Projeto de robótica transforma vida de alunos em São Paulo
Ao trabalhar com sucata, Débora Garofalo teve que vencer a resistência dos gestores da escola e dos pais dos alunos. Projeto foi finalista do Global Teacher Prize
29/10/2019
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Jornalismo
29/10/2019
Você consegue imaginar um carrinho construído com materiais recicláveis se mover sozinho, somente com a “ajuda” de um balão de festa? Pois é. Esse é apenas um dos resultados de uma ideia que surgiu da vontade de transformar a vida de crianças e jovens da Zona Sul de São Paulo. O projeto Robótica com Sucata promovendo a sustentabilidade, da professora Débora Denise Dias Garofalo, há cerca de quatro anos vem cumprindo seu papel. Os frutos dessa iniciativa colocaram a educadora como finalista do maior prêmio de Educação do mundo, o Global Teacher Prize. Mas, antes de alcançar o reconhecimento internacional, Débora encarou um emaranhado de desafios.
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Na escola pública em que dava aulas, a EMEF Ary Parreiras, em uma comunidade carente de serviços básicos, como saneamento, 70% dos alunos disseram que o lixo era um problema real na vida deles. E era mesmo, principalmente em dias chuvosos. “Além dos alagamentos, que faziam os alunos faltarem às aulas, o lixo também provocava doenças, como dengue e leptospirose, de modo que falar sobre esse lixo se tornou uma necessidade”, lembra. Professora de Tecnologia do 1º ao 9º ano do Fundamental, decidiu então ressignificar esse problema e transformá-lo em oportunidade para ensinar e aprender.
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Para ela, o projeto possibilita, além da robótica, uma intervenção na sociedade por meio do exercício da cidadania e do protagonismo juvenil, o que tem mudado a forma que com esses estudantes se olham, segundo Débora. “Meus alunos não tinham ideia de que podiam fazer robótica, eles achavam que isso era coisa de escola particular. E o maior aprendizado disso tudo foi poder ter dado sonhos a essas crianças que sonhavam em ganhar pacote de bolacha e bola de futebol no fim do ano e, de repente, se viram fazedores, protagonistas de suas próprias vidas”, conta.
Todo o projeto foi estruturado a partir das vozes dos próprios alunos, de acordo com Débora. “Sempre respeitei a vontade do que eles queriam produzir, me tornando uma mediadora desse processo”, lembra. Além disso, a professora reforça que o trabalho é, essencialmente, replicável em qualquer escola, o que é até mesmo uma premissa do Global Teacher Prize.
Débora explica que o professor não precisa sair às ruas procurando lixo e sucatas, como ela fez, e que o projeto pode ser adaptado. Um caminho para isso é pedir aos alunos que levem para a escola materiais recicláveis e o que não se utiliza mais em casa. A partir dos conceitos de sustentabilidade, o educador, por sua vez, pode levar um novo problema, como uma questão importante para a comunidade e o entorno da escola. “São ‘n’ possibilidades que o professor pode explorar e pode, também, abrir isso para a comunidade escolar. O que é muito importante porque dá voz e protagonismo aos alunos, desafiando eles a fazer o trabalho proposto”, explica.
Outro ponto importante é que o projeto é autossustentável. Isso porque, no começo, Débora e seus alunos perceberam que muitos materiais que eram retirados da rua não eram aproveitados, como o vidro. Eles então venderam o que não seria utilizado e, com o dinheiro, compravam materiais que eventualmente faltavam para a produção dos protótipos.
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- Proporcione pesquisas e rodas de conversa;
- Dê asas à imaginação;
- Aulas de sensibilização sobre sustentabilidade, aulas públicas pelo bairro e conversa com os moradores e comércios da região.
- Trabalhe a linguagem de programação. Recomendo Scratch S4 e Ardublock, dois programas que utilizo com os alunos. Ambos são softwares livres gratuitos e são bastante intuitivos;
- Comece simples, quando iniciei com as turmas, fiz uma oficina com o carrinho movido a balão de ar, explicando na prática a 3ª lei de Newton, depois realizamos aulas para a explicação de circuito aberto e fechado, como acender um led, como fazer o motor girar, com o tempo evoluímos e construímos diferentes protótipos, utilizando a interdisciplinariedade e também materiais que encontramos;
- Monte fichas de investigação e observação para anotações;
- Leve materiais recicláveis para a sala de aula, como tampinha, papelão, rolinho, caixas, garrafa pets, canudos, palito de sorvete, palito de churrasco, entre outros;
- Oriente os alunos durante a criação dos protótipos e faça questões provocadoras;
- Envolva a comunidade escolar e dê aos alunos a oportunidade de apresentar os seus trabalhos dentro da escola e fora dela também, como feiras e exposições;
- Deixe a criatividade e a inventividade invadir a sala de aula.
Indicação: Ensino Fundamental
Disciplinas: Tecnologia, Língua Portuguesa, Matemática, Ciências, História, Arte
Duração: tempo indeterminado
O que é o projeto?
O projeto Robótica com Sucata promovendo a sustentabilidade foi desenvolvido e estruturado para transformar a vida de crianças e jovens da periferia de São Paulo e traz ao palco a construção de utensílios reciclados do lixo retirados das ruas de São Paulo como forma de mediar a construção de conhecimento de conteúdos curriculares, de eletrônica e de robótica. O projeto tem atuado diretamente na transformação da vida de 2.000 jovens e crianças da comunidade escolar da rede pública, que participam ou já participaram do projeto. O trabalho é organizado para mobilizar uma prática pedagógica e formativa que incentive a aprendizagem do aluno pela sua criatividade e o estimula a experimentação de ideias e exploração de pesquisas para propor soluções locais à comunidade. Uma dessas soluções que se destaca é a reciclagem feita pela coleta de recicláveis de São Paulo que dão origem a construção de robôs e materiais de eletrônica. O projeto ainda propõe a construção de carrinhos motorizados, robôs pessoais com placas programáveis como arduinos e microbit, máquina de refrigerante, aspirador de pó, entre outros. Desta forma, o Robótica com Sucata envolve diversas áreas do conhecimento, possibilitando uma aprendizagem mais ativa e atuante ao aluno. Mais do que isso, o projeto tem ajudado a pensar a escola que não só produza conhecimento, como também traga contribuições locais, como: a retirada de lixo das ruas de São Paulo, 1 tonelada de materiais recicláveis, transformando em protótipos com funcionalidades específicas, estimulando a responsabilidade social e o pensamento científico.
Do que vou precisar?
- Placas programáveis;
- Leds;
- Motores;
- Fios;
- Programas para trabalhar programação, como Scratch S4 e Ardublock (gratuitos);
- Referências na internet, como o canal no YouTube Manual do Mundo.
Quais os objetivos de aprendizagem trabalhados? (BNCC)
As 10 Competências Gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estão presentes em todo o trabalho, uma vez que coloca a Tecnologia como uma delas. Além disso, as habilidades socioemocionais também são trabalhadas, uma vez que o trabalho reforça o autocuidado, a autogestão e é uma premissa da Tecnologia desenvolver, por exemplo, a empatia e a colaboração.
E os desafios? Como encará-los?
“Os primeiros desafios foram trazer os colegas para fazer parte do trabalho e, depois, mudar o olhar da gestão. Lembro da minha primeira aula realizada fora do laboratório de Tecnologia. Minha coordenadora falou para mim: ‘Eu nunca imaginei um trabalho de Tecnologia fora da sala de aula’. Então foi preciso muita resiliência para poder mostrar culturalmente para os atores da própria escola que era possível inovar. A outra etapa foi fazer o mesmo, mas com os pais, que tinham certa resistência em relação às crianças com o lixo, de olhar que pegar o lixo da rua não ia resolver o problema deles. Ao longo do tempo, foi um trabalho de bastante convencimento, culturalmente, sempre mostrando que eles podiam fazer a diferença. Foi tudo aos poucos, afinal, é um trabalho de 4 anos. Precisou ser aos poucos para termos grandes resultados e para que se tornasse uma metodologia de ensino como é hoje”, conta Débora.
E no final? O que meus alunos vão aprender?
“O principal aprendizado é mostrar que é possível fazer muito com pouco. E, quebrar um paradigma de ensino no Brasil. Os alunos colocam isso para mim de forma forte, que não tinham ideia de que podiam fazer robótica, que era coisa de escola particular. A gente quebra isso quando olhamos para aquilo que temos no nosso meio e transformamos isso em protótipos. Vemos hoje o país influenciado por esse trabalho e também buscando outras vertentes. Além disso tudo, foi dar novos sonhos a essas crianças e elevar os índices escolares, como saltar de 4,2 para 5,2 no Ideb, diminuir 93% da evasão escolar, combate ao trabalho infantil, e retirada de 1 tonelada de lixo das ruas de São Paulo”, explica a educadora.
Débora Garofalo é Assessora Especial de Tecnologias da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo (SEE SP) e professora da rede pública de ensino de São Paulo. Formada em Letras e Pedagogia, mestranda em Educação pela PUC-SP, vencedora na temática Especial Inovação na Educação no Prêmio Professores do Brasil e uma das dez finalistas do Global Teacher Prize, o Nobel da Educação.
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