A experiência de um diretor na retomada presencial das aulas durante a pandemia

Com a reabertura as cobranças e a capacidade de resposta dos gestores são constantemente postos à prova. José Marcos Couto Júnior compartilha os desafios de dirigir uma escola no cenário atual

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José Marcos Couto Júnior
Crédito: Getty Images

Em 2021, a pressão econômica de vários setores, as mudanças de gestão nas prefeituras, a necessidade de garantir a segurança alimentar e a ampliação do abismo educacional entre alunos da rede pública e particular foram determinantes para pressionar o retorno presencial em diversas cidades do país.

No município do Rio de Janeiro mais de duzentas unidades escolares, das quase mil e seiscentas, foram reabertas. Entre elas está a Escola Municipal Professora Ivone Nunes Ferreira, onde sou diretor desde 2019.

Receber alunos para aulas presenciais depois de quase um ano foi uma explosão de sentimentos. Aflição para saber se cumpriríamos os requisitos para o retorno; medo pela incerteza sobre a eficácia dos protocolos; satisfação ao perceber que o trabalho socioemocional realizado em 2020 deu certo e que laços foram mantidos; felicidade por voltar a ver o prédio escolar “vivo”, com estudantes interagindo e aprendendo; e culpa por me sentir feliz com a escola funcionando em meio ao caos de uma segunda onda da pandemia.

Curso gratuito: Acolhimento e segurança no retorno às aulas 

Para aqueles que precisarem retornar presencialmente, neste curso falamos sobre como os gestores podem se planejar para dar conta das várias dimensões do acolhimento, algo ainda mais importante no contexto de incertezas de 2021: o acolhimento emocional; a busca ativa (encontrar maneiras de trazer os alunos de volta à escola também é acolher); a organização para um retorno seguro, com todos os protocolos de higiene e saúde, e a garantia da aprendizagem.

Reabertura no meio da segunda onda da pandemia
Em março, retornamos presencialmente. Junto à equipe docente, planejamos uma série de atividades. Os alunos da Educação Infantil e do 1º ano do Fundamental fizeram pinturas e ouviram histórias da Turma da Mônica sobre a necessidade de usar máscaras. Foram todas propostas acolhedoras realizadas em um ambiente aberto. Todos estávamos felizes.

À noite do mesmo dia, chorei copiosamente ao ouvir a notícia de que nas últimas 24 horas mais de 1900 pessoas haviam perdido a vida por conta da covid-19 – número que era um recorde até então. Não é nada fácil. Gerir uma escola neste contexto exige atenção constante, respostas rápidas às demandas que surgem, conscientização contínua da comunidade escolar e a parceria com as equipes regionais de Educação e da saúde.

Mudanças na rotina e espaço escolar
O chão da escola foi todo demarcado, limitamos o número de alunos por turma, retiramos cadeiras e mesas das salas de aula para respeitar o distanciamento e instalamos dispensadores de álcool em gel pelos corredores. Realizamos diversas reuniões para explicar os protocolos à comunidade escolar, espalhamos avisos sobre a obrigatoriedade do uso de máscaras e criamos doze horários de entrada e saída para evitar qualquer tipo de aglomeração. Apesar de tudo isso, sinto cotidianamente a variação dos sentimentos de aflição, medo, satisfação, felicidade e culpa.

Como organizar e cuidar do espaço escolar em 2021

Neste Nova Escola Box, preparamos conteúdos sobre a importância pedagógica do espaço escolar e propomos uma reflexão sobre as mudanças no planejamento por conta da pandemia

Das notícias boas, está a esperança do que estamos passando para a nova geração. Atendemos, aproximadamente, 200 alunos de quatro a seis anos. Sabem aqueles memes e piadas de crianças trocando máscara e desrespeitando o distanciamento? Estão longe de se aproximarem da realidade. Os pequenos compreendem o momento - às vezes mais do que alguns adultos. Já presenciei crianças chamando atenção dos pais e responsáveis por não usarem máscaras e outras que perguntam “quando o tio iria passar álcool em gel no brinquedo para a sua turma brincar?”

Atualmente, estamos atendendo em um horário reduzido – 3 horas diárias – e com um menor número de estudantes por sala. Como recebermos, no máximo, 12 alunos por turma torna-se possível fazer um atendimento mais individualizado. O que é uma novidade para os professores e pode trazer bons resultados na aprendizagem dos alunos.

Os caminhos para se preparar para a retomada
Diferente de 2020, quando tivemos que nos reinventar para uma realidade inédita, os gestores não possuem mais margem para experimentos ou repetição de erros. Após um ano em meio à realidade do “novo normal”, tivemos tempo para analisar fragilidades, compreender caminhos para o atendimento de um ensino híbrido de fato e nos preparar para atendermos os nossos alunos de forma presencial. 

Muitas escolas não poderão ser reabertas em curto e médio prazo, mesmo após a vacinação. Falta estrutura, recursos humanos e tecnológicos. Cabe às secretarias de Educação fazer o mapeamento das instituições aptas ao retorno, realizar a reforma daquelas não aptas e ofertar um ensino remoto para os alunos sem acesso à internet. Além de garantir a segurança alimentar dos estudantes ao fazer distribuição de alimentos.

Os gestores escolares devem buscar leituras e capacitações para encontrar as melhores soluções para a cultivar os laços com a comunidades escolares. Quando a escola reabrir, não voltaremos a como era antes de março de 2020. O novo normal não será passageiro.

Curso gratuito: como apoiar a equipe no replanejamento contínuo

Este curso apresenta sugestões para os gestores elaborarem um instrumento de planejamento que inclua informações importantes, como a modalidade de ensino adotada pela escola e as ações do professor e do aluno, além de objetivos de aprendizagem e habilidades a serem trabalhadas

Não darei aqui qualquer veredito se esta abertura é benéfica ou não. Mas reitero o meu entendimento de que a luta pela segurança dos profissionais de Educação e alunos deve ser respeitada e o retorno só deve ocorrer com segurança. Falo de um lugar privilegiado, já que dirijo uma escola inaugurada há apenas dois anos, sem problemas estruturais. Sigo atento para ouvir e participar do debate que levanta argumentos sobre a garantia dos direitos constitucionais à vida, à saúde e à Educação.

No entanto, é indiscutível que o processo de abertura das unidades escolares não é, e não será, viável para todas as instituições do país. Muitas não possuem ventilação, saneamento básico, banheiros. Logo, é impossível falar de protocolos de biossegurança diante desta realidade.  

Não podemos repetir 2020, quando muitos estudantes deixaram de ter acesso à Educação por conta da falta de planos de contingência. As crianças precisam estudar, isto é um fato. Porém, necessitamos, antes de qualquer coisa, do suporte de políticas públicas que viabilizem a escola aberta e aprendizagem. Em nosso contexto atual de crise sanitária, vacinar todos os profissionais de Educação torna-se essencial para que este retorno dê certo.

José Marcos Couto Jr.

José Marcos Couto Júnior é formado em História e Mestre em Educação pela Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Em 2018, foi eleito Educador do Ano no Prêmio Educador Nota 10. Servidor da Prefeitura do Rio de Janeiro há 10 anos, atua desde fevereiro como diretor na Escola Municipal Professora Ivone Nunes Ferreira, no Rio de Janeiro.

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