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Débora Garofalo: as lições de uma professora brasileira no Teacher Prize

Finalista do maior prêmio de Educação do mundo compartilha os aprendizados de estar em um grupo seleto de educadores

POR:
Débora Garofalo

Um prêmio nunca é um fim em si mesmo. Ele é o começo de uma nova jornada e a celebração de um longo caminho! Foi com este espírito que deixei o Brasil e parti para a Dubai, nos Emirados Árabes, rumo à maior premiação docente: o Global Teacher Prize (Prêmio Professor Global, em tradução literal).

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No caminho, um misto de sensações com a oportunidade de aprender com professores de diferentes partes do mundo e muitas mensagens recebidas de carinho e torcida – de colegas de profissão, estudantes e da sociedade em geral. Um incentivo para continuarmos lutando pela transformação da nossa Educação, em um momento tão conturbado, em que não vemos propostas claras do Ministério da Educação (MEC) para fomentar o processo de ensino e aprendizagem.

 
Estar entre os 50 finalistas do Prêmio Professor Global, já era algo incrível... até que no dia 14 de fevereiro recebi um telefonema dizendo que eu estava entre as 10 melhores professoras do mundo. Naquele momento só conseguia pensar nas crianças e o quanto era importante aos estudantes este reconhecimento e o quanto isso iria ajudar a comunidade em que leciono. Como permitiria dar voz a eles e à outras regiões similares, o quanto esse reconhecimento era importante para valorizar as práticas dos professores e o quanto era necessário envolver os professores nas politicas públicas. Naquele momento independente do resultado, já me sentia vencedora.

Levar o trabalho do Brasil para um cenário internacional, trocar com outros nove professores de diferentes nacionalidades e realidades, oportunizar que o ensino de programação e robótica ocorra para todas as crianças brasileiras e para o mundo... é um sonho, que começa a ser realizar! Todo professor deseja que o mundo seja sua sala de aula.

Durante os sete dias em Dubai fiquei muito próxima aos professores finalistas (devido a agenda do evento) e descobri que tínhamos muitas coisas em comum: a vontade de transformar vidas, falta de valorização docente, questões de pobreza, falta de políticas públicas e o uso das tecnologias como uma propulsora da aprendizagem, mesmo em lugares em que os recursos são escassos  e o uso de ferramentas digitais foram essenciais para promover a diferença.

Conheça um pouco da história dos 10 finalistas

Andrew Moffat: trabalha em Parkfield Community School, na cidade Birmingham, no Reino Unido. A região abriga muitos imigrantes e Moffat ensina inclusão e diversidade através de um programa chamado 'Sem estrangeiros'.

Daisy Meters: é professora em uma escola comunitária nos Países Baixos, lecionando em uma área carente com alunos de 30 nacionalidades e diferentes níveis de aprendizagem. Seu trabalho visa estimular a participação das crianças no planejamento de sua própria aprendizagem.

Débora Garofalo: professora de tecnologias da EMEF Ary Parreiras, localizada em uma área carente de São Paulo, cercada por quatro favelas famosas pela violência. Com o projeto "Robótica com sucata promovendo a sustentabilidade", além de trazer a robótica para a sala de aula, o projeto já removeu mais de 1 tonelada de lixo das ruas.

Hidezaku Shoto: no Japão, ele desenvolveu um método de ensino de inglês que usa o Skype e o Minecraft para se comunicar com estudantes de outros países, combinando inglês e programação.

Martin Salvetti: na Argentina, o professor montou uma estação de rádio em uma escola que possui uma grade de programação que cobre todas as horas dos sete dias da semana. O projeto atrai escolas de toda região para conhecer o trabalho dos alunos de Salvetti.

Melissa Salguero: em uma comunidade carente de Nova York, nos Estados Unidos, a professoa levantou recursos para comprar instrumentos musicais. Com isso, ela garantiu que as aulas de música fossem retomadas na escola após 30 anos sem acontecer. Ela ajudou também montar a primeira banda pública do colégio.

Peter Tabichi: em uma área remota do Vale do Rift, no Quênia, o professor montou um grupo de formação de talentos, expandiu o Clube de Ciências e garantiu o engajamento da turma, que, por questões como fome e gravidez, têm dificuldades para permanecer nos estudos.

Swaroop Rawal: na Índia, a professora desenvolveu um projeto que usa o drama na Educação (que inclui instrumentos como discussão em grupo, brainstorming, debate, jogos e Arte) para ajudar a ensinar habilidades para a vida e tornar as crianças mais resistentes.

Vladimer Apkhazava: na Geórgia, ele desenvolveu o programa "Revolução Democrática", como uma prática de gestão democrática. Com o projeto, a comunicação entre a comunidade melhorou e os alunos assumiram um papel mais ativo.

Yasodai Selvakumaran: apesar de ter nascido no Sri Lanka, Yasodai é reconhecida como uma grande líder na Austrália, onde leciona em uma escola com muitos aborígenes e ajuda a lutar contra estereótipos.

Uma possibilidade de troca, a bagagem de cada um dos professores fortaleceu o trabalho do outro. Cada um se dedicou duramente a mudar a realidade dos seus alunos, somos agentes da transformação! Precisamos ser valorizados e acredito que todo professor deva ter a oportunidade de participar de uma celebração do seu trabalho.

Durante o fórum Global do prêmio, uma questão muito abordado foi a das tecnologias – sob o olhar atento da necessidade de usá-la para alavancar a aprendizagem. Tony Blair, ex-primeiro ministro britânico, em seu discurso afirmou que para o progresso de uma nação é essencial o investimento em Educação.

Das lições que tiro do Teacher Prize...

Não é preciso de altos recursos para ensinar e aprender tecnologia. Não é preciso ser um expert para construir e transformar uma realidade a partir do zero. Que trabalhar com tecnologia independe de credo, cor, raça e religião e que todos podemos e devemos aprender um com os outros. Que a Educação é a única arma para mudar uma sociedade.

Tenho uma frase que carrego comigo e é propícia ao momento:

“Analogamente, ser digitalmente fluente não é apenas saber como usar ferramentas tecnológicas, mas também saber como construir coisas significativas com elas” (PAPERT e RESNICK, 1995).

Um abraço,

Débora Garofalo
Professora da rede Municipal de Ensino de São Paulo, formada em Letras e Pedagogia, mestranda em Educação pela PUC-SP, colunista de Tecnologia para o site da NOVA ESCOLA, Vencedora na temática Especial Inovação na Educação no Prêmio Professores do Brasil e Top 10 no Prêmio Global Teacher Prize, considerado o Nobel da Educação.

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