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“Represento um novo modelo de seleção de secretários de Educação nesse país”

Fátima Gavioli faz parte de um grupo seleto de gestores estaduais que passaram por um processo seletivo que ignora as indicações políticas. Nesta entrevista, a secretária de Educação de Goiás fala sobre seus planos

POR:
Laís Semis

Em 2019, NOVA ESCOLA vai publicar entrevistas com os secretários de Educação dos 26 estados e do Distrito Federal para ouvir os planos, perspectivas e as opiniões de quem lidera a pasta pelo país.

Crédito: Seduc

Logo que eu me apresento, Fátima Gavioli comenta sobre meu cabelo (que, na ocasião, estava colorido de azul) e me abraça. Nos encontramos em sua sala no prédio da Secretaria de Educação do Estado de Goiás. É um espaço amplo, com janelas que ocupam praticamente uma parede inteira de um prédio antigo. A sala fica bem iluminada mesmo para um dia ameaçadoramente chuvoso em Goiânia. Fátima não está sozinha: ela divide esse espaço com muitos funcionários da secretaria. A sala possui várias mesas para os funcionários e é ponto de reuniões e até sala de espera para atendimento. Nesse dia, o local está repleto de orquídeas – “presentes para Fátima Gavioli”, alguém comenta e conta que é uma de suas flores preferidas.

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Não é a primeira vez que Fátima assume uma secretaria estadual de Educação. Entre 2014 e 2018, ela ocupou o cargo de secretária em Rondônia. Recebeu convites para o mesmo cargo em Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Ela optou por Goiás por uma questão de logística, já que a família continua morando no seu antigo estado. “Goiás está bem mais perto de Rondônia do que os outros estados”, comenta. “Em um voo de três horas saindo daqui, estou em Rondônia. Saindo do Rio Grande do Sul, eu ficaria o dia todo voando e esperando conexões”.

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Fátima faz parte de uma nova geração de secretários que prometem ser mais qualificados e eficientes para superar os desafios de gestão. Esses gestores passam por um
processo seletivo intenso e reúnem características essenciais para liderar e gerir uma pasta pública estadual. Se essas gestões se mostrarem positivas no longo prazo, elas poderão mudar a realidade de escolha de cargos públicos na Educação brasileira. “Eu sei que represento uma marca em um novo modelo de seleção de secretários de Educação nesse país”, diz. “Temos uma responsabilidade gigantesca [por isso]”.

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Além de emergir de um grupo tão seleto de candidatos ao cargo de secretário estadual de Educação, a expectativa aumenta diante de seu currículo como professora na Educação Básica. Uma longa trajetória até aqui, é bom dizer. Fátima foi boia fria e empregada doméstica, antes de chegar na sala de aula. Trabalhava durante o dia e estudava à noite. Hoje, acumula diplomas de Pedagogia, Letras e Direito, além do mestrado em Educação com foco em inclusão pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), um módulo de gestão pública na Harvard Kennedy School (EUA) e especializações em Gestão Escolar, Psicologia Social e Metodologia e Didática do Ensino Superior. Hoje, ela é doutoranda em Psicologia. “Às vezes, eu nem acredito que foi comigo. Olhando daqui para trás, parece que está fácil. Mas não foi nada fácil”, afirma.  Em conversa exclusiva com NOVA ESCOLA, Fátima Gavioli fala sobre seus planos e sonhos para a Educação de Goiás.

O que a Educação representa na sua trajetória pessoal e profissional?

FÁTIMA GAVIOLI A Educação é o que fez toda a diferença na minha vida. Depois que eu comecei a estudar, nunca mais parei. E nunca mais parei de crescer profissionalmente também. Tive que me esforçar para estudar porque que eu morava no sítio, estava fora da faixa etária normal de uma criança, com distorção de idade-série e a Educação foi tudo pra mim. Só ela muda a vida e o destino de uma criança.



Hoje, quando você olha para trás e pensa na sua trajetória, qual é a sensação?

Para falar a verdade, tem horas que eu penso que não foi comigo. Boia fria, empregada doméstica, o sacrifício de criar os filhos e estudar à noite, trabalhar durante o dia... tem horas que não dá para acreditar. Mas eu me lembro que é verdade: aconteceu, sim. Fiz três graduações, mestrado, estou fazendo doutorando. Às vezes, eu nem acredito que foi comigo. Olhando daqui para trás, parece que está fácil. Mas não foi nada fácil. E o que eu estou vivendo em Goiás [como secretária] também não é fácil. Eu tenho certeza que daqui a alguns anos, vou olhar e pensar: “Como eu fiz tudo isso?”.

Como você acha que a sua experiência na sala de aula e com gestão pública podem contribuir para superar os desafios de Educação no estado de Goiás?

Pode contribuir em tudo. Se você for um gestor e você não é do chão de escola, vai começar a pedir coisas que não têm nada a ver, vai implantar programas que não têm eficácia. O fato de ter passado pela sala de aula me torna, principalmente, mais acessível – os professores e diretores têm muito acesso a mim, ao meu WhatsApp, para o bem e para o mal. Essa relação que existe dentro da escola, eu estou tentando implementar dentro da secretaria. Eu tenho um projeto que é a Seduce [Secretaria de Estado de Educação] Itinerante: eu vou até as escolas levar a Seduce aos municípios. E, aqui [na secretaria], o projeto é Seduce de Portas Abertas. Aos sábados, nós abrimos a secretaria das 9h às 14 horas para atender a comunidade, para aquele pai, estudante ou outra pessoa que queira vir tirar uma dúvida ou conversar.

E como é a reação do público?

É uma coisa que não tem explicação porque existe um distanciamento entre o gestor da pasta e os pais, estudantes, e, às vezes, até entre os professores. Eu queria que Goiás tivesse bastante acesso à Seduce, que alguém pudesse perguntar para mim: “Por que isso está sendo feito?”, “Qual é a finalidade daquilo?”. Sábado que não tem a Seduce de Portas Abertas, eles [minha equipe] ficam me perguntando o que eles vão fazer. Eu digo: “Façam alguma coisa, mas hoje não vai ter porque eu não estou em Goiânia”. Eles já entraram no ritmo.

Você integra uma das duas secretarias de Educação estaduais que optaram por selecionar seus gestores por meio de um processo seletivo – algo que ainda é novo no Brasil. Qual é a responsabilidade para você enquanto profissional diante desse modelo de gestão?

No meu entendimento, eu e a Júlia [Sant’Anna, secretária estadual de Minas Gerais] temos uma responsabilidade gigantesca. Se o modelo pegar, na próxima eleição para prefeito nós conseguiremos reproduzir o modelo em muitos lugares. Mas se não der certo em Minas, aqui ou em Londrina [onde o modelo foi implementado na última eleição municipal]... nós três estamos sendo muito vigiadas. Eu me lembro disso todos os dias. Eu sei que eu represento uma marca em um novo modelo de seleção de secretários de Educação nesse país.

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Qual a sua avaliação sobre a Educação no estado de Goiás e quais são os principais desafios que você enxerga neste momento?

Os problemas de uma secretaria de Educação para outra são parecidos: falta de professores, bater as metas, reformar escolas, construir em outras localidades, implantar programas, projetos... tudo isso é igual. O que é difícil é a proporção. Eu dirigi um estado com 475 escolas e agora dirijo um estado com 1.146 escolas. Meu estado [Rondônia] tinha 52 municípios e agora eu tenho 246. Então, aumentou a proporção de prefeitos que tenho de atender para reordenar a rede do 1° ao 5° anos.

Dentro desses desafios, quais são as políticas prioritárias para os próximos anos na Educação de Goiás?

A primeira é organizar a rede, cumprindo o que está nas recomendações dos documentos que se referem à Educação: Educação Infantil e 1° ao 5° ano do Fundamental com os municípios, enquanto do 6° ao 9° e Ensino Médio, com o estado. Além disso, implantar Educação em tempo integral para 50% da rede do 6° ano ao Ensino Médio em quatro anos. E, sem dúvida nenhuma, reduzir os custos, enxugar a máquina. A folha de pagamento está muito alta e precisamos reorganizar isso, organizar a casa para que sobrem recursos para investir nos nossos professores.

Considerando que a melhoria da qualidade da Educação passa pela valorização do professor, quais são os seus planos para essa área?

Embora eu esteja vivendo um momento que não destoa do momento nacional – estamos com um decreto de calamidade no estado –, eu quero sonhar que daqui a um ano isso terá passado e Goiás voltará a crescer. Eu gostaria mesmo é de criar um atendimento especial aos professores tanto na questão da saúde emocional e física. Nós falamos tanto da saúde socioemocional dos alunos e ninguém está pensando em quem está na sala com 40 alunos. Mas também queria criar uma gratificação de regência, para poder motivar algumas pessoas a voltar à sala de aula. O número de professores que estão fora da sala de aula é muito alto. Vamos trabalhar para isso, mas hoje eu posso dizer que é algo bem distante da realidade financeira do estado.

Qual é a sua opinião sobre Educação a distância (EaD) para Educação Básica e qual papel você pretende dar para essa modalidade na sua gestão?

Vou dar um papel de suma importância no Ensino Médio. Eu levei o projeto do Centro de Mídias, no Amazonas [conheça o projeto aqui], de ensino mediado pela tecnologia para Rondônia. Temos uma equipe indo para Rondônia para colher informações e implantar o Centro de Mídias em Goiás, para os lugares de difícil acesso. O estúdio do Centro de Mídias vai ter um papel fundamental. Pretendo aproveitá-lo também para a formação de professores e reforço da aprendizagem para o Exame Nacional do Ensino Médio. Não tem como um secretário em um estado com a dimensão territorial e a quantidade de funcionários de Goiás – são 50 mil servidores – pensar em oferecer formação continuada presencial e hoje todo mundo tem um celular, um tablet, um computador, uma TV. Vamos atacar fortemente a formação através das mídias e das tecnologias.

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Qual é a situação da rede hoje em relação ao ensino em tempo integral?

Ao final de quatro anos, a meta do governador é atingir 50% das escolas em tempo integral do 6° ano do Fundamental ao Ensino Médio. Aqui nós também somos um laboratório: nós temos 65 escolas militares, que têm o Ideb lá em cima. Essas escolas têm 1.500 alunos matriculados e todo ano tem uma fila de gente esperando para entrar. Houve uma mudança de comportamento e de cultura dos pais. Eu tenho 65 escolas implantadas e 42 na gaveta para implantar. Hoje, eu não posso implantar porque não tenho policiais suficientes para trabalhar nessas escolas. Goiás é um modelo para o Brasil de estado que mais implantou escolas militares.

Você considera que o Escola Sem Partido seja uma política prioritária para o estado?

Sinceramente, eu não sei se ela é uma política prioritária. Talvez seja mais interessante discutirmos o Escola sem Reprovação, Escola sem Evasão, Escola sem Discriminação. Nós estamos focando demais no Escola Sem Partido quando existem coisas sérias acontecendo, como [aumento na taxa de] suicídio infanto-juvenil. Então, eu não posso te dizer que essa política é prioritária.

Como você vê a continuidade das políticas públicas educacionais no estado e qual é a sua visão sobre esse tema?

Eu acredito que o resultado de Goiás tem a ver com continuidade. Quando você troca demais de gestores, quando existem muitas quebras – às vezes, temos governadores que chegam a trocar quatro, cinco secretários em quatro anos. Com tanta troca é impossível [fazer um bom trabalho]. Você demora quase um ano para conhecer perfeitamente a sua pasta; quando aprende, eles trocam você. Sem continuidade do trabalho é impossível realizar uma política pública eficiente.

Qual é o seu sonho para a Educação de Goiás e como você gostaria de entregá-la em quatro anos?

Pensando no Ensino Médio, eu gostaria de entregar a Educação de Goiás com uma Educação profissionalizante verdadeira, em que os nossos jovens pudessem fazer cursos que abrissem portas no mercado de trabalho. Gostaria de contar com 50% das escolas de Ensino Médio em tempo integral. Gostaria que os nossos meninos do 6° ao 9° ano aprendessem mais sobre Português e Matemática, principalmente porque, se você compreendê-los, você consegue ir bem nas demais disciplinas.

Gostaria que os nossos professores estivessem se sentindo bem tratados, valorizados, bem remunerados, e que, principalmente,  eles olhassem pra mim e pensassem: “Essa mulher cuidou da Educação e trabalhou todos os dias, seriamente, e cuidou de nós”. Eu respondo por todas as 1.146 escolas, pelas 40 coordenadorias e pelo meu núcleo financeiro. Não é só o pedagógico, você também coordenada e fica ligado 24 horas em processo. Isso é cansativo pra quem gosta da Educação, mas é extremamente necessário porque evita corrupção dentro da secretaria. Quero sair com a ficha limpa, pela porta da frente, deixando um legado às crianças, aos jovens, aos professores e de Goiás.

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