Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita.

Como alinhar meu planejamento à BNCC?

A partir de 2020, todas as escolas, públicas e particulares, precisaram se adequar aos novos currículos alinhados à Base

POR:
Mara Mansani
Rodas de conversa e de leitura são boas ações para planejar e fazer com a turma na volta às aulas. Crédito: Mariana Pekin

Férias para uns, recessos para outros.  Não importa. A hora é de relaxar, descansar, passear (se possível) e recarregar as energias, pois logo o ano letivo vai começar. Mas, falando sobre isso é inevitável, mesmo nesse tempo de desligamento das tarefas escolares, não pensar no que pretendo realizar com meus alunos nesse novo ano e, mais: no que ele reserva para a Educação brasileira.

Penso que 2020 será o ano para grandes debates, reflexões e ações de temas extremamente importantes para a nossa Educação. Entre eles, o destino do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), a efetivação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) em nossas escolas e nas nossas salas de aula e a formação dos professores para nos preparar para os novos desafios trazidos pela Base.

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A efetivação da BNCC é o que nos afeta diretamente nesse momento. Afinal, em alguns dias estaremos reunidos em pleno planejamento escolar para a semana pedagógica. Será o primeiro planejamento levando em conta os currículos municipais e ou estaduais alinhados à BNCC e produzidos a partir do que diz e orienta a nossa primeira Base.

Na alfabetização, a BNCC destaca um ponto muito importante para pensarmos nesse planejamento inicial, a transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental. Sabemos como é difícil essa mudança para as crianças e também para os professores. Para as crianças são muitas novidades: de ambiente, de amigos, da forma do processo de aprendizagem... é um grande impacto, que pode causar até mesmo um sofrimento emocional. Para os professores, são muitas as dúvidas de como fazer essa transição – de como desenvolvê-la, como torná-la menos traumática, como acolher e fazer a integração entre a turma, de saber quais são as práticas educativas mais apropriadas para esse momento e para iniciar a alfabetização.

Destaco alguns pontos presentes na BNCC sobre essa transição:

“…que haja equilíbrio entre as mudanças introduzidas, garantindo integração e continuidade dos processos de aprendizagens das crianças, respeitando suas singularidades e as diferentes relações que elas estabelecem com os conhecimentos, assim como a natureza das mediações de cada etapa”.

“Torna-se necessário estabelecer estratégias de acolhimento e adaptação tanto para as crianças quanto para os docentes, de modo que a nova etapa se construa com base no que a criança sabe e é capaz de fazer, em uma perspectiva de continuidade de seu percurso educativo”.

“… as informações contidas em relatórios, portfólios ou outros registros que evidenciem os processos vivenciados pelas crianças ao longo de sua trajetória na Educação Infantil podem contribuir para a compreensão da história de vida escolar de cada aluno do Ensino Fundamental”.

“… para que as crianças superem com sucesso os desafios da transição, é indispensável um equilíbrio entre as mudanças introduzidas, a continuidade das aprendizagens e o acolhimento afetivo, de modo que a nova etapa se construa com base no que os educandos sabem e são capazes de fazer, evitando a fragmentação e a descontinuidade do trabalho pedagógico”.

Ao estudarmos o documento, fica ainda mais claro o entendimento de que nossas crianças já têm um percurso percorrido, que elas já trazem uma bagagem de história de vida, de aprendizagens desenvolvidas até aqui e a importância da continuidade do seu processo de aprendizagem.

Nessa direção, a BNCC traz ainda sínteses das aprendizagens esperadas nos campos de experiências, que segundo o documento “devem ser compreendidas como elementos balizadores e indicadores de objetivos a ser explorados em todo o segmento da Educação Infantil, e que serão ampliados e aprofundados no Ensino Fundamental, e não como condição ou pré-requisito para o acesso ao Ensino Fundamental”.

Em meu planejamento inicial levarei em conta, além de tudo destacado até aqui, parte dessa síntese, apresentada na BNCC, no campo de experiências “O eu, o outro e o nós”. Entenda mais abaixo: 

> Respeitar e expressar sentimentos e emoções, atuando com progressiva autonomia emocional;
> Atuar em grupo e demonstrar interesse em construir novas relações, respeitando a diversidade e solidarizando-se com os outros;
> Agir com progressiva autonomia em relação ao próprio corpo e ao espaço que ocupa, apresentando independência e iniciativa;
> Conhecer, respeitar e cumprir regras de convívio social, manifestando respeito pelo outro ao lidar com conflitos.

Como você pode perceber, são objetivos de aprendizagens e desenvolvimento que indicam e podem render boas práticas pedagógicas em sala de aula. Então, vou iniciar meu planejamento assim:

Organização da sala: como já sabemos, a organização da sala diz muito sobre a nossa forma de conceber a Educação. Por isso, deixarei as carteiras dispostas em um círculo e depois em grupos de quatro. Se pretendemos favorecer as interações, facilitar a inclusão de todos, criar espaços de fala e escuta, facilitar e promover o processo de construção coletiva do conhecimento, precisamos sair do modelo “um atrás do outro e professor a frente”. Vale também tapetes e almofadas!

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A decoração da sala de aula: pretendo neste ano fazer uma decoração para receber os alunos que contenha muitos espaços para autoria dos estudantes. Que a sala de aula tenha a cara dos meus alunos, seus gostos, mensagens exclusivas, recados e etc. Pensei em painéis, cartazes e outros espaços que eles possam personalizar com seus desenhos, escritas (com meu auxilio) e outras criações. Acho importante evitarmos símbolos, imagens e tudo mais que possa reforçar estereótipos.

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Rodas de leitura: os livros de literatura, além do entretenimento, são ótimas oportunidades de abrir o debate, a fala, a escuta e a reflexão de todos acerca de temas que são necessários e importantes para a aprendizagem e para o bom desenvolvimento dos nossos alunos. Entre os selecionados para esse planejamento inicial está o livro “Gildo”, de Silvana Rando. Além de divertido, trata de temas muito comuns às crianças nessa transição e início da alfabetização: insegurança, ansiedade e medo do novo. Na história, o personagem principal, o elefante Gildo, supera seu medo de bexigas.

Mas há muitos outros bons livros para se fazer ótimas rodas de leitura, como por exemplo, “Criança como você”, dos autores Anabel Kindersley, Barnabas Kindersley e Mario Vilela e “Duas Dúzias de Coisinhas à Toa Que Deixam a Gente Feliz”, de Otávio Roth.

Rodas de conversa: para conhecer um pouco dos seus alunos e tentar entendê-los, as rodas de conversa não podem ficar de fora do planejamento agora e durante todo o ano. Para começar, abrirei a primeira roda de conversa a partir do tema do livro “Gildo” e sobre o que as crianças têm medo e se sentem inseguras. A ideia é que eles possam falar suas vivências, trocar experiências, aprender a escutar e, principalmente, sentirem-se acolhidas por mim, sua professora nesse momento de incertezas na transição. Vai ser muito bom!

Dinâmicas de interação: ainda aproveitando a história de Gildo e seu medo de bexigas, a dinâmica, dando a continuidade a primeira roda de conversa, terá bexigas. A proposta é que em duplas, os alunos estourem bexigas e que respondam as perguntas que estarão dentro delas. As perguntas serão voltadas para situações que podem ocorrer em sala de aula para que as crianças possam debater o que fazer em situações que podem ser inesperadas, difíceis e que envolvam ações de respeito, solidariedade, coletividade, etc. Por exemplo: seu colega está com dificuldades para apontar o lápis, o que você pode fazer para ajudá-lo?; se você esquecer seu caderno em casa, o que você pode fazer?; seu amigo preferido pediu para você não brincar com um colega da classe, o que você diz a ele? Como você viu, são perguntas que podem contribuir muito para um bom relacionamento de toda a turma. As rodas de conversa devem estar sempre presente em nossas rotinas.

Construção coletiva das regras de bom convívio: construa com a turma os combinados de boa convivência em sala de aula. Deixe que eles desenhem o que pensam sobre isso. Seja a escriba dos combinados da turma. Aproveite um dos painéis da classe para afixar a produção. Evite esses cartazes prontos, formatados, que é só imprimir. Os combinados precisam representar as necessidades reais de sala de aula. Sem contar que alguns materiais prontos neste formato deveriam ser chamados de combinados do “não”, pois são uma lista deles: “não conversem”, “não gritem”, “não pegue o que não é seu” e por aí vai. Em uma turma, ao propor a produção coletiva dos combinados, meus alunos colocaram “pode conversar, se tiver terminado a lição e baixinho para não atrapalhar os colegas.” Achei incrível!

Práticas para iniciar a alfabetização: nesse primeiro momento, as atividades podem e devem envolver os nomes próprios dos alunos. Aproveite para nomear os materiais e fazer crachás (de corpo e de mesa), por exemplo. Para iniciar o portfólio da turma, proponha jogos e brincadeiras com os nomes dos alunos e atividades com listas do mesmo campo semântico. Não se preocupe incialmente com cabeçalho e uso do caderno – haverá ainda muito e muito tempo para isso. Sugira brincadeiras infantis que explorem músicas e parlendas infantis e, mais uma vez, os nomes dos alunos. Faça a primeira sondagem diagnóstica de escrita dos estudantes, mas, se possível, não nos primeiros dias de aula. Afinal, primeiro, as crianças precisam sentirem-se acolhidas para que estejam tranquilas e mais seguras para esse momento. Vale ainda entrevistar pessoas que trabalham na escola para que as crianças conheçam os funcionários e também visitar os espaços do território escolar. Dá para montar uma sequência bem bacana para iniciar a alfabetização. Pesquise no banco de Planos de Aula NOVA ESCOLA atividades que explorem a leitura e escrita de nomes próprios. Esses materiais estão alinhados à Base.

 

Confira 3 sequências de planos de aula sobre nomes próprios

- Nome próprio e segmentação em sílabas: o objetivo é que os alunos identifiquem e construam o próprio nome, eles também vão explorar o reconhecimento do sistema de escrita alfabética como representação dos sons da fala e comparar palavras,  além de identificar semelhanças e diferenças entre sons de sílabas iniciais, mediais e finais; 

Nome dos colegas: o material vai trabalhar a leitura e escrita com uma atividade usando sons, a identificação de fonemas e sua representação por letras, bem como o reconhecimento do sistema de escrita alfabética como representação dos sons da fala;

Com que letra começa?: a sequência de planos de aula traz um bingo dos nomes para trabalhar com os alunos do 2º ano em que poderão perceber o princípio acrofônico que opera nos nomes das letras do alfabeto.

Acesse 6 mil planos de aula alinhados à BNCC

Para os pais: lembrem-se: às vezes não são as crianças que estão com dificuldades na transição, muitas vezes, são os pais ou responsáveis. Para isso, crie um texto objetivo e direto a eles, explicando de uma forma mais geral como será essa transição e o que eles podem fazer para ajudar suas crianças. Isso acalma e orienta os pais até a primeira reunião, em que você pode fazer oferecer mais explicações.

Então, queridos professores, aproveitem o descanso merecido, mas quando voltarem, fiquem abertos para se inspirarem nessa proposta de planejamento que apresentei a vocês. E o mais importante: vamos, todos juntos, fazer a BNCC acontecer e transformar para melhor a Educação em sala de aula.

Um grande abraço e até o próximo texto aqui na Coluna de Alfabetização,

Mara Mansani

Mara Mansani é professora há quase 30 anos, lecionou em vários segmentos, da Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental, passando também pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2006, teve dois projetos de Educação Ambiental para o Ensino Básico publicados pela ONG WWF, no livro “Muda o Mundo, Raimundo”. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, na área de Alfabetização, com o projeto Escrevendo com Lengalenga.



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