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Pisa: Brasil estaciona em Ciências e Leitura e cai em Matemática

Resultados da avaliação de 2015 mostram escolas federais e particulares na frente e país pior que vizinhos da América Latina

por:
Ana Ligia Scachetti
Raissa Pascoal
Anna Rachel Ferreira
06 de Dezembro 2016 - 08:00

Os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês), realizado em 2015, acabam de ser divulgados. Infelizmente, as notícias não são animadoras. O Brasil estagnou no desempenho em Ciências e Leitura e teve uma queda em Matemática, disciplina que vinha em uma curva de crescimento nas edições anteriores. “O problema é que nosso nível educacional está muito baixo. Os nosso alunos vão mal na Prova Brasil e o Pisa tem um nível ainda mais alto de exigência. O resultado não surpreende se você analisar o histórico das duas avaliações”, explica Ruben Klein, consultor da Cesgranrio.

O exame, coordenado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), é realizado a cada três anos e verifica o desempenho de estudantes de 15 anos e três meses a 16 anos em 2 meses, que estejam cursando a Educação Básica a partir do 7º ano. Ao todo, 72 países participaram desta edição, que teve Ciências como foco principal.

No Brasil, a avaliação é aplicada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). 23.141 estudantes de 841 escolas participaram do levantamento nacional e 77,7% deles estão matriculados no Ensino Médio.

Metade abaixo do básico em Ciências

A cada edição, o Pisa foca uma área de conhecimento e a desta foi Ciências. O relatório conclui que a média nacional foi de 401, quase 100 pontos abaixo da média dos países da OCDE (493). O desempenho dos estudantes é categorizado em oito níveis e mais da metade dos brasileiros ficou nos três patamares mais baixos, que indicam um conhecimento bem básico da disciplina. A maior dificuldade dos alunos brasileiros foi nas respostas do tipo aberta (nas três áreas, há questões com respostas abertas, múltipla escolha complexa e múltipla escolha simples), consideradas mais difíceis.

Itens relacionados ao contexto pessoal foram considerados mais fáceis, assim como os conteúdos ligados à explicação de fenômenos científicos. Sobre esses aspectos há muito o que se analisar. O fato de os alunos lidarem bem com tarefas como o impacto da ingestão de água durante uma corrida, enquanto apresentam dificuldade com textos sobre a velocidade com a qual um meteoro cai na terra, pode significar que a escola não está sendo capaz de associar o conhecimento escolar com a vida cotidiana. “Quando se faz uma associação bem fundamentada entre conceito e contexto vivido, é mais fácil transcender para a abstração e aplicabilidade”, explica Luis Carlos de Menezes, docente do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP). No entanto, apesar de os estudantes conseguirem explicar os fenômenos cientificamente, eles não conseguem interpretar dados e evidências científicas, mostrando que não se apropriaram do que estudaram.

Como o foco do teste deste ano é Ciências, o Pisa também aplicou algumas questões sobre a relação dos adolescentes com as áreas e com os professores especialistas, o que trouxe boas provocações. 40% dos brasileiros avaliados desejam seguir uma carreira ligada a ciência e tecnologia. Mas, eles vão mal nesse campo? Porque o interesse? Mário Domingos, professor do curso de Biologia da Universidade de Santo Amaro (Unisa), tem uma hipótese: “Essas áreas são conhecidas por serem bem remuneradas. A atratividade pode estar mais vinculada ao status do que pelo gosto”.

Outro ponto é que os estudantes avaliam muito bem seus professores:

  • 80% dos alunos dizem que os professores ajudam ou dão apoio necessário para seu aprendizado na maioria ou em praticamente todas as aulas de Ciências.
  • 44,2% consideram que o docente adapta a aula de acordo com a necessidade e o conhecimento da turma.
  • 41,6% responderam que o professor fornece ajuda individual na maioria ou em quase todas as aulas da disciplina.

A pergunta que fica é: por que eles avaliam bem os educadores e ainda assim vão mal nos testes? “É complicado. Não dá para dizer como cada estudante interpretou essas questões. Um aluno pode entender que um professor ajuda quando dá as respostas prontas e outro pode entender que o professor é bom quando adapta as aulas, nivelando a turma por baixo”, discorre Mário.

Confira entrevista com a gerente de Pesquisa e Desenvolvimento da Fundação Itaú Social Patrícia Mota sobre as questões da avaliação:

 

 

Leitura também está crítica

Assim como em Ciências, mais da metade dos estudantes (51%) está abaixo do nível 2 em Leitura, que é considerado o básico nessa área. As características de quem está nesse patamar combinam com o tipo de habilidade em que os brasileiros foram bem: localizar e recuperar informações no texto. Os pontos fracos dos nossos alunos estão em integrar e interpretar informações.

A avaliação de Leitura visa diagnosticar, principalmente, o emprego dos conhecimentos em várias situações cotidianas. O resultado dos brasileiros foi bom em textos que representam contextos pessoais, como e-mails, mensagens instantâneas e cartas. Quanto mais distante é um escrito do dia a dia, como documentos oficiais e notícias, pior é o desempenho do adolescente nacional. Obviamente, isso se reflete nas outras disciplinas. ”Se o estudante só consegue encontrar informações que estão explícitas no texto ou são facilmente inferidas, ele terá dificuldade de responder sobre qualquer tema”, alerta Ilona Becskeházy, mestre em Educação Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ).

Maior queda em Matemática

Enquanto as médias de Ciências e Leitura mudaram pouco em relação às últimas edições da prova, em Matemática houve uma queda mais acentuada (11 pontos abaixo de 2012, sendo que, antes disso, a disciplina estava em ascensão). O relatório do Inep relativiza o declínio, justificando que “em média, houve acréscimo de 6,2 pontos na proficiência média em cada edição sucessiva do Pisa desde 2003”.

Fato é que 70,3% dos estudantes ficaram abaixo do nível 2 nessa área e esse é o patamar considerado mínimo para aplicar a Matemática em situações cotidianas básicas, como cálculos com dinheiro e preparação de comidas.

Federais e particulares na frente

Nas três áreas avaliadas, as escolas federais obtiveram o melhor resultado no universo brasileiro, seguidas pelas particulares, as estaduais e as municipais (veja gráficos abaixo). As federais estão, inclusive, acima da média dos países da OCDE em Ciências e Leitura e bem próximas em Matemática.

Ao olhar para esses dados, no entanto, é necessário considerar que o tamanho da rede federal é bem menor que as demais e que as escolas municipais não têm foco no Ensino Médio. Do total de alunos participantes, 73,78% frequenta instituições estaduais, 13,27% está em escolas particulares, 11,36% em municipais e apenas 1,59% em federais.

Vizinhos vão melhor que nós

O Brasil está em 63º lugar no ranking de Ciências do Pisa, quatro posições abaixo do que alcançou em 2012. Países como Cingapura e Finlândia continuam na frente nas três áreas, mas, claro, possuem realidades muito diferentes da nossa. O mais indicado é, portanto, olhar para nossos vizinhos e nações com características mais próximas ao Brasil. Assista, abaixo, a uma análise de Ernesto Faria, da Fundação Lemann, sobre os resultados.

Em Ciências e em Leitura, Portugal, Espanha, Chile, Uruguai e Costa Rica estão à frente de nós e o Peru está poucos pontos abaixo. Em Matemática, todos esses superaram o Brasil e a diferença entre a média do país e a do Chile é de 46 pontos.

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