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Reportagem e coluna | Formação


Por: Laís Semis

Remexa nas memórias de infância

Estimular professores a relembrar as trajetórias pessoais deles pode melhorar a prática pedagógica e a relação na equipe

Fotos trazidas pelos próprios professores mostram sua relação com os tempos de escola.
Fotos e outros objetos serviram de base para que as educadoras pensassem sobre o próprio trabalho. Foto Roosevelt Cássio

Quais as cantigas de roda que os docentes de sua escola mais gostavam quando criança? Ou qual a melhor memória que eles têm de um professor nessa mesma época? Para os que têm
filhos, será que eles recordam a sensação que tiveram ao levar seus pequenos para o primeiro dia na Educação Infantil? Como eles escolheram a profissão docente? Estimular os professores a revirar a própria história pode ser uma boa maneira de valorizar o trabalho que realizam e levá-los a repensar sobre a prática pedagógica.

Na EMEIPI Profª Márcia Aparecida Faria, em Caçapava (SP), o elemento disparador de uma série de reflexões foi o média-metragem Dentro da Caixinha, dirigido por Guilherme Reis. “O filme traz a história de três idosos que relembram as cantigas de infância, então pensei que isso poderia instigar a equipe a também fazer uma viagem no tempo”, conta a orientadora pedagógica Karine Rezende. Ela usou a obra para iniciar um trabalho feito em seis encontros dentro dos horários reservados para a formação em serviço. Para não deixar outros temas importantes de lado, o projeto só ocupava meia hora das três semanais dedicadas ao estudo e planejamento coletivo. Em cada reunião, um trecho do filme era exibido para disparar as discussões. O objetivo de Karine era alinhar a possibilidade de ampliar o repertório de cantigas, um pedido da equipe, com a proposta de evidenciar as marcas que professores e escola deixam na trajetória pessoal de cada um.

Professora Ariana está sentada em roda com quatro alunos. Ela segura um violão e canta cantigas para os pequenos.
Ariana apresenta aos pequenos cantigas de sua infância. “Lembrei do sentimento que elas me traziam na época”, diz. Foto Roosevelt Cássio

As cantigas de roda foram tema dos dois primeiros encontros. Depois, cada participante foi convidado a montar uma caixa com suas lembranças. Karine levou suas fotos para inspirar a
equipe: um registro da festa junina em sua primeira escola e outra em companhia de primos, professoras e diretora na Educação Infantil. Isso mobilizou todos a revirar seus baús em busca de memórias físicas. “Quando há envolvimento do formador, o trabalho fica mais coerente, afinal ele também pode mostrar-se como pessoa”, considera Maria Virgínia Gastaldi, formadora de professores de Educação Infantil do Instituto Avisa Lá. A cada reunião, o andamento da conversa levava a equipe a acrescentar itens na caixinha. Além de fotos, foram resgatados cadernos escolares, convites de formatura, histórico escolar e até o telegrama de convocação para assumir cargo de professor.

As marcas que a escola deixa

Coordenadora Pedagógica Karina, sentada de pernas cruzadas, lança um olhar carinhoso para uma das fotos de sua infância que trouxe para compartilhar com os professores.
Para inspirar a equipe a remexer no passado, Karine foi a primeira a mostrar fotos antigas e a montar a própria caixa. Foto Roosevelt Cássio.

“Fiquei um pouco assustada no início da proposta, pensando: ‘Vamos mexer com o nosso passado?’”, relembra a professora Vanusa Aparecida Lemes. Era a primeira vez que ela participava de uma formação que considerava não só o seu lado profissional mas também o pessoal.

“Todo educador mora dentro de uma pessoa. Considerar isso é fundamental no processo de formação”, diz Rosaura Soligo, coordenadora do Instituto Abaporu de Educação e Cultura. Mas, com o pouco tempo, as escolas acabam priorizando os conteúdos de ensino e as metodologias. O fortalecimento das duas facetas do professor melhora a consciência em relação ao impacto das ações e emoções dele no ambiente de trabalho.

Relembrar o próprio período escolar pode ajudar na relação com o outro. “Para muitas crianças, a creche é o primeiro contato fora da família. É uma fase de grande impacto na vida delas”, diz Karine. E não só para os pequenos. Até estabelecer confiança, os responsáveis também se sentem inseguros. Afinal, os filhos, nessa faixa etária, não têm como se defender ou se queixar e estão nas mãos de estranhos. “Queria que as docentes se sensibilizassem sobre a importância de ter uma boa relação com as famílias e sua influência nas memórias afetivas dos bebês”, diz a orientadora.

Para atacar esses pontos, durante a formação, as docentes levantaram os marcos positivos e negativos em seus próprios percursos escolares, o papel dessas experiências na escolha da profissão e a trajetória do magistério até a efetivação na atual escola. “Fazer o profissional olhar para si mesmo e relembrar o que foi significativo na sua história facilita entender o comportamento das crianças e humaniza as relações”, pontua Rosaura.

O resultado foi aprovado. “Vivemos muito o hoje. Foi importante voltar ao passado e pensar nos erros e acertos, porque olhei para eles numa perspectiva de aprendizagem”, diz Vanusa. “Depois das reuniões, ficou claro ser preciso prestar atenção até mesmo nas pequenas ações como educadora, porque elas ficam para o resto da vida”, diz a professora Ariana Lima. Foi o que fez Vanusa. “Estava com um bebê difícil de lidar e tendia a deixá-lo um pouco de lado. Mas mudei meu comportamento, fui conhecer mais dele e me aproximei da família”, conta. “Aprendi a valorizar a bagagem que cada criança tem.”

Nesse processo, é essencial garantir que o conhecimento adquirido impacte também os alunos. O trabalho de Karine, além de melhorar as relações entre os membros da equipe, gerou reflexões sobre a prática pedagógica e ampliou o repertório de cantigas regionais.