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Dia do Índio: 11 livros para ampliar os conhecimentos sobre a temática indígena

Obras, indicadas por estudiosos e pesquisadores, são uma importante ferramenta para desconstruir estereótipos e valorizar a diversidade e a cultura desses povos

POR:
Juliana Faddul
Crédito: Wikimedia Commons, Editora Peiropolis, UFRJ, Carta Capital, Instituto Elos, IMS e Divulgação. Composição: Duda Oliva

Ainda hoje, não é raro as escolas abordarem a temática indígena a partir de uma visão folclórica e, muitas vezes, até preconceituosa. Por ser algo bastante enraizado na sociedade, é comum surgirem estereótipos em relação às populações indígenas em livros didáticos ou em atividades na sala de aula.

“A principal preocupação que o professor deve ter é em não generalizar. Ao tratar da questão indígena, é preciso deixar bem claro que o Brasil não tem um povo só, mas vários. Cada um com sua peculiaridade, idioma, cultura e organização”, explica Dominique Tilkin Gallois, professora colaboradora sênior do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP). Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil conta com 305 etnias e 274 línguas indígenas.

“Sei que falamos muito sobre isso, mas é fácil encontrar generalizações em livros didáticos”, diz Ytanajé Coelho Cardoso, professor e escritor da etnia Munduruku. “O uso de termos como ‘tribo’ e ‘índios’ são pejorativos. Somos indígenas e, para se referir a um determinado grupo, o correto é usar comunidade ou o nome da etnia”.

Ytanajé também ressalta a importância do professor explicar as diferenças entre literatura indígena, indianista e indigenista e como elas podem afetar o ensino da história e cultura indígenas. “A literatura indianista é feita por escritores urbanos, que criam ficções que envolvem temáticas indígenas, como vemos nas obras de José de Alencar. A literatura indigenista é o que missionários e antropólogos escrevem e escreveram sobre nossos mitos e crenças, em forma de pesquisa e registro. Já literatura indígena são as obras escritas pelos próprios indígenas, sem intermediações.”

Leve a região Norte para a sua aula sem estereótipos

Para quem mora nos estados do Sul e Sudeste ou em outras localidades do país, o Norte do Brasil costuma ser visto quase sempre como o lugar onde está a Floresta Amazônica. Seus habitantes seriam os povos indígenas, que usam cocar, moram em ocas e são pouco afeitos à urbanidade. Por isso, preparamos conteúdos para te atualizar sobre aspectos relevantes da região em 2021 e oferecer sugestões de atividades de Língua Portuguesa e Geografia relacionadas ao tema.

A literatura indígena, reforça o escritor, é uma importante ferramenta dentro da sala de aula para quebrar estereótipos. “O indígena de hoje não é mais aquela pessoa que anda nua na mata e tem arco e flecha, o que, infelizmente, ainda é retratado tanto na mídia como nas escolas. Ao apresentar uma história escrita por indígena, o professor mostra que não podemos ser ignorado”, defende.

Faz coro ao escritor Janice Cristine Thiél, professora titular de literatura da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). “Na área da literatura, a leitura de textos indígenas nos faz perceber como tradições diferentes elaboram suas histórias, seguindo visões estéticas específicas, o que amplia nosso conhecimento dos temas tratados e da maneira como os textos são construídos com recursos multimodais.” 

Ytanajé Coelho Cardoso, Dominique Tilkin Gallois e Janice Cristine Thiél indicam obras que podem não só auxiliar os professores no trabalho com a temática em sala de aula, como também expandir seus saberes sobre a cultura indígena.

1. Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil, de Graça Graúna (Mazza Edições)
A obra mostra como a história e a memória indígenas foram se preservando ao longo dos anos por meio de suas narrativas. “O livro apresenta conceitos e elementos qu compõem a literatura indígena, além de discutir questões identitárias, a diáspora indígena e a contação de histórias”, explica Thiél. A autora Graça Graúna é descendente de potiguaras e coordenou o Projeto de Especialização para Formação de Professores Indígenas no Estado de Pernambuco.

2. O Karaíba: uma história do pré-Brasil, de Daniel Munduruku (Editora Melhoramentos)
O livro de ficção narra, a partir da visão do indígena, como era a vida dos povos originários antes da chegada dos portugueses. “No romance, Daniel Munduruku constrói a história de povos que vivem em uma terra ainda não chamada Brasil e apresenta os costumes e crenças indígenas antes da colonização”, conta Thiél. “Embora seja considerado um livro infanto-juvenil, é uma leitura um pouco mais longa, que exige uma certa experiência anterior e maturidade histórica para absorver a obra”, completa Ytanajé.

3. Cantos da Floresta: iniciação ao universo musical indígena, de Berenice de Almeida e Magda Pucci (Editora Peirópolis)
O livro traz informações sobre a cultura musical das comunidades Guarani, Kaingang, Paiter Surui, Ikolen Gavião, Yudjá, Kambeba, Krenak, Xavante e povos do Rio Negro. A obra vem com CD e propostas didáticas para professores e educadores musicais, como jogos, brincadeiras, escutas sensibilizadoras e dinâmicas. “Este livro enfatiza a diversidade dos povos indígenas, seus costumes, tradições e musicalidade”, diz Thiél.

Brincadeiras cantadas: Valorizando a tradição popular

Neste curso gratuito a proposta é contribuir para a ampliação do repertório de canções e brincadeiras da tradição oral brasileira. O repertório escolhido possibilita desafios rítmicos, melódicos e de coordenação entre movimento, palavra e música para potencializar o desenvolvimento integral da criança nos diversos aspectos da sua formação: emocionais, físicos, cognitivos, sociais e motores.

4. Pele silenciosa, pele sonora: a literatura indígena em destaque, de Janice Cristine Thiél (Autêntica - Coleção Práticas Docentes)
A obra é bibliografia básica para a formação continuada de professores do Ensino Médio que pretendem incentivar a leitura de obras indígenas brasileiras e das Américas. “Apresento as especificidades da literatura indígena e proponho atividades para a inserção de obras indígenas na sala de aula”, destaca a autora Janice Thiél.

5. Ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak (Companhia das Letras)
Ailton Krenak é um dos pensadores indígenas mais reconhecidos da atualidade. A obra é uma adaptação de duas conferências e uma entrevista realizadas entre 2017 e 2019 e condensadas em 64 páginas. “O livro é um chamado de que, se não cuidarmos da mãe natureza, sucumbiremos. É ideologia indígena em seu estado bruto”, ressalta Ytanajé. A obra foi finalista do Prêmio Jabuti de 2020 na categoria Ciências Humanas.

6. Antes o mundo não existia: mitologia dos antigos Desana-Kêhíripõrã, de Tolamãn Kenhíri e Umúsin Panlõn Kumu (Editora Dantes)
Lançado na década de 1960, foi o primeiro livro escrito por indígenas. A obra é uma coletânea de narrativas míticas do povo Desana, composto por 15 subgrupos indígenas da região do rio Negro, no noroeste da Amazônia. “Este livro é uma raridade, difícil de ser encontrado, mas, na minha opinião, deveria ser parte do currículo de formação de professores no Brasil”, diz Ytanajé. O prefácio é da antropóloga Berta Ribeiro.

7. A terra dos mil povos: história indígena do Brasil contada por um índio, de Kaká Werá Jecupé (Editora Peirópolis)
Kaka Werá Jecupé, indígena da etnia Txucarramãe, escreve, fiel à oralidade, histórias de seus ancestrais contadas por seus pais, avós e bisavós. “O livro pode ser considerado infanto-juvenil no sentido de compreensão das histórias, mas eu sugiro a leitura aos professores para que possam entender as tradições desse povo”, recomenda Ytanajé.

Curso: Literatura no Ensino Fundamental 2

Não sabe como aproximar os alunos do Ensino Fundamental da literatura? A proposta deste curso é discutir estratégias didáticas que contribuam para a formação de adolescentes que sejam leitores literários, por meio da apresentação de gêneros que dialogam com a realidade deles.

8. Canumã: A travessia, de Ytanajé Coelho Cardoso (Editora Valer)
“Vou indicar o meu livro porque somos muito carentes de obras de ficção para adultos escritas por indígenas” diz o autor. A obra, que nasceu de pesquisas realizadas por Ytanajé quando cursava a graduação, fala sobre o papel dos anciãos, a ameaça do desaparecimento da língua Munduruku e a vida na comunidade. É o primeiro livro de Ytanajé que, além de professor, é doutorando em literatura.

9. Os índios antes do Brasil, de Carlos Fausto (Editora Zahar)
O livro problematiza informações arqueológicas e de etnográficas sobre povos indígenas já consolidadas pela academia. “É um livro acessível, que evidencia a diversidade dos povos antes da colonização e leva o leitor a entender como o processo colonial foi dramático para esses povos”, explica Gallois.

10. Peixes e pesca: conhecimentos e práticas entre os povos indígenas do Baixo Oiapoque, Amapá, das organizadoras: Pauline Laval e Lux Vidal (Iepé)
A obra, premiada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2020, é resultado de uma pesquisa coletiva sobre a prática e a importância da pesca para alguns povos indígenas amazônicos. “Além de evidenciar sofisticados conhecimentos sobre a pesca, a leitura é acessível e muito instigadora para dirimir preconceitos sobre saberes locais”, afirma Gallois.

11. ABC dos povos indígenas, de Marina Kahn (Editora SM)
O livro traz informações breves sobre 234 povos indígenas, falantes de 180 línguas distintas, e apresenta suas técnicas de pintura corporal, tipos de festas e cerimônias, ritos de passagem, tecnologias e as diferentes formas de relacionamento com a natureza. “Bom livro de divulgação, que evidencia a diversidade cultural indígena para ajudar professores do Ensino Fundamental”, diz Gallois.

 

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