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EJA: Maracatu desconstrói preconceitos de alunos em São Paulo

Ao perceber ideias distorcidas sobre cultura nordestina, Marcos Ribeiro das Neves resolveu iniciar projeto

POR:
Camila Cecílio
Crédito: Tuane Fernandes

Imagine o seguinte cenário: jovens e adultos com idade entre 15 e 60 anos e trajetórias de vida bastante distintas. Isso, por si só, já demonstra uma série de diferenças. Agora, acrescente a essas pessoas diversas religiões e, consequentemente, haverá várias formas de ver o mundo. Geralmente as turmas da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da CIEJA Campo Limpo, da Zona Sul de São Paulo, são assim. Tanta diversidade, no entanto, se não for trabalhada com base no respeito, pode trazer à tona manifestações de preconceito. 

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Foi justamente o que aconteceu em uma das turmas do professor de Educação Física Marcos Ribeiro das Neves, um dos vencedores do Prêmio Educador Nota 10 de 2018. Ao trabalhar com a temática das culturas periféricas, ele passou a perceber narrativas preconceituosas por parte de alguns alunos. Um deles ocorreu quando uma aluna mostrou uma foto do pai, caboclo de lança do Maracatu, manifestação cultural pernambucana e afro-brasileira, e os colegas se benzeram. Surgia assim o projeto Desconstrução de Preconceitos, que, de fato, cumpriu seu papel na escola.

 

O educador conta que a turma tinha um ponto interessante em comum: 80% era ou tinha ligação direta com o Nordeste. “Essa é uma característica, inclusive, da região em que vivemos, onde há muitos nordestinos”, observa. Quando percebeu que havia ideias distorcidas sobre um elemento da cultura nordestina, Marcos não teve dúvida em trabalhar com os estudantes a história do Maracatu. “Eu mesmo não sabia nada sobre o Maracatu, então comecei a estudar, a ler e assistir vídeos, e frequentar lugares para aprender e vivenciar com os dançantes”, lembra Marcos. 

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Daí em diante o trabalho era construído aula a aula e não sem desafios. Os conhecimentos mexiam bastante com os alunos, segundo o professor, principalmente porque rompiam com o olhar preconceituoso que tinham. “Alguns conversavam com seus líderes religiosos e voltavam para a escola incomodados e resistentes. Mas, pouco a pouco, os efeitos do trabalho começaram a aparecer na fala deles”, ressalta. 

Para Marcos, esse é o trabalho mais significativo dos seus 14 anos de carreira. “Eu também rompi com algumas ideias e uma delas era de que eu tinha que pensar, a priori, o que iria dar nas aulas. Mas eu não conseguia fazer isso, apenas fui sentindo e vivendo com eles esse trabalho”, completa.  

Crédito: Tuane Fernandes

Como posso desenvolver esse projeto na minha escola?

O professor garante que, para que seu projeto seja desenvolvido em outras escolas, basta que o educador se aproprie de um método específico para isso. Em outras palavras, que use técnicas para produzir conhecimento nas aulas de Educação Física. Ele sugere algumas, como, por exemplo, fazer um mapeamento com diferentes tipos de imagens, como fotos e vídeos, para identificar os saberes dos estudantes e suas representações culturais sobre a prática corporal. 

Outra técnica seria ampliação e ressignificação. Isso é, entrevistar os representantes do tema escolhido, analisar outras maneiras de vivenciar a prática corporal, assistir vídeos com outros corpos para desfamiliarizar suas ideias sobre o tema, além disso, propor alternativas e modificações para que a prática possa ser vivenciada no ambiente escolar. 

Marcos também indica o aprofundamento: identificar e investigar o contexto histórico que norteia a tematização, e a ancoragem social, que é vivenciar corporalmente da maneira que os grupos criaram e praticam o tema investigado, bem como entender o sentido político no qual a manifestação corporal foi criada.

 

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a desconstrução de preconceitos - por marcos ribeiro das neves

Crédito: Tuane Fernandes

Indicação: Fundamental 1 e 2, Ensino Médio e EJA
Disciplinas: Educação Física, História, Geografia, Arte
Duração: de 6 meses a 1 ano

O que é o projeto?
O projeto é uma tematização de maracatu, realizada no Cieja Campo Limpo nas aulas de Educação Física, a partir do currículo cultural de Educação Física.

Do que vou precisar?
Qualquer fonte que traga informações sobre o Maracatu, como:

- Vídeos;

- Textos;

- Reportagens;

- Entrevistas com pessoas do bairro ou da região que possuem conhecimentos sobre a prática corporal.

Quais os objetivos de aprendizagem trabalhados?
O principal objetivo foi desconstruir o olhar preconceituoso sobre o Maracatu e seus representantes, bem como ampliar os conhecimentos sobre a prática corporal, vivenciar e apresentar uma construção de um cortejo a partir dos conhecimentos acessados durante o projeto.

E os desafios? Como encará-los?
“Acredito que lidar com o desrespeito que a escola e alguns colegas tinham sobre o componente curricular. Uma maneira de lidar com isso é mostrar a importância do componente para os demais professores”, explica o professor Marcos.

E no final? O que meus alunos vão aprender?
“Eles desconstruíram neles mesmos a visão preconceituosa sobre o maracatu e seus representantes. Aprenderam a criar questões sobre o objeto de estudo, entrevistar pessoas, buscar o conhecimento em diferentes fontes de informação e criar um cortejo a partir de suas experiências de vida”, diz.

Marcos Ribeiro das Neves é professor da rede municipal de São Paulo, mestre em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), membro do Grupo de Pesquisa em Educação Física Escolar da Faculdade de Educação da USP desde 2007.

 

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