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Jornalismo

“EAD pode ser uma opção para a EJA, mas no ensino regular precisamos do aluno na sala de aula”

Marioneide Kliemaschewsk aponta os desafios do estado e explica como pretende discutir a BNCC do Ensino Médio com a rede

PorPaula PeresFlavia Goulart

12/04/2019

Em 2019, NOVA ESCOLA vai publicar entrevistas com os secretários de Educação dos 26 estados e do Distrito Federal para ouvir os planos, perspectivas e as opiniões de quem lidera a pasta pelo país.

Marioneide Kliemaschewsk, secretária de Educação do Mato Grosso. Crédito: Assessoria de Comunicação/SEDUC


A secretária estadual de Educação do Mato Grosso Marioneide Kliemaschewsk tem entre suas metas para o novo Ensino Médio “focar no protagonismo juvenil” para que os estudantes dessa fase façam um “projeto de vida”.

“Ao definir a BNCC do Ensino Médio, ao construir esse documento orientador, nós estamos possibilitando que os alunos participem dessa construção, verificando quais são os itinerários formativos que vamos desenvolver na escola, de acordo com as habilidades e competências daquele grupo de alunos”, explica ela em entrevista exclusiva a NOVA ESCOLA. “O aluno vai ter a possibilidade de participar da discussão coletiva em cima do currículo que vai ser desenvolvido na escola, mas ele também poderá, como protagonista da sua própria aprendizagem, construir a sua história de vida educacional”.

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No Mato Grosso, a Secretaria de Estado da Educação está fazendo a discussão da Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio “com toda a base”. No entanto, a secretária tem obstáculos em seu caminho. E um dos maiores é financeiro: a pasta demitiu quase 2 mil servidores e tem dívidas a pagar que datam ainda de 2008.

“As receitas, de uma forma geral, não conseguem fazer frente às inúmeras despesas que o estado tem, então isso gera um desconforto no investimento do que realmente precisamos, que é a melhoria da infraestrutura escolar, do mobiliário e dos equipamentos das nossas escolas. Estamos falando também da melhoria dos investimentos voltados para recursos pedagógicos diferenciados em sala de aula. Esse é o grande desafio”, afirma Marioneide.

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Marioneide assumiu o cargo em abril de 2018, substituindo o então secretário Marco Marrafon ainda na gestão do governador Pedro Taques (PSDB), e permaneceu no cargo após a eleição de Mauro Mendes (DEM). Desde então, ela comanda uma rede de 767 escolas que, de acordo com dados do Censo 2018, recebeu um total de 395.206 matrículas. Antes das demissões, o Censo apontava um total de 46.56 funcionários.

A secretária de Educação tem 31 anos de experiência na área. Graduada em Pedagogia, ela começou dando aulas para o Ensino Fundamental na rede municipal de Educação de Cuiabá e depois assumiu o cargo de diretora. Em 2013, Marioneide começou a trabalhar na Secretaria Municipal de Educação de Cuiabá e, três anos depois, assumiu a pasta. Em 2017 foi convidada por Marco Marrafon para dirigir a Secretaria Adjunta de Gestão Educacional e Inovação, na pasta estadual. Foi nesta ocasião que implementou projetos como o Avalia MT, que visa traçar diagnósticos de toda a rede de Educação do estado.

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Veja a seguir os principais trechos da entrevista da secretária de Educação do Mato Grosso em que ela fala das dificuldades da pasta no estado, como sua experiência determina seu trabalho no setor e quais as perspectivas para a reforma do Ensino Médio.
                                          

NOVA ESCOLA: Você assumiu a secretaria em 2018, mas já ocupou outros cargos na gestão pública, e também já foi professora e diretora. Com essa experiência, você conhece os pontos fortes e fracos da Educação do estado em diferentes perspectivas. Como você avalia, no geral, a Educação no Mato Grosso?
MARIONEIDE KLIEMASCHEWSK: 
A Educação como um todo no nosso país precisa, sem sombra de dúvidas, melhorar em vários aspectos. Mas no estado do Mato Grosso, nos últimos anos, nós percebemos que vêm sendo desenvolvidas algumas estratégias de melhoria que eu chamo de projetos diferenciados. Eles possibilitam não só a revisão de um projeto político-pedagógico, mas também a recondução do currículo escolar como processo de avaliação do nosso aluno, acompanhando os desafios dos níveis de aprendizagem nos quais ele se encontra, bem como a avaliação do processo de desempenho do professor e da equipe gestora. Todas essas ações são articuladas dentro do projeto Avalia Mato Grosso. Com isso, nós conseguimos diagnosticar quais são as necessidades de melhoria e pactuar planos de ações para essas melhorias, no desempenho do profissional, no projeto político-pedagógico, no desempenho do aluno e na estrutura como um todo.

Quando assumimos a Secretaria de Educação no dia 5 de abril de 2018, nós focamos na melhoria desses projetos do chão da escola, que é onde as coisas acontecem. E conseguimos evoluir: Mato Grosso ocupava a 26ª posição em Educação em 2015 e passou para o 12° lugar em 2017 e de lá para o 16° no ano passado*, ou seja, estamos evoluindo gradativamente. Isso tem sido fruto de um trabalho priorizando a Base Nacional Comum Curricular para avaliar os alunos e fazer uma intervenção em tempo ideal, e o desenvolvimento dos profissionais da Educação, investindo em formação continuada.

* Nota da edição: de acordo com informações do QEdu, em 2015 o estado do Mato Grosso ocupava a 5ª posição no ranking dos estados do Brasil, com Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 3,5, quando analisado o Ideb das redes estaduais no Ensino Médio, junto com Acre, Distrito Federal, Minas Gerais e Amazonas. Em 2017, o estado caiu algumas posições e encontrou-se na 9ª colocação, com Ideb de 3,2.

Você tem uma trajetória no chão da sala de aula. Faz diferença ter passado pela escola ao ocupar o cargo de Secretária de Educação?
Para mim, sem sombra de dúvidas, existe uma grande diferença. Você conhece a realidade do cotidiano escolar. Você sabe das mazelas que existem dentro do processo educacional, principalmente quando são atribuídas à Educação inúmeras funções que fazem com que o professor gaste muito da sua energia para combater, analisar e vivenciar conflitos na escola. Nos últimos anos, são atribuídas às escolas competências para avaliar e melhorar as questões relacionadas à fome, à violência, a problemas de saúde dos alunos e até conflitos familiares. Essas ações, até pouco tempo, eram destinadas à Secretaria de Saúde ou à Secretaria de Assistência Social, conselho tutelar, e hoje são consideradas um desafio no ambiente escolar, atribuindo ao professor mais algumas funções no cotidiano escolar.

Mas a grande importância de eu ter vivenciado cada tijolinho desse é que foi possível construir uma rede de conhecimento, experiências e vivências que possibilitam analisar dentro de um contexto de gestão pública o que de fato é prioridade na escola. Como é que nós podemos fazer para entrar na escola, para atingir o grande e maior objetivo da Educação que é a sua função social de garantir a aprendizagem dos alunos? De que forma posso construir mecanismos estratégicos, juntamente com os profissionais da Educação, para traçar metas de evolução dessa aprendizagem? Isso tudo colabora para que eu, como secretária, possa articular o orçamento e o planejamento estratégico, fazendo com que as ações cheguem à escola com esse olhar de vivência do chão de sala de aula e para que o resultado apareça na prática.

Quais são os principais desafios que você enxerga na rede do Mato Grosso?
Hoje nós ainda temos alguns desafios bastante difíceis, como a questão financeira, pela qual passa o estado do Mato Grosso, assim como outros estados. As receitas, de uma forma geral, não conseguem fazer frente às inúmeras despesas que o estado tem, o que gera um desconforto no investimento do que realmente precisamos, que é a melhoria da infraestrutura escolar, do mobiliário e dos equipamentos das nossas escolas. Estamos falando também da melhoria dos investimentos voltados para recursos pedagógicos diferenciados em sala de aula. Esse é o grande desafio.

Outro desafio, sem sombra de dúvidas, é no nível pedagógico: fazer a discussão da BNCC de forma articulada com os municípios, fomentando e implementando as novas políticas educacionais, voltadas para o currículo no Ensino Fundamental e no Ensino Médio. Esse é um grande desafio pois, por mais que o Mato Grosso já tenha avançado e construído um documento em regime de parceria com a Undime [União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação], com o Conselho Estadual de Educação, com a Uncme [União Nacional dos Conselhos Municipais de Educação] de Mato Grosso e levado isso para todo o estado, agora chegou outro momento. Agora é o momento da formação continuada dos nossos professores para que eles possam avançar nessa nova proposta metodológica da BNCC.

Como está essa articulação do estado com os municípios?
Nesse ano de 2019, nós já estamos rodando os municípios com uma formação continuada sobre a BNCC e sobre o currículo que deve ser implementado pela comunidade escolar, para que nós possamos realmente resignificar o projeto político-pedagógico das unidades. Em parceria com a Uncme, com a Undime e com o Consed, a nossa equipe de redatores e a nossa equipe da comissão da BNCC estão fazendo a formação em alguns municípios através das regionais. Nós percebemos que graças a essa cooperação técnica com os municípios, nós começamos a avançar para a solidificação de um único currículo na rede pública de ensino.
 
E a discussão sobre a reforma do Ensino Médio? Como o estado de Mato Grosso vai se adequar à proposta da BNCC?
Formamos uma comissão estratégica que trabalha com esse desafio de uma nova BNCC do Ensino Médio e com a oferta dos itinerários formativos, buscando não só o foco nas áreas do conhecimento, mas também a formação técnica e profissional. Para esse trabalho, nós temos algumas metas. Primeiro, focar no protagonismo juvenil, fazer um projeto de vida para os estudantes.

Temos uma equipe com redatores, professores, representantes da Undime, da Uncme que vem fazendo parcerias para enfatizar, principalmente, a importância da participação das escolas. Esse movimento de levar a discussão para as escolas terá continuidade e ainda em 2019 nós já vamos iniciar um projeto piloto para a realidade do novo Ensino Médio. Não vamos contemplar imediatamente todas as unidades educacionais, mas conforme o nosso documento orientador, vamos formar um grupo de fomento para algumas unidades que serão convidadas a se unir a esse projeto piloto. O projeto servirá para estabelecer de que forma iremos conduzir os processos e avaliar a implementação desse novo Ensino Médio, assim como também para formar professores, construindo essa nova identidade pedagógica no processo de participação coletiva no interior das escolas.

Quando você fala sobre protagonismo juvenil, você se refere a quê?
Estamos possibilitando que o estudante participe da discussão coletiva em cima do currículo que será desenvolvido na escola, de acordo com as habilidades e competências daquele grupo de alunos. Ele será o protagonista da sua aprendizagem, construindo a sua história de vida educacional. Então, se eu tenho muita vontade de ser engenheiro, vou construir a minha habilitação para essa área – com uma carga horária de Matemática e de Física ampliadas. Além disso, o aluno terá a possibilidade de participar de projetos e disciplinas eletivas que lhe permitam aprender como trabalhar uma descrição na área Matemática diária, por exemplo. Nós já vamos preparando esse aluno para que amanhã ele já tenha um pré-requisito para ingressar na universidade e dê continuidade ao projeto de vida que ele escolheu.
 
Qual a sua opinião sobre Educação a Distância, você acha que tem espaço na Educação Básica?
Eu, particularmente, acho que a Educação a Distância pode ser uma opção para a modalidade EJA (Educação de Jovens e Adultos), mas na Educação Básica regular ainda acredito que precisamos garantir a presença do aluno com resultado pedagógico, com a melhoria de aprendizagem. Um aluno dos 7 aos 16 anos de idade está em um processo de formação humana no ato mais complexo que existe, não só na formação dos conhecimentos científicos (que são conhecimentos específicos das áreas), formação técnico-profissional que possibilite a ele a construção de um projeto de vida, mas principalmente, formação de seus valores. Eu me refiro aos valores morais, sociais, emocionais, que fazem parte de uma busca de uma saúde emocional e um equilíbrio emocional no período de adolescência. Eu sou a favor do aluno na escola, estabelecendo suas relações, estabelecendo as conexões com as diferentes áreas do conhecimento, construindo a sua sociabilidade e garantindo de forma eficaz essa presença na escola.

Eu penso que o EAD seria uma possibilidade para o ensino de EJA porque nessa modalidade o público, que na grande maioria das vezes trabalha pela manhã e à tarde, pode ter a oportunidade de concluir sua escolaridade. E é muito difícil para aquele cidadão que trabalha 8, 10 horas por dia ainda ter todo aquele gás para estar à noite na escola, todos os dias. Eu penso que o EAD poderia ser uma oportunidade para que esse aluno tenha acesso à continuidade dos seus estudos e à garantia dessa aprendizagem.

Considerando que o avanço da aprendizagem passa pela valorização do professor e por melhores condições de trabalho do docente, quais são os planos da secretaria de Educação para a valorização dos professores?
Mato Grosso tem investido primeiro em legislações que garantam o poder de compra dos professores. Nós passamos, em 2015, de um salário de R$ R$ 2.608 por 30 horas de trabalho para R$ 4.349,55 por 30 horas, em 2018. Hoje, o estado do Mato Grosso paga o 3° maior salário do país por uma carga de 30 horas de trabalho, sendo que são 20 horas na sala de aula e 10 horas de atividades. Esse investimento em horas de atividades também é um investimento na valorização profissional, que garante ao professor tempo na sua carga horária para planejamento para atividades relacionadas à melhoria da qualidade do ensino. Além disso, nós temos a garantia das elevações do PIS, da elevação de graduação, nível e classe, nós temos a questão da LQP, Licença para a Qualificação Profissional, e tudo isso entra no plano de valorização profissional.

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Existe também um projeto aqui na Secretaria chamado Programa Qualidade de Vida. O Programa Qualidade de vida atende aos profissionais da rede de ensino com diferentes atividades, focadas para a área de saúde preventiva, com acompanhamento de assistente social, acompanhamento psicológico e, principalmente, resgatando na classe docente a motivação para o trabalho, com políticas de palestras, de monitoramento das licenças médicas, de acompanhamento para situações de tratamento. Temos também aqui na sede uma academia de ginástica que atende aos professores de Cuiabá e Barbeirante, para que eles realizem exercícios físicos e melhorem sua qualidade de vida.

Você considera que o projeto Escola sem Partido seja uma política prioritária para o estado do Mato Grosso?
A política prioritária do estado do Mato Grosso precisa ser a melhoria da aprendizagem das nossas crianças. Eu acredito que nós precisamos garantir a discussão de temáticas relacionadas à cidadania para ajudar a formar jovens que sejam capazes de reflexões sobre diferentes situações da sociedade. Isso, para mim, não significa – e eu nunca presenciei em minha vida – um professor direcionar para um partido A ou para um partido B. Eu participei de diversas discussões que trabalhavam o processo histórico de formação da política no Brasil e vivenciei esse conhecimento que discute os diferentes momentos, desde uma política de café com leite até uma democratização no país. Porém, é importante salientar que essas discussões precisam estar no cerne do currículo da escola, dentro das áreas do conhecimento, e que as temáticas transversais que perpassam por esse currículo sejam discutidas sempre com respeito a diferentes formas de pensamento.
 
Que aprendizados você acha que o Mato Grosso pode compartilhar com o Brasil?
Eu acredito que o processo de construção da BNCC de forma coletiva, com a participação dos municípios, mais a formação continuada, podem ser destacados. Outra experiência que tem tido muito resultado é o programa de avaliação de desempenho profissional, que é o Avalia MT, porque vem acertando nos quatro módulos que são essenciais para a construção de uma Educação de qualidade. O programa intervém no desempenho do professor na sala de aula: se está fazendo as anotações adequadas, se está fazendo a intervenção pedagógica e se a aprendizagem dos seus alunos tem melhorado. Considera ainda a avaliação dos técnicos e da equipe de apoio, se a escola está organizada para receber esse aluno, se os técnicos estão monitorando os índices através da secretaria da escola. Quando a avaliação chega à secretaria, se essa equipe gestora é presente, se ela dialoga com a comunidade, se faz uma gestão democrática na implementação e se tem transparência, se ela presta contas, se ela é organizada nos processos educativos, se o coordenador acompanha e monitora essa aprendizagem dos alunos e o planejamento do professor. E, por último, no módulo quatro, a avaliação do próprio aluno, onde eu consigo fechar esse processo. Eu preciso acompanhar, eu preciso planejar e monitorar o processo pedagógico para ver se ele teve ou não sucesso.

Se você tivesse recursos ilimitados na sua pasta, como você gostaria de entregar a Educação do Mato Grosso daqui a quatro anos?
A minha meta é trabalhar nos próximos quatro anos para que Mato Grosso esteja entre os 10 melhores estados em Educação no país. Assim eu conseguirei alcançar meu grande projeto de vida, que é uma Educação de qualidade para aqueles que estão em situação mais vulnerável e que mais precisam da Educação – crianças, jovens e adultos que já não conseguem perceber a Educação como um fator de transformação de vida. E eu acredito que a Educação é o único fator que pode transformar a vida de alguém na sociedade em que vivemos.

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