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Novas práticas em curso: estratégias de combate à evasão entram na rotina de educadoras

Participantes de cursos da NOVA ESCOLA sobre o tema contam quais práticas apresentadas – como a de envolver os alunos na busca ativa - pretendem incorporar no próprio planejamento escolar

POR:
Maggi Krause

As fotos desta reportagem foram tiradas remotamente pela fotógrafa Tainá Frota, por meio de videochamadas com a diretora Nicaelle Viturino.

A diretora Nicaelle Viturino utilizando a plataforma de Busca Ativa da UNICEF.

A escola da diretora Nicaelle usa a plataforma de busca ativa do Unicef, mas ela quer ir além: inspirada no curso da NOVA ESCOLA, pretende incluir a participação dos próprios alunos nessas ações. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

O contexto da evasão escolar, apresentado no curso Combate à evasão no Ensino Médio: replanejamento e resgate da identidade escolar, no site da NOVA ESCOLA, é muito semelhante ao que Nicaelle Viturino, diretora do Centro de Excelência Professor Gentil Tavares da Mota, observa em sua escola, no município de Frei Paulo, em Sergipe. “Os números de evasão no Nordeste são reflexo de uma realidade dura. É importante ter estatísticas para entender que não estamos sozinhos”, reflete ela, que verificou, em novembro, ter cerca de 30% dos alunos com risco de não finalizar o ano letivo. No final de 2019, antes da pandemia, eram 10% a 15%, ainda assim um percentual alto. No Gentil Tavares da Mota, que atende 600 estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, um dos maiores problemas é a distorção idade-série. “Percebemos os jovens de 18 e 19 anos ingressando no Ensino Médio, em vez de estarem com a etapa concluída. Tanto que uma das iniciativas foi colocar uma nova turma de EJA  [Educação de Jovens e Adultos] para acelerar essa finalização”, conta Nicaelle.

Outros motivos que impulsionam a evasão, segundo a gestora, são a necessidade de o estudante ajudar em casa com a renda familiar (o que, se não faz com que ele deixe de frequentar as aulas, deixa-o cansado demais para acompanhá-las) e a falta de perspectiva de futuro. “Converso muito nas salas e me coloco como exemplo de superação, pois também precisei trabalhar e me afastar da escola durante um período”, conta a diretora. “Sou gestora na instituição onde estudei e fui aprovada para cursar um doutorado em uma universidade pública. Falo para eles que não vale a pena desistir, pois a educação é o único caminho possível para mudar a realidade”, completa.

Um dos exemplos do curso que mais entusiasmou Nicaelle foi o envolvimento dos jovens na busca ativa dos colegas, apresentado pelo projeto Caçadores de Pérolas, do Sul da Bahia. “Aqui, professores e coordenadores acompanham a frequência às aulas, e usamos a plataforma de busca ativa do Unicef, mas é preciso fazer mais. Pretendo incluir a participação dos próprios alunos e pensar em ações que aproximem comunidade e escola. A ideia de montar um clube de preservação do patrimônio escolar e melhoria da estrutura surgiu durante o curso”, explica.

Diversas situações vividas pelos estudantes desafiam a gestora. “Atualmente uma aluna do 6º ano está grávida e fora da escola. E aqui há muitas meninas que fogem de casa para morar com o namorado, aconteceu muito na pandemia”, conta. No caso de jovens que se casam cedo, os maridos às vezes quer impedi-las de frequentar as aulas. Após o retorno presencial, uma das alunas da EJA, já maior de idade, confessou que talvez não conseguisse voltar, pois o marido era ciumento e não via com bons olhos o curso noturno.

A diretora Nicaelle Viturino em sala de aula vazia.
O percentual de evasão na escola da diretora cresceu durante a pandemia, o que ampliou a necessidade de elaborar ações para garantir a presença dos alunos em sala. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Essa cultura não é exclusividade de Sergipe ou do Nordeste. “É um reflexo do traço machista do nosso país, relatado como ciúme, mas que mascara o temor do homem pela emancipação da mulher, pois ela volta da escola com muitas ideias que não são aceitas em casa”, esclarece Danila Di Pietro, pesquisadora da área de Psicologia Moral e suas relações com as competências socioemocionais e a promoção da convivência ética na escola. A especialista conduziu o curso Como acolher, ensinar e avaliar em diferentes contextos, outra formação da série Trilhas do Amanhã – Ensino Médio, e lembra que estudos atestam que os adolescentes que frequentam as aulas têm menos chance de se envolver em homicídios, episódios de violências e gravidez e mais oportunidades de conseguir empregos melhores.

Soluções flexíveis para não deixar o estudante desistir

Quanto mais precárias as condições de uma localidade, mais a escola deve estar presente para dar apoio a adolescentes e jovens e ser um fator de proteção. E nem só no Nordeste os estudantes precisam trabalhar. Sandra Fatima Santini, que dá aula de Ciências no Colégio Estadual do Campo São Roque, em Pato Branco, no Paraná, tem muitos alunos que ajudam os pais na lavoura e outros que perderam renda durante a pandemia. Uma das famílias, por exemplo, vivia principalmente com a aposentadoria da avó, que morreu de Covid-19. Segundo a professora, na região, quem tem mais de 40 anos já tem dificuldade de encontra emprego, e os jovens são empurrados ao trabalho por necessidade ou se empolgam quando são contratados.

“Um aluno do 3º ano se empregou durante a pandemia, e depois do retorno presencial, não vinha às aulas por conta dos horários”, contou. O diretor foi compreensivo, negociou com o adolescente que ele faria as atividades impressas em casa e entregaria no colégio. No final do ano, cumpriu uma revisão de conteúdo e as provas e concluiu o Ensino Médio. No estado do Paraná, a lei é cumprida: se o menor de 18 anos não comparece regularmente à escola, o conselho tutelar vai até a residência e depois, se necessário, à polícia. Não são raros os casos que vão parar no fórum, onde o gestor escolar precisa depor e oferecer soluções. “O tema do curso – a evasão – me chamou a atenção, pois aqui falta até incentivo, já que a maioria dos pais têm pouca escolaridade e não veem sentido nos estudos dos filhos. Muitos jovens terminam a escola do campo e param por aí, pois, mesmo se passarem em uma faculdade pública, a família não consegue bancar o custo de vida em Pato Branco”, diz a professora concursada na rede estadual.

A diretora Nicaelle Viturino em frente a uma lousa onde uma frase de Cora Coralina está escrita.
Nicaelle, que se afastou da escola por um período, pois precisava trabalhar, se coloca como exemplo de superação para seus alunos ao mostrar como a educação mudou sua realidade. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Recém-graduada em Ciências Biológicas na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sandra dá aula na escola, em área rural, e em um colégio militar, na cidade, e ainda atua como corretora de imóveis. Ela cursou várias formações online na NOVA ESCOLA para cumprir as horas complementares para a faculdade. “Além de o conteúdo ser bacana, a forma é simples e permite retornar ao ponto do curso em que você parou, no momento que mais convém. Essa flexibilidade é essencial, pois é muito corrido o tempo do professor.”

Elen Anjos também divide sua rotina entre duas escolas de municípios vizinhos ao sul do Recôncavo Baiano: é professora de Língua Portuguesa e Ciências no Colégio Municipal Francisco Lobo, em Jaguaripe, e coordenadora pedagógica na EM Professor Evaldo Machado Boaventura, em Aratuípe. Em ambas atua nos anos finais do Ensino Fundamental. Ela foi cursista da formação online sobre acolhimento. “É uma palavra tão simples e pouco colocada em prática, infelizmente. Eu sinto que cada vez mais a escola precisa promover o diálogo, as rodas de conversa”, observa. Ela quer organizar as oficinas de história de vida que viu no curso, começando com os professores que coordena, na jornada pedagógica do início do ano. “É uma excelente estratégia”, elogia Danila. “Quando o acolhimento é feito apenas pelo professor e não está institucionalizado, a escola tem uma postura negligente. É fundamental a equipe gestora dar apoio, e quando inicia o processo com o docente, ele vivencia aquilo e percebe o que a experiência provocou nele, o que o incentiva a acolher da mesma forma as crianças e os adolescentes”, explica a especialista.  

Na escola onde Elen dá aula, que tem quase 600 alunos, as turmas voltaram presencialmente em outubro, em esquema de rodízio. “Enquanto educadora, me preocupo muito com o que o aluno traz. Ele não é uma página em branco. Aconteceu tanta coisa na pandemia, e o acolhimento ajuda na superação de desafios. Eu já tinha uma inquietação grande diante do tema, e o curso me ajudou a ter mais recursos para engajar o estudante e fazer com que ele se sinta bem na escola.”

Além de acolher os alunos de suas salas de aula, o que ela já fez em 2021, no próximo ano a professora planeja trabalhar com células de aprendizagem, uma estratégia de colaboração que incentiva os estudantes a gerenciarem suas emoções e serem proativos, serem protagonistas e autônomos. Danila reforça que, em situações complexas, como no retorno presencial após a pandemia, não existe um caminho simples. “O melhor é ter um cardápio de possibilidades e poder contar com outras pessoas para opinar como construir a solução”, ensina. Muitas sugestões para promover o acolhimento e o engajamento com a aprendizagem e novas formas de avaliação e de combate à evasão estão disponíveis gratuitamente na trilha de cursos e no e-book sobre o tema, materiais patrocinados pela Fundação Tinker e disponíveis no site da NOVA ESCOLA. Os conteúdos são úteis pois reconectar os alunos com a escola e mostrar a importância de persistir nos estudos é um trabalho sempre necessário, que não termina com a pandemia.

Para conferir reportagens e cursos gratuitos sobre o Ensino Médio realizados em parceria com a Fundação Tinker, clique aqui.

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