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"Vamos trabalhar muito com formação continuada e planejamento fundamentado em indicadores de evidência"

Maria Cecília Amendola da Motta quer trabalhar em regime de colaboração com municípios para beneficiar o maior número de formadores no Mato Grosso do Sul

POR:
Laís Semis

Em 2019, NOVA ESCOLA vai publicar entrevistas com os secretários de Educação dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal para ouvir os planos, as perspectivas e as opiniões de quem lidera a pasta pelo país.

A secretária estadual de Educação do Mato Grosso do Sul, Maria Cecília Motta   Créduto: Seduc MT



Maria Cecília Motta diz que não pretende ‘inventar a roda’ nos próximos anos como secretária estadual de Educação do Mato Grosso do Sul. Na pasta desde 2015, a pedagoga e mestre em Educação na área de políticas públicas para a infância faz essa declaração ao se referir sobre as prioridades básicas do estado: investimento em formação continuada e planejamento fundamentado em indicadores, como as avaliações externas.

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A perspectiva é fazer uma grande mobilização: “Vamos investir bastante na formação do coordenador pedagógico para que ele possa orientar suas equipes”, acrescenta. A secretária não pretende restringir o alcance do trabalho apenas aos professores da rede estadual. Maria Cecília quer trabalhar em regime de colaboração com os municípios. “Cada (um) vai enviar um representante da secretaria de Educação para fazer o curso. Assim, nós divulgamos e socializamos esses saberes”, explica.

Leia a entrevista com Maria Cecília e entenda o que a secretária quer deixar de legado para o Mato Grosso do Sul: “Gostaria de entregar uma escola mais participativa, um Ideb estadual sendo modelo nacional e um jovem bem protagonista”, diz.

Você assumiu a Secretaria de Educação do Mato Grosso do Sul em 2015. Como você avalia a Educação no estado e quais são os principais desafios para os próximos quatro anos?

MARIA CECÍLIA MOTTA Nos últimos quatro anos houve um avanço de proficiência, na ampliação da presença do aluno na escola e no protagonismo com o Ensino Médio de tempo integral. Temos um trabalho bem interessante com a metodologia do educar pela pesquisa. Trabalhamos nessa metodologia com o professor nas formações e eles levam isso para a sala de aula. Mudar a maneira de trabalho com os alunos requer um esforço muito grande do grupo de formação e do grupo de professores. Praticar com os professores a metodologia é mais eficiente do que ficar dando aula e pedir para fazerem coisas diferentes em sala de aula. Nós trabalhamos muito com problematização. Ao invés de dar o conceito e falar “é isso”, você problematiza para que ele possa buscar resposta, pesquisar. É assim que a gente instiga também o aluno a pensar.

Daqui para frente, o que a gente vislumbra com a aprovação da BNCC do Ensino Médio, é escrever o currículo, estudar a questão da flexibilização, as opções que os alunos vão ter pra escolher no Ensino Médio. Será um ano bastante árduo e nós não pretendemos  ‘inventar muito a roda’, não. Vamos trabalhar muito com formação continuada e planejamento fundamentado em indicadores de evidência, como as avaliações externas. Para isso, vamos investir bastante na formação do Coordenador Pedagógico, para que ele possa orientar suas equipes.

Você também é presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed). Olhando para o panorama dos estados, você enxerga alguns caminhos e desafios comuns que serão prioridade nos próximos anos para a Educação no Brasil?
Até o ano passado atuamos com os grupos de trabalho na área de avaliação, de formação e de tecnologia, pensando e propondo juntos. Mas muitos secretários mudaram [com as eleições]. Nós nos reuniremos em fevereiro para ver as demandas e dificuldades de cada um dos estados e propor um trabalho conjunto. Os problemas costumam ser os mesmos, mas as soluções podem ser diferentes. Vamos fazer uma parceria com os estados, buscando ser um indutor de políticas públicas para o Ministério da Educação, que é um dos papéis do Consed.

No ano passado, houve um grande movimento de regime de colaboração entre estados e municípios para construção dos currículos alinhados à Base. Em que outras áreas há colaboração entre estado e municípios? Quais são os planos para ampliar essa parceria?
Nós trabalhamos em conjunto com transporte, calendário e, agora, na formação que vamos dar para os coordenadores. Cada município vai enviar um representante da secretaria de Educação para fazer o curso. Assim, nós divulgamos e socializamos  esses saberes em um estado que tem uma dimensão muito grande.

Você comentou sobre o Novo Ensino Médio. Como vocês enxergam a proposta da reforma?
Muito positiva. As escolas de tempo integral que já aumentaram sua carga horária, em 2016, [e possibilitaram incluir componentes optativos], têm mostrado que o aluno não se evade quando ele pode optar por aquilo que tem preferência ou aptidão maior – ele se interessa mais do que ficar fazendo três disciplinas obrigatórias superficiais. Eu acredito que a reforma veio para salvar o Ensino Médio. Estou apostando muito nisso.

Considerando que o avanço da aprendizagem passa também pela valorização do professor, quais são os planos do estado para essa área?
Nós estamos caminhando para o piso de 40 horas para 20 horas. Hoje, o piso nacional é para quem dá 40 horas/aula. O nosso piso vai ser para 20h – ou seja, vamos dobrar o salário até 2021 [o valor atual é de R$ 5390,22]. Um dos maiores salários do país é o do Mato Grosso do Sul, mas valorizar o professor não é só pagar bem. Valorizar é respeitar, é possibilitar formação continuada, é dar insumos para que ele possa trabalhar bem. Tudo isso ajuda para que ele se sinta bem na sua profissão.

O que você pensa sobre Educação a distância (EaD) e qual papel vocês pretendem dar para a modalidade na Educação Básica?
A Educação a distância já acontece há muito tempo. Fazer uma pesquisa é Educação a distância, você não está na sala de aula. Eu acredito que todo jovem hoje faz pesquisa o dia inteiro no seu celular. Então, para mim, o ensino a distância precisa de um professor-tutor que possa orientar, que possa cobrar e que possa otimizar o tempo do aluno. Eu defendo o ensino a distância, por exemplo, para o Ensino Médio noturno. O aluno não cumpre quatro horas [estabelecidas para a carga horária] nunca, não existe isso. Ele não chega no horário, ele não sai no horário. Então, por que não ter algo organizado, que ele, final de semana ou horário de almoço,  possa pesquisar e dar devolutivas e conversar com o professor? Eu sou favorável.

Você considera que o Escola sem Partido seja uma política prioritária para o estado do Mato Grosso do Sul?
Acho que a escola já é sem partido, está na Constituição brasileira. É respeitar a diversidade, a religião e outros direitos previstos pela Constituição. Se alguém está utilizando escola com partido está errado. Se você pegar a Constituição, ela está cheia de artigos que falam isso.

Mas você acredita que é necessário ter uma política específica para regular o tema?
Não. Eu acho que tem que se cobrar aquilo que está na Constituição brasileira.

Como você avalia o peso da continuidade de políticas públicas no desenvolvimento da Educação e quais políticas de governos anteriores você manteve quando assumiu a secretaria em 2015?
Praticamente, a gente está continuando tudo. Eu acho que qualquer país que dá continuidade nas políticas de estado – e não de governo –, tem muito mais sucesso. O Brasil não tem sucesso porque ele muda suas políticas. Faz política de governo e não de estado. No final de 2018, eu deixei todo um documento para o caso de outra pessoa assumir meu lugar e poder continuar o trabalho. Quando eu assumi, vim até a secretaria, falei com a secretária anterior para entender o que ele estava fazendo e o que não estava para dar continuidade. Acho que um bom gestor tem que escutar os gestores administrativos e dar continuidade às políticas de estado.

Que aprendizados você acha que o Mato Grosso do Sul pode compartilhar com o Brasil?
O regime de colaboração e a nossa formação continuada são aprendizados que a gente pode compartilhar muito bem. Vamos investir muito na ampliação do Ensino Médio em tempo integral, que é uma política muito importante no nosso estado porque  somos rotas de drogas – temos aqui a rota do Paraguai – e os nossos jovens precisam estar na escola. Tem outros estados iguais ao nosso e o protagonismo do jovem na escola, ele tendo o poder da palavra, de discutir, sugerir... é uma ótima experiência.

Qual é o seu sonho para a Educação do estado? Como você gostaria de entregá-la em quatro anos?
Gostaria de entregar uma escola mais participativa, um Ideb estadual sendo modelo nacional e um jovem bem protagonista. Um jovem que pudesse estar, ao mesmo tempo, querendo ir para o mercado de trabalho e tendo a possibilidade de ir para universidade.