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Explorar a diversidade, priorizando gêneros literários e opinativos

Por ter maior familiaridade no trabalho com a leitura, o docente da área tem de abrir caminho para os colegas e abordar os gêneros de que as outras disciplinas não tratam

por:
SM
Sérgio Miranda
Janeiro de 2010
Quando se fala em leitura, cobra-se do professor de Língua Portuguesa uma postura parecida ao do malabarista que faz girar vários pratos ao mesmo tempo e não pode deixar nenhum cair. De relatórios científicos a romances, de biografias a relatos de viagem, espera-se que ele aborde todos os gêneros e ainda que capacite os alunos para desenvolver o hábito da leitura por prazer, para estudar e se informar. Quando um desses "pratos" se quebra, todos os dedos apontam para você, o docente da disciplina. Mas será possível - e necessário - dar conta de tanta coisa? 

Vamos por partes. É verdade que quem leciona Língua Portuguesa deve levar a turma a refletir sobre a maior multiplicidade de textos possível, assim como facilitar o contato com diversos tipos de leitura. Mas os colegas de equipe e o time de gestores podem ajudar muito a manter a "louça" girando - como você já deve ter percebido, essa é a tônica deste especial. Sem esquecer a função fundamental que você, pela familiaridade com o tema, pode desempenhar para articular as atividades de leitura em todas as disciplinas (leia mais no artigo), vale dedicar atenção aos gêneros que, em geral, são menos abordados em outras áreas, como os da esfera literária e os de opinião (leia o quadro abaixo). É esse o espírito desta reportagem, centrada na discussão de cinco tipos de texto específicos: do lado dos literários, a poesia (leia o infográfico abaixo), a crônica e o conto. E, no campo dos opinativos, a ênfase costuma recair em artigos e editoriais.

O que se diz e como se diz

Na EM Heinz Hering, a 8ª série interpreta poemas analisando forma e conteúdo

Foto: Helder Tavares
Foto: Helder Tavares

Que ideias sobre o amor o poeta apresenta? Que figuras de linguagem surgem para construir uma visão do tema?

LEITOR EXPERIENTE
Como o sentido de um poema só se completa na leitura, é importante que alguém indique como lê-lo. Uma boa alternativa, quando possível, é apresentar gravações com o próprio autor

SENTIDO
Para ajudar a construir o significado do texto, é possível propor perguntas que levem em conta o percurso proposto pelo poeta FORMA

FORMA
No caso dos sonetos, é preciso mostrar que a estrutura de 14 versos em quatro estrofes geralmente expressa uma argumentação

RIMAS
Identificar as terminações por letra não deve ser uma atividade mecânica. Mostre que, juntamente com a métrica, elas são um dos recursos essenciais à musicalidade do poema

VOCABULÁRIO
Em vez de sublinhar cada palavra desconhecida, o melhor é deduzir o significado pelo contexto. Quando isso não é possível, é preciso entrar em ação e esclarecer a dúvida

Gêneros privilegiados em Língua Portuguesa 

POEMA 
Tipo de texto que tenta transmitir o sentimento do belo, merece atenção não apenas no conteúdo, mas também na forma como o poeta diz as coisas. O uso figurado das palavras, as repetições expressivas, as rimas e a métrica devem ganhar espaço para que a compreensão seja completa. 

CRÔNICA
Redigido de forma livre e pessoal, o gênero tem como tema fatos do cotidiano ou ideias atuais, gerando enredos ficcionais ou inspirados na vida real, na forma de narração de acontecimentos ou emissão de opiniões. Vale explorar a presença do humor e da linguagem oral.

CONTO 
Narrativa concisa e pouco extensa, costuma se concentrar num conflito que se desenvolve rapidamente para um fim que pode surpreender quem lê. Dependendo de suas características, pode ser classificado como conto de fadas, fantástico, folclórico, psicológico, policial e de fundo moral, entre outros.

TEXTO OPINATIVO
Costumam aparecer na forma de artigos (em geral mais subjetivos, com o estilo do autor evidente) e editoriais (mais impessoais e sem identificação do autor, usados para exprimir as posições de uma determinada publicação). Nos dois casos, o objetivo é convencer o leitor do ponto de vista defendido.

Nos textos opinativos, o conteúdo ganha relevo

Artigos e editoriais são, possivelmente, os gêneros que deixam mais claro que não existe escrita neutra. Para lê-los criticamente, é preciso que o leitor se mantenha atento a determinadas escolhas nos textos, pistas que acabam revelando as posições do autor. Essa preocupação guia o trabalho de leitura e crítica de jornais e revistas que a professora Iranez Ponsoni Martins, da EMEF Ângela Pellegrini Paludo, em Nova Prata, a 180 quilômetros de Porto Alegre, realiza com os estudantes de 8ª série.

A atividade começa com perguntas que possam fornecer ideias sobre o tema e a opinião do autor: o que o órgão de imprensa que estamos analisando costuma publicar? Qual sua linha editorial? O que o título sugere em termos de assunto e de opinião? 

A seguir, a docente parte para a leitura compartilhada com objetivos claros: entender qual a opinião defendida e os argumentos que a sustentam. Para isso, ajuda muito orientar a classe com um roteiro bem estruturado.  Os textos mais difíceis merecem uma exploração parágrafo a parágrafo, analisando a forma como se organizam (em geral, primeiro vem a questão a ser discutida, depois a opinião do autor, seus argumentos e a conclusão) e técnicas persuasivas como o uso de números e estatísticas, descrição de fatos favoráveis à tese e apresentação de contra-argumentos (em geral, atacados), uma tentativa de analisar a questão considerando múltiplos pontos de vista.

Nessa hora, a turma sublinha com canetas de cores diferentes o que é opinião e o que é argumento. Em seguida, busca os recursos linguísticos que evidenciam a lógica argumentativa. Alguns exemplos, reunidos durante dois meses de análise, revelam a riqueza do trabalho: expressões como "evidentemente", "é certo que", "obviamente" e "talvez" mostram como o autor se compromete com aquilo que diz. Outras, como "é indispensável", "opcionalmente" e "é necessário", indicam o caráter mais ou menos imperativo com que ele se envolve com as proposições. O uso do modo reflexivo, muito comum em editoriais, deixa implícita a voz do autor, como em "impõe-se" e "recomenda-se". Outros preferem amenizar o que afirmam usando expressões como "ainda é cedo para", "parece mais sensato" etc. E há expressões que indicam avaliações: "infelizmente", "geralmente", "curiosamente" e "inexplicavelmente".

"Esse tipo de atividade contribui para que os alunos aprendam a analisar o discurso do autor: em relação a subjetividade, concepção de mundo, preconceitos e uso que faz de estereótipos sociais e culturais. Além disso, ajuda a revelar aquilo que não é literal, que fica parcialmente obscuro em uma leitura ligeira", explica Iranez. A turma consegue percorrer, assim, um caminho rumo a uma leitura mais consciente e cada vez mais autônoma.

Textos literários pedem análise da postura do autor

Com os textos literários, antes de mais nada, é importante discutir com a turma a seguinte questão: em que eles se distinguem dos não literários? "Eles são criações ficcionais de toque poético que visam produzir emoções, uma tentativa de encantamento que ocorre também quando ouvimos música ou vemos um quadro ou assistimos a um filme", explica Claudio Bazzoni, assessor de Língua Portuguesa da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e selecionador do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10. Diante deles, observar o que o autor diz - o conteúdo - e como ele o faz - a forma, a maneira como escreve - tem igual importância.

É justamente por isso que a leitura de um poema não pode se esgotar na tradução das passagens complicadas, como muitas vezes ocorre (leia a sequência didática). Trabalhar a interpretação incluindo a análise dos recursos textuais essenciais do gênero (como disposição gráfica na página, tamanho dos versos, figuras de linguagem, repetições expressivas etc.) foi o caminho escolhido por Gláucio Ramos Gomes, professor da EM Heinz Hering, em Paulista, na região metropolitana de Recife. Na etapa de exploração prévia, o objetivo é antecipar a ideia principal (com perguntas como "o que o título sugere a respeito do assunto do poema?") e a identificação do contexto de produção ("Quem é o autor? Já leram alguma obra escrita por ele? Sabem algo da época e do lugar onde ele vivia?")

Nas crônicas, destaque para as expressões da oralidade

Depois que todos leram o texto silenciosamente e um aluno o fez em voz alta para a classe, é a vez de Gomes. "Fico atento às pausas desnecessárias ou a reações de estranhamento dos alunos. É um momento importante para ver se eles identificam a musicalidade do poema, se percebem a rima e a importância das pausas e da métrica", diz ele. Também é a hora para debater as figuras de linguagem e esclarecer dúvidas de vocabulário, incentivando, inicialmente, a dedução pelo contexto. "Quando é necessário usar o dicionário, debatemos qual o significado mais adequado. Ou se o termo aparece em sentido figurado."

Terminada a leitura, o essencial é a construção da síntese semântica do texto. É o momento de resgatar o que foi discutido sobre o poema durante a aula. Proponha, por escrito, algumas questões: que ideias o poema apresenta? Quais argumentos defendem ou refutam o mote principal? Como o autor explicita seu sentimento? Que figuras ou conectivos de linguagem aparecem no texto e servem para o autor construir suas opiniões? Como interpretá-las? Dessa maneira, a turma vai perceber que forma e conteúdo atuam juntos na construção do sentido dos poemas.

As mesmas etapas de exploração inicial e de construção da síntese depois da leitura servem para os demais gêneros literários. O que muda são as atividades durante a leitura. No caso da crônica, a leitura inicial já pode ser feita por um leitor experiente, que saberá dar o colorido que ela merece, reforçando alguns dos recursos comuns nesse gênero: uso de diálogos, expressões típicas da oralidade, predomínio do tempo presente, gírias e regionalismos. Em seguida, é hora de localizar o tema principal e as palavras-chave que o indicam, aproveitando para esclarecer os termos desconhecidos que a moçada anotou. A análise das características do gênero é o momento para mostrar como o autor apresenta o tema (se conta um fato ou emite uma opinião, por exemplo), os efeitos que ele quer causar (o humor é um dos mais presentes) e os recursos que usa para chegar lá (o apelo a estereótipos, comparações propositalmente exageradas etc.).

Nos contos, hora de debater o contexto social e histórico

O conto completa a trinca dos gêneros ficcionais mais presentes nas escolas. Pela própria extensão dos textos - em geral, maiores que crônicas e poesias -, é necessário recuperar, oralmente ou por escrito, as ocorrências mais importantes do enredo. Discuta ainda o contexto social e histórico - uma providência para que todos entendam que contos são registros de uma época e de uma forma de pensar. "Um aluno de hoje talvez precise de apoio para entender o conceito de servidão presente nos textos desse tipo escritos por Machado de Assis no século 19, quando a escravidão era encarada como algo natural", exemplifica Bazzoni.

Prossiga investigando o tema. Em alguns contos, ele está explícito, porém em outros, como fábulas, histórias infantis e apólogos, fica menos evidente. Um debate ajuda a identificar as pistas linguísticas que revelam o assunto por trás da história. Por fim, vale lançar um olhar sobre um elemento-chave dos contos: o narrador. Ele conta a história em primeira pessoa? Sua posição na trama é central, periférica ou ausente? Ele relata as falas dos personagens e seus pensamentos? Pensadas em conjunto, essas questões ajudam a garotada a entender que o ponto de vista de quem narra faz diferença no acesso à história.

Procedimento de estudo - Roteiro

Com perguntas que estabelecem uma sequência interpretativa, ele ajuda a turma a construir sentidos globais e de partes do texto 

UM TRAJETO Sem respostas evidentes, as perguntas ajudam a moçada a entender os argumentos que sustentam as opiniões defendidas em editoriais . Foto: Paulo Vitale
UM TRAJETO Sem respostas evidentes, as perguntas ajudam a moçada a entender os argumentos que sustentam as opiniões defendidas em editoriais . Foto: Paulo Vitale

Estruturado na forma de perguntas, esse gênero escrito de apoio à leitura tem como objetivo oferecer alguns caminhos para a interpretação. As questões, em geral, seguem algum tipo de sequência - em um editorial, por exemplo, podem começar perguntando sobre o tema tratado, a ideia central e daí seguir para a análise de argumentos e possíveis soluções oferecidas pelo autor. Espera-se que os alunos respondam com pequenas frases que, no conjunto, ajudam a construir o sentido geral do texto e de suas partes mais relevantes. Em alguns casos, o roteiro pode até se confundir com as fichas de interpretação que aparecem em livros paradidáticos ou didáticos, no fim de cada capítulo. A diferença, no entanto, é clara: num roteiro bem feito, as respostas não estão explícitas no texto e encaminham para o entendimento. Um lembrete importante: na análise de textos literários, as perguntas devem considerar, além do conteúdo, os recursos formais empregados pelo autor.

 

Quer saber mais?

CONTATOS
Claudio Bazzoni, bazzoni@uol.com.br
EMEF Ângela Pellegrini Paludo, R. José Corrent, 74, 95320-000, Nova Prata, RS, tel. (54) 3242-1111
EM Heinz Hering, R. 144, 16, 53407-510, Paulista, PE, tel. (81) 3437-4809 

BIBLIOGRAFIA
Fichamento, Rosana Morais Weg, 67 págs., Ed. Paulistana, tel. (11) 3744-9754, 16 reais 
Obra Poética, Cecília Meireles, 894 págs., Ed. Nova Fronteira, tel. (21) 3882-8200 (edição esgotada)
Resumo, Marli Quadros Leite, 64 págs., Ed. Paulistana, 16 reais 

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