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Acolhimento: como duas escolas da região Nordeste trabalham as competências socioemocionais para enfrentar os desafios da pandemia

Professoras e alunos de instituições da rede estadual do Maranhão e do Ceará falam sobre a importância da prática para dar seguimento à aprendizagem e manter os laços afetivos

POR:
Lisandra Matias

As fotos desta reportagem foram tiradas remotamente pela fotógrafa Tainá Frota, através de videochamadas com o aluno Wallisson Marinho Sousa.

Fotografia feita remotamente via google duo do aluno Wallisson Marinho, estudante do 3º ano do ensino médio na rede estadual do maranhão.
Wallisson Marinho Sousa, aluno do 3º ano do Ensino Médio da rede pública estadual do Maranhão. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

O ano de 2020 não foi fácil para o estudante Wallisson Marinho Sousa, de 17 anos. Na época, aluno do 2º ano da rede pública estadual do Maranhão, ele já vinha enfrentando problemas familiares quando a pandemia chegou. “Em março, quando as aulas foram suspensas, pensei que seria algo breve, mas as coisas foram ficando mais difíceis. Eu assistia às aulas online, mas logo meus créditos de celular acabavam e eu não conseguia acompanhar tudo”, lembra.

Em julho, ele contraiu Covid-19 e, após se recuperar da doença, ficou com sequelas e depressão. Não conseguia mais se dedicar aos estudos e parou de assistir às aulas. Quando retomou, já no 4º período escolar, ficou de recuperação e considerou que perderia o ano. “Eu realmente achava que não iria passar.” Wallisson seria mais um aluno a engrossar as estatísticas de reprovação, abandono e evasão escolar, que devem aumentar durante a pandemia. Segundo a pesquisa “Juventudes e a Pandemia do Coronavírus”, promovida pelo Conselho Nacional da Juventude em parceria com a Fundação Roberto Marinho e outras organizações, quase 30% dos 33 mil jovens entre 15 e 29 anos que responderam ao estudo, de todo o Brasil, pensam em deixar a escola.

Porém, graças ao acolhimento e ao apoio da coordenação da escola e dos professores, o estudante cursa hoje o 3º ano do Ensino Médio e planeja fazer Teatro ou Pedagogia. “Eles falaram que eu não tinha sido o único a ter problemas e que poderia repor as notas dos dois períodos perdidos. Os professores disponibilizaram aulas e atividades, fiz as provas finais e aguardei o resultado final. Fiquei muito feliz por ter sido aprovado”, recorda o estudante. A escola onde Wallisson estuda, o Centro de Ensino Benedito Leite, conhecida como Escola Modelo, é a segunda mais antiga de São Luís (MA), inaugurada há 121 anos. Localizada no centro da capital maranhense, recebe quase mil alunos de bairros do entorno do centro histórico, da área Itaqui-Bacanga, e dos municípios de Raposa, Paço do Lumiar e São José de Ribamar.

Como começar a trabalhar as competências socioemocionais
Karen Teixeira, do Instituto Ayrton Senna, dá algumas orientações

  1. Busque formação tanto para os educadores como para os outros profissionais da escola.
    O trabalho torna-se mais efetivo quando é intencional e envolve a comunidade escolar como um todo. Também é importante que o professor aprenda a desenvolver em si próprio essas competências para poder trabalhá-las junto aos alunos.
  2. Proporcione situações de aprendizagem para que os estudantes possam vivenciá-las na prática.
    Eles precisam entender o que são essas competências, a sua importância, e pensar sobre elas. Isso pode ser feito, por exemplo, ao refletirem como vêm mobilizando essas habilidades no dia a dia. A reflexão já é o início de uma autorregulação do comportamento.
  3. Use metodologias ativas de ensino e aprendizagem.
    Uma vez que os alunos já estão nesse processo de autoconhecimento, o educador pode propor atividades que trabalham essas competências com o uso de metodologias ativas. Na aprendizagem por projetos, por exemplo, os estudantes desenvolvem a autogestão, pois têm que se organizar, planejar e persistir frente à dificuldade. No trabalho em grupo, praticam a escuta ativa e aprendem a se posicionar e interagir com empatia e respeito.

Professora de Língua Portuguesa, Produção Textual e Projeto de Vida da Escola Modelo, Bethânia Mariza Silva de Melo conta que a instituição passou por momentos difíceis durante a pandemia. Além das dúvidas sobre como seriam a condução das aulas, as dificuldades com as ferramentas tecnológicas, a falta de conexão de alguns alunos e o receio do abandono escolar e da evasão, havia medo, incertezas em relação ao momento e às questões emocionais dos alunos. Alguns falaram que não iriam participar da aula porque tinham que cuidar da casa e dos irmãos menores. Outros relataram violência doméstica, mortes na família em decorrência da Covid-19 e necessidade de mudança de cidade. Houve um estudante que disse que queria morrer.” Diante dessas situações, a professora começou a buscar, no início das aulas, falar com cada um dos alunos. “Eu perguntava se estavam bem e como estava a família. Pedia que se cuidassem e dizia que estava com saudade deles.”

O trabalho de acolhimento que Bethânia realiza junto aos alunos começou antes da pandemia, por conta de experiências que vivenciou ao longo da carreira. “Em escolas e visitando famílias, ouvi relatos de situações delicadas, que envolviam fome, violência doméstica e até prostituição. Percebi que muitos alunos tinham vergonha de onde moravam e de suas vidas. Isso me fez iniciar um trabalho diferenciado nas aulas.”

Fotografia feita remotamente via google duo do aluno Wallisson Marinho, estudante do 3º ano do ensino médio na rede estadual do maranhão. Wallisson está sentado na mesa tomando café.
Em 2020, Wallisson contraiu Covid-19, teve depressão e parou de assistir às aulas online. Mas, com a ajuda da escola, retomou os estudos. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Emaranhando Vidas
Em julho do ano passado, Bethânia fez o curso “Gerenciamento de Emoções: Saúde Emocional e Comunidade Escolar”, do Projeto Emaranhando Vidas, em que também atuou como tutora. O programa é uma parceria entre a Secretaria de Estado da Educação e a Secretaria de Estado da Saúde. Entre os temas tratados estão depressão, ansiedade, bullying e violência doméstica. O projeto inclui atendimento psicológico à comunidade. “Os profissionais da Educação também precisam desse acolhimento emocional”, destaca.

A professora gosta de iniciar as aulas com músicas, poemas ou frases que mostram a importância de estar vivo e reagir diante dos desafios e fracassos. “Precisamos ter um olhar sensível e acolhedor para inquietações e fragilidades. Faz parte do nosso trabalho como educadores propiciar esse processo tão importante de construção de conhecimento, de vida e de sonhos dos nossos meninos e meninas.”

Segundo Karen Teixeira, especialista em Educação Integral do Instituto Ayrton Senna, além de favorecer a aprendizagem, na medida em que o aluno tem mais curiosidade e abertura para o novo, por exemplo, as competências socioemocionais funcionam como um fator de proteção contra a evasão escolar – assim como aconteceu com Wallisson. “Essas competências criam um clima escolar positivo, em que o estudante se sente ouvido, acolhido, respeitado e pertencente àquele espaço, aumentando as chances de permanecer na escola e não a abandonar”, afirma Karen. Como num ciclo, o clima positivo favorece o desenvolvimento da autoconfiança, estimulando o aluno a participar mais e ver significado na escola.

Aprendizagem cooperativa
A Escola Estadual de Educação Profissional Alan Pinho Tabosa, em Pentecoste, no interior do Ceará, não registrou nenhum caso de evasão entre os seus 536 alunos. Metade deles mora na zona rural ou em municípios vizinhos, em uma região pobre do estado (em 2018, os trabalhadores formais de Pentecoste ganhavam em média 1,5 salário mínimo mensal, de acordo com o IBGE). Embora tenha enfrentado desafios durante a pandemia – como a desmotivação dos alunos, a necessidade de se adaptar rapidamente ao novo cenário e a falta de conexão de alguns estudantes –, a escola triunfou devido à sua metodologia baseada na aprendizagem cooperativa, no acolhimento e no desenvolvimento das competências socioemocionais. Segundo o diretor Elton Luz, o projeto pedagógico da Alan Pinho Tabosa tem foco na interação e na construção de relacionamentos para favorecer um clima agradável e propício à aprendizagem. Lá, os alunos trabalham em grupos (células) de três indivíduos e exercitam habilidades como capacidade de comunicação, autonomia e protagonismo.

Sara Emily de Castro Mota, de 17 anos, aluna do 3º ano do Ensino Médio, conta que viveu uma grande transformação ao ingressar na escola, em 2019. “Eu quase não falava. Era tímida e antissocial por conta do bullying que tinha sofrido no Ensino Fundamental, por ter bom comportamento e ir bem nas matérias. Eu era muito fechada com os meus sentimentos, sofria sozinha”, lembra. “Mas tive que aprender a trabalhar em grupo. Aprendi também que eu podia confiar nas pessoas e falar sobre mim para elas. Comecei a me soltar mais, participar das aulas.” Sara conta que a dinâmica em células tem ajudado os estudantes a desenvolver a cooperação e a resiliência, ficar mais próximos e acolher uns aos outros durante o isolamento social.

Fotografia feita remotamente via google duo do aluno Wallisson Marinho, estudante do 3º ano do ensino médio na rede estadual do maranhão. Wallisson se encontra em frente ao quintal em contraluz.
Pesquisas apontam que a reprovação, o abandono escolar e a evasão devem aumentar durante a pandemia. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

Nas aulas online de Projeto de Vida, a professora Geisiane Andrade prepara slides e atividades para trabalhar o autoconhecimento e a reflexão. Depois, a turma se encontra na sala virtual do Google Meet. “Eles compartilham sentimentos e percepções, e fazemos um círculo de falas. Quem não quer falar escreve no chat ou envia uma mensagem para mim pelo Classroom. Mas muitos se sentem à vontade, ligam o microfone e falam abertamente. Isso tem sido importante para eles.”

Olhar empático e aproximação
Geisiane explica que quando os alunos ingressam na instituição, vivem uma imersão para conhecer a metodologia da escola, participando de oficinas e interagindo em células com estudantes veteranos. Uma dessas atividades inclui contar a sua história de vida para o grupo, a fim de desenvolver um olhar mais empático e o respeito às diferenças. “A gente muda completamente a percepção que tem sobre as pessoas. Quando começam a contar a sua história, vamos entendendo o outro e tudo que ele viveu”, conta Sara. 

Fotografia feita remotamente via google duo do aluno Wallisson Marinho, estudante do 3º ano do ensino médio na rede estadual do maranhão. Wallisson está com um livro em mãos.
O acolhimento e o apoio que recebeu da coordenação e dos professores foram determinantes para que Wallisson continuasse na escola. Ele planeja cursar Teatro ou Pedagogia. Crédito: Tainá Frota/NOVA ESCOLA

“As situações pelas quais passamos fortalecem nosso trabalho de educação emocional, que procura minimizar ao máximo o olhar de indiferença presente na sociedade. O estudante precisa estar bem psicologicamente para ter excelência acadêmica”, ressalta Geisiane. No currículo, a escola inclui aulas de Cidadania, em que cada professor diretor de turma aborda determinadas macrocompetências, com base no material desenvolvido pelo Instituto Ayrton Senna [veja conteúdos e propostas de atividades]. O 1º ano do Ensino Médio, por exemplo, trabalha empatia, respeito e confiança (competências relativas à amabilidade), além de tolerância ao estresse, autoconfiança e tolerância à frustração (relativas à resiliência emocional).

Karen, do Instituto Ayrton Senna, observa que, como a escola é um ambiente fundamental para a socialização do estudante, quando o aluno se vê fora dela, as relações sociais que construiu se enfraquecem. “O acolhimento durante a pandemia e na volta às aulas está muito relacionado a refazer e reestruturar esses laços – não só entre os pares, mas com os professores e a equipe gestora. Ele deve ser feito de forma intencional e permitir que os alunos troquem informações e experiências.” Segundo a especialista, foco, empatia, respeito, tolerância ao estresse e imaginação criativa serão essenciais no retorno às aulas presenciais, pois é preciso dar um novo significado ao que foi vivido durante a pandemia.

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