Ideias que jogam contra o ensino

Criança pobre não aprende. Meninos são melhores em Matemática. A repetência sempre melhora o desempenho... Recorrentes na escola e sem embasamento científico, essas ideias raramente são questionadas na escola como deveriam

POR:
Elisângela Fernandes

Ilustração: Guazzelli

Na Antiguidade, os gregos criaram os mitos para explicar o inexplicável, como os fenômenos da natureza. Raios e trovões, por exemplo, eram mandados por Zeus, o deus do céu. Ainda hoje existem mitos, muitos deles não por falta de explicações científicas, mas pelo desconhecimento sobre elas. No mundo da Educação, isso é recorrente e conceitos equivocados e sem comprovação são difundidos e reforçados para justificar algumas práticas.

Um dos principais é o de que criança pobre não aprende, surgido em resposta à universalização do ensino no Brasil - a chegada à escola das camadas mais pobres da população, até então privadas desse direito. Sem acesso à leitura, à informação e a manifestações artísticas no meio familiar, o capital cultural, nas palavras de Pierre Bourdieu (1930-2002), grande parte desses alunos é condenada ao fracasso escolar. De fato, esse repertório facilita a aprendizagem, mas não é determinante para o destino deles.

Em pleno século 21, não é mais possível crer que o pouco acesso a bens culturais, a pobreza e a falta de participação dos pais na vida escolar dos filhos sejam decisivos para a não-aprendizagem - e levem à reprovação. "Se as crianças vivem em condições mais duras, cabe justamente à escola compensar esse problema", diz Maria do Pilar Lacerda Almeida e Silva, secretária de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC). A ciência mostra que todos podem aprender. Ao longo do século 20, muitas pesquisas foram feitas para entender melhor o desenvolvimento da inteligência, a forma como a criança aprende e os meios de potencializar o trabalho em classe.

O desconhecimento sobre os resultados desses estudos também alimenta os mitos que povoam nossas escolas. A importância da interação em sala de aula, por exemplo, que coloca o aluno como protagonista no processo de aprendizagem, ainda está distante da realidade.

Os saberes disponíveis hoje podem ajudar você, educador, a enfrentar problemas como a repetência e a indisciplina. "Precisamos desenvolver práticas pedagógicas que permitam ensinar todos. Afinal, aprender é um direito constitucional. Não se trata de fazer mais do mesmo, mas oferecer um ensino diferente. Os alunos agora são outros", diz José Francisco Soares, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

NOVA ESCOLA listou 15 mitos da Educação e ouviu especialistas para ajudar você a entender por que cada um deles não se sustenta e os motivos pelos quais é necessário derrubá-los. Essa reflexão pode contribuir para eliminar falsos obstáculos na sua prática e oferecer um ensino diferente e, com certeza, melhor.

Reportagem sugerida por 6 leitoras: Anail Gonçalves, São Paulo, SP, Maria Leda Torres, Caruaru, PE, Milena dos Santos Souza, Feira de Santana, BA, Natália de Luca, São Paulo, SP, Rejane Maria Oliveira Monteiro, Ananindeua, PA, e Valdileide Macedo Moreira, Boa Vista do Gurupi, MA

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