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Em vez de preconceito, conhecimento

Com motivações diferentes mas metodologias semelhantes, dois projetos levam crianças a conhecer, respeitar e apreciar a cultura japonesa

POR:
Denise Pellegrini

Traje típico: vestidas de quimono, as meninas fazem seus leques com Elzani. Foto: Marcelo Min

Camila é esperta e extrovertida. Quando estava na pré-escola, no ano passado, sempre terminava suas atividades mais cedo e corria para ajudar os colegas. Apesar do companheirismo, era discriminada pelas outras crianças. Diziam que ela estava sempre dormindo, por causa de seus olhinhos puxados. Na sala ao lado estudava Nicholas, também descendente de japoneses. Por ouvir diariamente piadinhas semelhantes, o menino não se relacionava com o restante da classe. Zenilde de Jesus Ferreira e Elzani Monteiro Santos, professoras dos dois na Escola Municipal de Educação Infantil Barão de Mauá, em Peruíbe (SP), se uniram para solucionar o problema comum. "Resolvemos estudar com as turmas a cultura nipônica", relata Zenilde.

As famílias orientais, numerosas no município, mantêm os costumes tradicionais em casa. Quando os filhos chegam à escola não encontram ali nada parecido. "Esses garotos precisam se sentir inseridos e os demais, aprender a conhecer a diversidade cultural à nossa volta", explica Zenilde. "Valorizar a cultura de um povo é uma boa saída para integrar seus descendentes num grupo", avalia Orly Zucatto Mantovani de Assis, professora do departamento de Psicologia Educacional da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

É na sala, de acordo com o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, que a criança tem a chance de ampliar as experiências que traz de casa. Também é lá que ela entra em contato com costumes, hábitos e expressões culturais diferentes dos seus. Para proporcionar essa oportunidade às duas turmas, as educadoras criaram o projeto Viagem ao Japão para Conhecê-lo Melhor. Durante 45 dias, enquanto buscavam um meio de fazer Camila e Nicholas serem aceitos pelo grupo, as professoras ainda resolveram outras duas questões: a freqüência irregular e o afastamento dos pais.

As atividades que começaram a propor se tornaram tão interessantes que ninguém mais queria faltar. "Minha estratégia não falhava. No final da atividade, eu dizia quais eram os planos para o dia seguinte. Isso é estimulante", conta Zenilde. Os pais, por sua vez, começaram a procurar as educadoras para compreender o interesse de seus filhos e até perguntar palavras em japonês.

No plano didático, o objetivo da dupla era levar a garotada a conhecer outra região do mundo, muito diferente de onde vivem, para ampliar seu conhecimento. Sim, ampliar porque os alunos já sabiam coisas sobre o país a ser estudado. "Eles diziam que os habitantes eram pequenos, tinham os olhos puxadinhos, os cabelos lisos e falavam enrolado", conta Zenilde. Mas queriam saber mais: por que esse povo tinha vindo para o Brasil? Quais suas comidas preferidas?

De que maneira descobrir isso? Pesquisando. Como Camila e Nicholas eram os que tinham mais informações, os colegas logo começaram a valorizá-los. Estava aberto o caminho para a inserção dos dois nas turmas. A partir desse momento, foram desenvolvidas diversas atividades em que a cultura oriental foi explorada.

Foto: Marcelo Min
Camila e Nicholas, entre Zenilde e Elzani: a discriminação sofrida pelos dois orientais inspirou a criação de projeto sobre o Japão

Síntese do trabalho

Tema: Respeito a diferentes povos e culturas

Objetivo: Levar as crianças a conhecer e valorizar diversos aspectos de outras culturas, no caso a japonesa, para evitar a discriminação de descendentes desse povo e ampliar o conhecimento que a turma tem de mundo

Como chegar lá: Faça um levantamento sobre o que os alunos já sabem a respeito do país e o que eles querem saber. Ofereça fontes de pesquisa diversificadas e proponha atividades que envolvam a literatura, a geografia, a música e a arte do país. Decore a sala com objetos típicos feitos pelo grupo e com cartazes contendo o alfabeto, os números e as expressões utilizadas no dia-a-dia, como os cumprimentos

Dica: Peça ajuda de alguém que conheça a cultura do país para esclarecer as dúvidas do grupo e ensinar a pronúncia das palavras

Segunda edição

Neste ano, Nicholas e Camila estão cursando a 1ª série e cada uma das professoras trabalhando em unidades diferentes. Elzani agora leciona na Escola de Educação Infantil Jardim Caraminguava. Lá ela deu continuidade aos estudos sobre o Japão. A motivação para o projeto, no entanto, foi diferente. Entre seus alunos, de 4 e 5 anos, não há descendentes de orientais. A criançada escolheu o país como tema de suas atividades embalada pela curiosidade despertada pela Copa do Mundo.

O campeonato de futebol, aliás, era o tema de um projeto que envolveu todas as turmas. "Estudar um outro país devido ao interesse provocado pela Copa é igualmente válido", reforça Orly, da Unicamp. "Mesmo que não haja necessidade de integração, a professora vai levar a turma a descobrir informações sobre outros lugares e ampliar horizontes."

Esse segundo projeto durou 60 dias e teve como objetivo principal estabelecer relações entre o modo de vida dos brasileiros e o de um outro grupo. "Queria despertar o contato deles com diferentes sociedades e culturas, estimulá-los a confrontar idéias, a formular perguntas, a buscar respostas e manifestar suas opiniões sobre os acontecimentos", define Elzani. As atividades propostas, que estão retratadas nas fotos desta reportagem, foram praticamente as mesmas realizadas no ano passado.

Quando ela perguntou o que a turma sabia sobre o Japão, novamente foi citada a aparência dos habitantes. Também foram lembrados a bandeira, as artes marciais e os palitinhos usados como talher. Igualmente curiosos, os alunos queriam saber como era o vestuário, a alimentação e a moradia. Para chegar às respostas, a educadora avisou: era preciso pesquisar.

Elzani já tinha um amplo material de consulta, reunido no ano anterior juntamente com Zenilde. Eram vídeos, CDs, livros, enciclopédias, revistas, jornais, mapas, fotos, postais, pôsteres, objetos típicos e mapas. De acordo com a professora Orly, é decisão acertada fornecer várias fontes de pesquisa. "Embora não saibam ler, as crianças podem pedir que os adultos leiam. As pessoas não precisam ser alfabetizadas para entender o significado social da leitura. Elas sabem que naquele espaço gráfico existem as informações de que necessitam", diz.

Logo que começaram as pesquisas, os meninos e as meninas localizaram o país no mapa e depois no globo terrestre. Conheceram um pouco da escrita oriental, a arquitetura, as moradias e vestimentas, os transportes, a arte e a alimentação. Escutaram música nipônica e até dançaram! Ouvindo poemas, lendas e contos tradicionais, entraram em contato com a literatura.

Nessa hora foram desenvolvidas a linguagem oral e a escrita. Todos contavam aos colegas, de memória, os trechos de que mais tinham gostado. Depois retratavam em desenho os personagens preferidos e escreviam, do seu jeito, o nome de cada um. "O registro das histórias, por meio do desenho e da escrita espontânea, que é a utilizada pela criança para manifestar seus pensamentos, deve ser incentivado. É assim que ela vai aprender a escrever", esclarece Orly.

Decoração

Para dar ao ambiente uma aura oriental, foram construídos vários elementos típicos daquela cultura, como pequenos samurais de sucata e leques, que decoraram a sala. Muitas das informações pesquisadas se transformaram em cartazes, produzidos por Elzani, contendo o alfabeto, os algarismos, as cores, as partes do corpo e várias expressões em japonês. "Todo dia eu lia os cartazes em voz alta e todo mundo se divertia muito." Logo, segundo a professora, a meninada foi assimilando palavras como "sayonará" (até logo), "arigatô" (obrigado) ou "coninchuawa" (boa tarde).

Surge a tulipa O origami é a milenar arte oriental da dobradura. De uma folha de papel, surgem animais, objetos, figuras humanas ou flores, como a tulipa, que a professora Elzani ensinou seus alunos a produzir. Acompanhe o passo-a-passo acima e aprenda a fazê-la você também. Entregue a florzinha pronta às crianças e um quadradinho de papel. O ideal é que elas descubram sozinhas como a tulipa é formada. Foto: Marcelo Min

A turminha aprendeu também a fazer origamis, como os de tulipa, bastante simples (veja o passo-a-passo nas imagens). Sobre essa atividade, Orly faz uma sugestão. Melhor do que pedir que as crianças reproduzam cada dobra feita pela professora é estimular que descubram sozinhas como a flor é feita. "É interessante entregar a elas uma dobradura pronta e colada e outra, que podem desdobrar. Assim, desenvolvem o raciocínio espacial."

Com a exposição dos trabalhos e uma merenda especial, um deliciosos yakissoba servido com os hashis para toda a escola, o projeto foi encerrado. Na avaliação de Elzani, os progressos apresentados pelas crianças foram vários. "Além de conhecer semelhanças e diferenças entre as culturas, elas se tornaram mais curiosas em relação a outros locais, aprenderam a formular perguntas e a pesquisar."

Foto: Marcelo Min
Literatura: antigas lendas japonesas foram lidas para a turma, que depois registrou em desenhos as passagens preferidas
Foto: Marcelo Min
Fontes de pesquisa diversificadas: no primeiro contato com o mapa-múndi, a garotada aprendeu a localizar o país estudado
Foto: Marcelo Min
O pequeno samurai: com sucata, as crianças construíram o personagem principal de uma história contada pela professora
Foto: Marcelo Min
Em vez de talheres, hashis: para encerrar o projeto, a escola ofereceu a todos os alunos uma merenda especial, o típico yakissoba

Quer saber mais?

CONTATOS
Escola Municipal de Educação Infantil Barão de Mauá
, Av. São João, 253, CEP 11750-000, Peruíbe, SP, tel. (013) 3445-0215
Escola Municipal de Educação Infantil Jardim Caraminguava, R. L, 427, CEP 11750-000, Peruíbe, SP, tel. (013) 3453-4745  

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