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“O excesso de propaganda de algumas conquistas faz sombra nos reais problemas da Educação”

Vitor de Angelo comemora as políticas de sucesso do estado, como o Escola Viva e a melhoria dos índices de aprendizagem. No entanto, acredita que elas não podem ofuscar os problemas

POR:
Laís Semis

Em 2019, NOVA ESCOLA vai publicar entrevistas com os secretários de Educação dos 26 estados e do Distrito Federal para ouvir os planos, perspectivas e as opiniões de quem lidera a pasta pelo país. 

O secretário estadual de Educação do Espírito Santo, Vitor Amorim de Angelo Crédito: Ademir Ribeiro/SECOM ES

Aos 36 anos, Vitor Amorim de Angelo assume a secretaria de Educação do Espírito Santo, o primeiro cargo público da sua vida. Formado em História, com mestrado e doutorado em Ciências Sociais, o professor da Universidade Vila Velha reconhece e valoriza, mas com cautela, alguns dos índices do estado na área da Educação, especialmente, no Ensino Médio. O Espírito Santo não bate a meta do  Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) para a etapa desde 2011, mas enquanto a nota média do país no ano de 2017 foi de 3,5, o estado atingiu 4,1, ganhando o título de melhor Ensino Médio do país. Mesmo assim, ele cita as altas taxas de evasão e desigualdade de investimento entre escolas. “Temos conquistas objetivas inegáveis, mas, se ganharem muito foco, acabam tirando o de problemas e outras questões desafiadoras que temos diante de nós”, pondera.

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O novo secretário promete a continuidade de políticas como o Pacto pela Aprendizagem no Espírito Santo (PAES), de 2017, que prevê colaboração entre estados e municípios,  e implementação das escolas de tempo integral. Ele também cita algumas prioridades para a sua gestão: atacar a desigualdade de investimentos entre as escolas da rede, implementar a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o Novo Ensino Médio — cuja reforma ele avalia como positiva.

Confira abaixo a entrevista exclusiva que Vitor concedeu à NOVA ESCOLA:

Como você avalia a Educação no Espírito Santo e quais são os principais desafios dos próximos?

VITOR DE ANGELO A Educação no Espírito Santo é desafiadora – o que não é muito diferente em relação ao resto do país. No entanto, pela ação de vários governos estaduais, ao longo do tempo, começamos a colher alguns bons resultados, como, por exemplo, a melhoria da proficiência em Língua Portuguesa. São conquistas objetivas inegáveis, mas que também se tiveram muito foco, acabam tirando o de problemas e outras questões desafiadoras que temos diante de nós. Hoje, por exemplo, temos de 55 a 60 mil pessoas fora das escolas e não é por falta de vaga.

Talvez nós tenhamos um excesso de propaganda em relação a algumas conquistas, que terminam fazendo um pouco de sombra nos reais problemas. Foi dito muito nós tínhamos o melhor Ensino Médio do Brasil (leia mais aqui). Isso só é verdade quando incluída nessa conta a rede particular, sobre a qual não temos qualquer gerência [o Ideb total do estado, para todas as etapas, em 2017 foi de 4,4. Apesar de ter ficado abaixo da meta, foi o maior do Brasil]. O nosso problema é para ser resolvido na rede pública e nela a evasão, a infraestrutura, a tecnologia e a formação de professores são desafios muito grandes existentes sem desconsiderar as conquistas importantes que nós obtivemos fruto dessa ação continuada de vários governos.

Levando em conta todos esses desafios, quais são as políticas prioritárias que você planeja implementar nos próximos anos?

A formação de professores e do pessoal de Educação de uma forma geral é uma política que precisa ser retomada com maior intensidade, especialmente, por causa das mudanças que nós vamos enfrentar nos currículos [por conta da Base Nacional Comum Curricular] e que exigem profissionais bem capacitados. Eu diria que a formação dos professores e a busca ativa dos alunos que estão aptos a estudar e não estão na escola são dois grandes desafios que nós precisamos enfrentar. Isso sem prejuízo a outras políticas em andamento, como o ensino em tempo integral, alfabetização das crianças até o 2º ano e outras metas que estão no Plano Estadual de Educação.

A iniciativa estadual do Pacto pela Aprendizagem no Espírito Santo (PAES) apoia os municípios na área de alfabetização. Como funciona o regime de colaboração em outras áreas?

Apesar de ter sido lançado no início de 2017, o primeiro ano que ele rodou completamente foi 2018, e 2019 será um ano de consolidação do programa. O nome da política não faz jus ao que se trata, que é um regime político de colaboração. Existe o Fundo PAES, através do qual a gente transfere recursos para os municípios, para apoiá-los na construção e reforma de unidades destinadas à Educação Infantil e com material pedagógico. Existe também um apoio à gestão por meio de um circuito de softwares de gestão e de treinamento. Apesar de já termos alguns bons resultados, é claro que, pelo seu curto espaço de tempo de implementação, nem todas as coisas passaram para além do papel. Por exemplo, a questão do material didático está chegando agora nas escolas de maneira mais consistente, já adicionando as próprias mudanças da Base para Educação Infantil. São demandas novas que o próprio contexto que vai mudando nos coloca como desafios nessa colaboração, como é o caso da formação para usar bem esses materiais. Muitos municípios não têm pessoal técnico e nem recurso para contratar terceiros para ministrar cursos de capacitação para seus professores. Essa demanda acaba sendo atendida pela Secretaria de Educação do Estado.

Ano passado, o Conselho Nacional de Educação aprovou a BNCC do Ensino Médio e ela vem acoplada com uma reforma na etapa. O Espírito Santo tem alguns programas que estão mais conectados com um novo formato de Ensino Médio, em que o jovem pode desenvolver projetos de vida e fazer disciplinas optativas. Qual é a sua visão da reforma e como o planejamento de implementação dessas políticas passa pelos projetos de Ensino Médio que a rede já tem?

De um modo geral, eu avalio a reforma de maneira positiva. É claro que sempre é possível fazer algum reparo, mas acho que ela vai na direção correta, de uma escola mais contemporânea, que permita ao aluno escolher o seu percurso formativo. Implementamos isso nas escolas de ensino em tempo integral desde de 2015. O que nós vamos fazer agora é pegar essa expertise das escolas em tempo integral e levar para as escolas de tempo parcial. Já estamos com algumas escolas nas quais aquela hora adicional [a reforma prevê mil horas anuais, o equivalente a 5 horas de aulas por dia, carga horária já cumprida por algumas redes atualmente] vai ser usada justamente para oferecer disciplinas eletivas relacionadas ao percurso formativo.

Consideramos que o avanço da aprendizagem passa pela valorização dos professores. Quais são os planos do estado nessa área?

Eu diria que a nossa principal iniciativa é a da formação: equipar o docente com um instrumental que lhe permita não apenas fazer o trabalho que ele já vem realizando, mas fazê-lo de uma maneira muito dedicada e mais efetiva. No contexto em que o trabalho será  atingido por alterações curriculares, ele tem diante de si um desafio que é aprender ou reaprender a como ministrar esses novos conteúdos. É um momento de alguma instabilidade na carreira docente porque o professor precisa responder aos novos desafios colocados pelas políticas nacionais, e o estado vem justamente responder a essa demanda através da formação. É uma maneira de valorizar o docente no exercício da sua profissão. A melhor estruturação do ambiente de trabalho também diz respeito à nossa secretaria. E, algo que não está estritamente conosco, é a recomposição salarial, algo que certamente seria analisada a médio prazo.

O que você pensa sobre Educação a distância (EaD) e qual é o papel que você pretende dar para a modalidade na Educação Básica do Espírito Santo?

Sem entrar na polêmica de natureza ideológica, eu acho que o ensino a distância é simplesmente uma modalidade diferente de ensino e que usa recursos que temos à disposição. Precisaríamos estudar caso a caso e verificar efetivamente onde se adequa melhor. Nós temos alguns desafios que talvez o ensino a distância não nos ajude, mas em muitas circunstâncias, o EaD pode ser uma ferramenta importante para tornar determinados conteúdos ou determinadas modalidades de ensino mais atrativas ou ainda mais viáveis para um público que até aqui foi excluído da possibilidade de estudar. Não tenho qualquer resistência, mas é algo que precisa entrar em um planejamento muito sério, que não perca de vista nunca a discussão pedagógica.

Quando você fala sobre os desafios que o ensino a distância não pode ajudar tanto, você se refere à evasão?

Sim. O ensino a distância mantém, bem ou mal, a distância da unidade escolar. Em que medida ele vai ajudar determinadas regiões em que a presença física desse aluno pode ter um papel fundamental para sua permanência na escola, como para protegê-lo de uma situação de vulnerabilidade? São questões que precisam ser estudadas caso a caso. Eu não tenho qualquer resistência à implementação do EaD, mas em alguns casos da nossa realidade estadual pode ser que a presença desse aluno na escola seja mais efetiva para os resultados que a gente busca do que o ensino a distância.

Você é graduado em História, com mestrado e doutorado em Ciências Sociais, que são áreas de grande visibilidade quando se fala em Escola Sem Partido. O que você pensa sobre o projeto? Você considera que seja uma política prioritária para o Espírito Santo?

Eu respeito a opinião daqueles que defendem esse projeto, mas me parece que o que eles pedem é uma política pública, uma resposta do estado em relação a um problema que eles identificam a suposta doutrinação de alunos na sala de aula. Toda política pública só pode ser implementada com base em informações. A resposta que eu sempre tenho dado aqueles que me perguntam sobre Escola Sem Partido é: eu não tenho qualquer problema em discutir essa política desde que a gente tenha informações para fazer essa discussão. Até aqui, eu confesso que tive pouquíssimas evidências [sobre a necessidade desse projeto]. Que pesquisas efetivamente a gente conhece sobre esse tema? Ao que me parece, o projeto Escola Sem Partido tem se baseado muito mais em relatos pontuais e individuais do que em pesquisas estruturadas, amplas, que nos municiem de informações a partir das quais nós, como gestores públicos, poderemos formular uma política pública educacional nessa direção.

Alguns programas do Espírito Santo como o Escola Viva e o Jovem do Futuro, realizado em parceria com o Instituto Unibanco, são reconhecidos como fatores que colaboraram com a aprendizagem e resultados em avaliações externas. Como você avalia esses programas?

Eu acredito muito no programa em parceria com o Instituto Unibanco, que não é um programa que o estado formulou, mas o Unibanco. Esse parceiro atua em vários estados do país e, desde 2015, no Espírito Santo, trazendo uma nova concepção de gestão que me parece acertada. Ele traz um desenho muito estruturado de ponta a ponta que otimiza o esforço de gestão. Ele vai alinhando todas as etapas do nosso planejamento de todas as unidades que estão envolvidas no processo educacional, desde o diretor, passando pelo superintendente, chegando à Secretaria. O foco na gestão é fundamental e este será um parceiro que vai continuar nos auxiliando muito nesse sentido.

A Escola Viva cumpre um papel de atender a uma das metas do Plano Estadual de Educação, que é o ensino em tempo integral. Na gestão de Renato Casagrande [2011-2014], se iniciou o ensino em tempo integral em algumas turmas. O que o Escola Viva fez foi transformar isso, em um projeto que já estava previsto, de ampliar para as escolas da rede. O projeto será continuado, mas cabe discutir em que medida, o Escola Viva – que foi tão empoderado, recebeu os melhores recursos, a melhor infraestrutura, as melhores condições de recursos humanos, o projeto pedagógico mais novo e tudo que a última gestão pôde oferecer de melhor – foi responsável por puxar outras escolas na mesma direção.

Na medida que isso não aconteceu, o que nós tivemos foram pingos de excelência de um lado, que são as escolas de tempo integral. E tivemos outras escolas que  conquistaram, pelo seu esforço e não por uma política dirigida prioritariamente a elas, bons resultados. Por isso que combater essas desigualdades é um dos meus objetivos aqui à frente da Secretaria do Espírito Santo. E, no que diz respeito ao Escola Viva, fazer isso responsabilizando o Escola Viva pelas outras escolas. Para que a escola que tem recursos humanos e de infraestrutura muito positivos possa usar isso não apenas para si, mas também para beneficiar toda a rede. Afinal, ela não é um sistema em si mesmo, isolado do outro, ela é parte da rede.

Quais aprendizados você acha que o estado pode compartilhar com o Brasil?

Tem aprendizados do que fazer e do que não fazer. O que não fazer é focar em apenas algumas escolas e esquecer das outras. Os 244 mil alunos [da rede estadual] são nossos alunos, então não tem um grupo pra gente escolher. A Educação pública não é um produto, ela é um direito. Você não pode tratar um direito de uma maneira excludente. No meu entendimento, em certa medida, a Educação pública capixaba nos últimos anos foi uma política que proporcionou bons resultados para uma parcela daqueles que utilizam a nossa rede. De outro lado, deixou muita gente de fora. O gestor precisa estar muito consciente, sensibilizado e inclinado para que isso não aconteça. Esse é o meu desafio. Acho que é algo negativo que a gente tem a ensinar ao Brasil a não fazer.

De positivo, eu acho que é o foco na gestão. É algo que não começou no governo passado, isso já vem de algum tempo e houve a continuidade do investimento no aprimoramento da gestão. Considero fundamental para perseguir resultados, porque sem gestão, as coisas ficam um pouco soltas. As pessoas podem fazer as suas atividades na melhor das intenções, podem se dedicar enormemente àquilo que fazem, mas como otimizar tudo isso para resultados? E resultados que não sejam só números estatísticos, mas que traduzem a qualidade do ensino que a gente oferece. É um desafio para o qual uma gestão muito bem desenhada e ajustada nós ajuda muito. Eu acho que nós conquistamos e muito do resultado que a gente vem obtendo diz respeito à gestão.

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