou contar minha experiência. Sou coordenadora pedagógica da Escola Municipal de Educação Básica Gildo dos Santos, uma creche localizada na cidade de São Bernardo do Campo, em São Paulo. Já escrevi para o site NOVA ESCOLA GESTÃO por quase dois anos, abordando diferentes temáticas, mas confesso que nunca imaginei que pudesse retornar agora à NOVA ESCOLA com um tema destes. Aliás, quem pensou, não é mesmo? A nossa experiência ainda é recente e estamos, nos diferentes cantos do país, construindo uma nova história, sem precedentes documentados aos quais podemos recorrer. A sensação de insegurança é, portanto, legítima e justificável.

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A escola onde atuo atende bebês e crianças bem pequenas, de 1 a 3 anos. Pensar em ensino remoto nessa faixa etária é algo extremamente delicado, pois há concepções que fundamentam o trabalho na primeira infância em uma lógica muito diferenciada da que estamos vendo nos outros segmentos de ensino, com aulas online, telas ou “folhinhas” para todos os lados. Porém, é fato que, à medida que temos bebês ou crianças vinculados à nossa unidade de ensino, cabe a nós, gestores e demais educadores da escola, viabilizarmos um atendimento que garanta os seus direitos. Também nos cabe manter um vínculo efetivo voltado a ações que compreendem, inclusive, medidas protetivas, que também são da esfera de responsabilidades da escola.

O educar e o cuidar são propósitos indissociáveis do trabalho realizado na Educação Infantil. Deste modo, precisamos conhecer a realidade dos bebês e das crianças em casa para podermos ajustar nossas práticas, alinhando-as às possibilidades e às expectativas das famílias, e protegendo e assegurando, mesmo que a distância, as infâncias e os direitos dos pequenos. Além das atividades remotas, posts formativos às famílias são muito bem-vindos, pois comumente recebemos relatos de dificuldades enfrentadas em casa referentes à alimentação, ao desfralde, ao comportamento etc.

Pesquisa e devolutivas
Na Gildo dos Santos, tivemos o cuidado de fazer uma pesquisa de levantamento do perfil da comunidade escolar para atendimento remoto. A pesquisa foi feita por meio do envio de um link de Formulário Google, encaminhado às famílias via WhatsApp. Consideramos neste instrumento de escuta algumas questões relevantes à organização do trabalho pedagógico, como quem cuida da criança e terá condições de acompanhar o ensino remoto e qual a disponibilidade da família para atendimentos síncronos online, via Google Meet. Perguntamos também sobre as formas de interação com as quais as famílias se sentem mais confortáveis, como relatos, fotos ou vídeos, para o envio de atividades assíncronas.

Essa pesquisa também demonstrou à comunidade a importância de um trabalho desenvolvido em parceria, pois deixamos clara a importância das devolutivas para acompanhamento do trabalho pedagógico a distância. Mencionamos, ainda, a construção dos portfólios digitais com fotos, vídeos e relatos sobre o processo educativo dos bebês e das crianças. Acredito que comunicar antecipadamente e com transparência as expectativas e as necessidades da escola é importante para a organização do trabalho, além de ser respeitoso com as famílias que atendemos.

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Tivemos uma expressiva participação da comunidade no retorno dessa pesquisa, mostrando o quanto sentem a importância de serem ouvidos e acolhidos. Os resultados foram compartilhados por meio de gráficos com os educadores em horário de trabalho pedagógico coletivo, como ação formativa, além de compor o projeto político pedagógico da unidade escolar, documentando e contextualizando como se deu o processo de organização do ensino remoto. Além disso, as educadoras da nossa escola receberam os dados tabulados por turma e puderam, com base neles, organizar o atendimento síncrono das famílias, respeitando os horários solicitados e o perfil levantado de cada família.

Com esse valioso instrumento e pautando-nos nas orientações da Secretaria de Educação Municipal, pudemos ainda organizar cronogramas semanais com as propostas da unidade escolar, que disponibilizamos previamente às famílias, via Facebook e grupo de WhatsApp das turmas. Estabelecemos assim uma rotina que busca respeitar a realidade da nossa comunidade, valorizando as interações e a “proximidade virtual”, tão necessárias ao processo educativo não presencial. O cronograma, portanto, configura mais uma ação de comunicação prévia e transparente às famílias, em respeito a cada uma delas.

Formas variadas de interação
As atividades assíncronas são disponibilizadas via grupo de WhatsApp, ferramenta pela qual, felizmente, conseguimos a participação de todas as famílias. Buscamos atender os bebês e as crianças bem pequenas com propostas de experiências para serem feitas em casa, com o apoio dos responsáveis, e cuidando para que sejam necessários apenas os recursos de que já dispõem. E sempre com o propósito de valorizar as interações e as brincadeiras como formas de aprendizagem e desenvolvimento.

As educadoras da nossa unidade escolar gravam vídeos curtos destinados aos responsáveis ou mesmo às crianças bem pequenas, porém buscando respeitar o tempo mínimo de exposição às telas, conforme recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria. Acreditamos que a proximidade com as educadoras por meio dos vídeos e de áudios nos grupos de WhatsApp das turmas promovem um maior acolhimento, pois as devolutivas por escrito fazem sentido somente aos adultos e não atingem nossos bebês e crianças bem pequenas. Pensando nisso, buscamos variar as formas de interação nesses grupos.

Relação Família-Escola na Educação Infantil

Neste curso Karina Rizek, formadora de educadores, e Ceila Pastório, diretora pedagógica da Creche Baroneza de Limeira, apresentarão diversas estratégias para que esta parceria seja colocada em prática. Elas apresentarão importantes recursos que apoiarão você a planejar com intencionalidade os momentos de participação.

Outro aspecto fundamental é valorizar todas as formas de participação da comunidade. Em nossa escola tomamos esse cuidado, respondendo a todas as fotos ou vídeos recebidos com muito carinho e atenção, pois acreditamos na importância do afeto no processo educativo e isso, obviamente, não pode se perder no contexto não presencial. Valorizar todas as conquistas dos nossos bebês e crianças é um foco importante do trabalho, além do incentivo para recebermos mais materiais que favoreçam o acompanhamento dos pequenos a distância.

As ações de busca ativa, por fim, são constantes e sempre na perspectiva do respeito e não da cobrança. Estabelecemos um fluxo interno para a busca ativa, objetivando a participação de todas as famílias no ensino remoto. Para isso, foi necessário o envolvimento das professoras, do oficial de escola (secretário) e da equipe gestora no processo. Temos uma planilha interna de registro das tentativas de contato, com um mínimo de três tentativas para restabelecimento da parceria. A abordagem dos diferentes profissionais tem o propósito de ouvir e acolher as dificuldades das famílias para viabilizarmos novas possibilidades de participação. Por fim, os dados são compilados e enviados para a Secretaria de Educação que também faz tal acompanhamento.

Enfim, como já sabemos, não há “receita” pronta ou uma forma única de viabilizar um atendimento não presencial de sucesso. Mas a minha dica de ouro é, na verdade, simples: conhecer, ouvir e respeitar a sua comunidade.

Espero tê-los inspirado um pouco frente a este enorme desafio. Façamos o melhor possível para atender aos nossos bebês e crianças, respeitando suas infâncias e seus contextos familiares.

Cuidem-se e fiquem em casa! Vai passar....

Com carinho e até a próxima!

Muriele Salazar Massucato

Muriele Salazar Massucato é coordenadora pedagógica há 11 anos na rede municipal de São Bernardo do Campo (SP) e já atuou com turmas de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos. Formada em Pedagogia, tem segunda licenciatura em Arte e especializações em Psicopedagogia e Ensino da Matemática. Foi autora do blog Coordenadoras em Ação no site NOVA ESCOLA GESTÃO, em 2016 e 2017.

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