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Literatura indígena: 10 livros para usar em sala de aula com os alunos

Além de revelarem saberes e modos de vida dos povos originários, textos escritos pelos próprios indígenas são um meio de resistência e uma forma de refletir sobre a pluralidade cultural brasileira

POR:
Juliana Faddul
Composição: Duda Oliva/Fotos: Wikimedia, Editora Edelbra, MiraOnline, Livraria Mairaca, DanielMundiruku Blogspot, Editora Peirópolis/Divulgação

Quando os portugueses chegaram ao que hoje é o Brasil, em 1500, havia cerca de 3 milhões de indígenas. Hoje, mais de 500 anos depois, essa população foi reduzida a 896.917 pessoas. Com o extermínio de várias etnias, os indígenas tiveram de encontrar diferentes maneiras de preservar sua cultura e ancestralidade. A literatura, principalmente a infantojuvenil, foi uma delas.

“A literatura produzida por indígenas ainda precisa crescer, mas o gênero infantojuvenil acaba servindo como ferramenta de resistência e de conscientização do povo brasileiro, já que, na ausência da oralidade, as figuras mitológicas tendem a sumir”, diz Ytanajé Coelho Cardoso, professor e escritor da etnia Munduruku.

Por conta disso, indígenas defendem a leitura de publicações escritas por herdeiros dos povos originários, uma vez que é possível trabalhar essa narrativa como forma de resiliência. “Essa também é uma maneira do professor não-indígena abordar a questão dos povos originários com autonomia em relação aos livros didáticos, que muitas vezes reforçam padrões e estereótipos, como o indígena correndo nu pela mata”, completa.

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Ao tratar a temática em sala de aula, no entanto, é necessário ter cautela para mostrar que os mitos não são simples fábulas, mas crenças dos povos originários, e ter cuidado para não desmerecê-las. “Já imaginou a polêmica se um professor trabalhasse de forma literária e lúdica a bíblia em sala de aula? É preciso responsabilidade também na hora de mostrar mitos indígenas para os alunos”, defende Ytanajé.

Para Tania Milene Nugoli Moraes, professora e antropóloga que atua na Coordenadoria de Políticas Específicas para Educação da Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul, trazer para a sala de aula a literatura indígena é fundamental para fortalecer e empreender um diálogo com culturas e saberes diferentes. “A literatura indígena na escola é um espaço para a reflexão sobre a pluralidade cultural brasileira, sobre discutir e aprender a conviver com outros, um lugar de ‘valorizar um fazer diferente’ para além da visão eurocêntrica”, afirma.

Uma abordagem interessante para trabalhar os livros infanto-juvenis é mesclar as obras com temáticas sociais. Laucídio Correa da Costa, da etnia Guató e coordenador pedagógico da Escola Estadual Indígena João Quirino de Carvalho Toghopanaã, em Corumbá (MS), propõe adaptar os princípios e os aspectos sociais e econômicos que estão escondidos nos mitos para os dias de hoje. “Assim é possível trabalhar a identificação, os direitos fundamentais e a defesa da dignidade humana”, diz.

O educador sugere, inclusive, envolver outros grupos minoritárias, como a cultura africana e afro-brasileira. “É importante não ficar só no ‘indígena coitadinho que foi preso e escravizado’. Tem de passar por isso, é claro, mas também é preciso enfatizar as questões sociais, culturais, econômicas e políticas daquela época. Ao incluir as questões afro, mostramos que o indígena não é fraco, mas que foi prejudicado no decorrer da história.”

Ytanajé, Tania, Laucídio e Janice Cristine Thiél, professora titular de Literatura da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) recomendam obras para os professores utilizarem em sala de aula com os alunos. Confira as sugestões:

1) Das crianças Ikpeng para o mundo: Marangmotxíngmo Mïrang, de Rita Carelli (SESI Editora)
O livro descreve 24 horas das crianças Yampï, Yuwipó, Kamatxi e Eruwó, da etnia Ikpeng, no Mato Grosso. Elas contam como é a casa do cacique, como tomam banho de rio e como se alimentam. A obra, em edição bilíngue, vem acompanhada de um filme dirigido pelos cineastas Kumaré, Karané e Natuyu Yuwipo Txicão. É possível trabalhar o imaginário dos alunos: como elas acham que é o cotidiano das crianças Ikpeng antes de ler o livro, após a leitura e depois de ver o filme.

2) Memórias de índio: uma quase autobiografia, de Daniel Munduruku (Edelbra)
Daniel Munduruku relembra episódios da sua vida, como a descoberta do amor, a conexão com sua ancestralidade, a cultura Munduruku e a construção de sua identidade como indígena nos dias atuais. As crônicas são curtas, e a narrativa resgata a oralidade.

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3) A palavra do grande chefe: uma adaptação livre, poética e ilustrada do discurso do Chefe Seattle, de Daniel Munduruku (Global)
Em 1854, o líder indígena Noah Sealth discursou ao grande “chefe de Washington”, o então presidente dos Estados Unidos, Franklin Pierce, sobre direitos indígenas. O texto do ‘Chief Seattle’ acabou se transformando em um documento importante e memorável, mas aqui Munduruku imprime a sua visão do texto. “O livro apresenta uma tradução livre de um discurso que trata da importância de se preservar o meio ambiente, além de propor reflexões sobre questões históricas, éticas e políticas”, diz Janice.

4) Kurumi Guaré no Coração da Amazônia, de Yaguarê Yamã (FTD)
A obra narra aventuras infantis e descreve o povo Maraguá, no Mato Grosso, com ensinamentos dos povos da floresta e desenhos. “O interessante é que o livro lança o leitor para uma rede de significados construídos na interação entre palavra e imagem”, observa Janice.

5) Morõgetá Witã: oito contos mágicos , de Yaguarê Yamã (Positivo)
O geógrafo Yaguarê Yamã reuniu oito contos da tradição do povo Maraguá, que vive no Amazonas. Os textos convidam o leitor a refletir sobre questões importantes da nossa existência por meio dos mitos. “São histórias curtas e interessantes, ideais para o público infantojuvenil”, comenta Ytanajé. O prefácio é da antropóloga Betty Mindlin.

6) Yahi Puiro Ki'ti: origem da constelação da Garça, de Jaime Diakara (Valer)
Diakara conta, na visão da etnia Desana, a teoria da origem do homem e o lugar que ele ocupa no  universo. “Com este livro, é possível trabalhar tanto a questão das mitologias quanto a astronomia”, diz Ytanajé. 

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7) Coisas de índio, de Daniel Munduruku (Callis)
Neste livro, o autor trabalha a potência da expressão "coisas de índio". Embora tenha carregado por anos um valor negativo, Munduruku defende que é possível transformar a frase em algo plural e rico. “É um livro universal sobre ser indígena no Brasil”, afirma Ytanajé. 

8) Sinal do pajé, Daniel Munduruku (Peirópolis)
Este livro mostra que, independentemente da realidade do jovem, a fase da adolescência é cheia de aflições e incertezas e, com os indígenas, não é diferente. Aqui, Munduruku fala sobre “a casa dos homens”, local onde os curumins vão no fim da infância, e os pajés e anciões exaltam as tradições. O autor também aborda o interesse pela vida fora da aldeia e a modernidade urbana. “O livro é rico em figuras e tem poucas páginas. O professor pode propor uma reflexão em sala de aula, fazendo ligações entre a cultura indígena e a vivência não indígena”, sugere Ytanajé. 

9) As fabulosas fábulas de Iauaretê, de Kaka Wera Jecupe (Peirópolis)
Onça que se casa, senhora que detém sabedoria eterna, pena mágica. As fábulas deste povo que vive no Amazonas falam de forma simples de episódios da vida, como nascimento, morte, amor, paz, erros e acertos. O livro é ilustrado por Sawara, a filha adolescente do autor. 

10) Aldeias, palavras e mundos indígenas, de Valéria Macedo (Companhia das Letrinhas)
A autora traz similaridades, diferenças e curiosidades sobre diversos povos indígenas do Brasil, como Yanomami, Krahô, Kuikuro e Guarani Mbya. Os alunos poderão saber um pouco das peculiaridades dessas etnias -- onde moram, como se enfeitam, suas festas e língua.

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