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Imagens de um mundo em guerra

A força da mídia e as fotografias que chegam pelas redes ajudam a entender os conflitos armados com a turma

POR:
Lucas Magalhães, Maggi Krause e Renan Simão

Ochoque ou a comoção nos atingem em cheio pelas redes sociais. Imagens, vídeos e textos correm o mundo em horas, impactam e mobilizam as pessoas. Essa forma de se comunicar transformou nossa impressão sobre as guerras - e isso pode ser usado nas aulas. "Há múltiplas informações na internet, o problema é que são fragmentadas", afirma o geógrafo Nelson Bacic Olic, professor de Ensino Fundamental e Médio e coautor do livro Conflitos no Mundo: um Panorama das Guerras Atuais. A função do professor passa a ser contextualizar a mídia para que ela ajude o aluno a visualizar a geopolítica, que nada mais é do que a "história do presente", como define Nelson. Para além de drones e armas sofisticadas, vale mostrar aos estudantes que a maioria dos conflitos no mundo hoje são internos, mas motivados por interesses globais. Há poucos combates unilaterais entre nações, como era comum no século 20.

SÍRIA

Situação: em seis anos de conflitos internos e presença do grupo extremista Estado Islâmico, meio milhão de pessoas morreram e 7 milhões migraram.

Com a turma: remonte a ascensão ideológica do Estado Islâmico por meio dos conflitos no Iraque.

Contexto da foto: defesa civil e habitantes procuram sobreviventes de um ataque aéreo na cidade de Saqba, em abril deste ano.

 

 

Segundo o Relatório de Guerra lançado neste ano pela Academia de Genebra de Direito Internacional Humanitário e Direitos Humanos, na Suíça, há pelo menos 49 conflitos armados no mundo (veja alguns nesta página). Trinta e seis deles são "não internacionais", o que inclui conflitos entre grupos locais (como os presentes no Iêmen, Síria, Iraque, Nigéria e Sudão do Sul) e por ocupação militar (Israel na Palestina e no Líbano). "Indico trabalhar em aula a ideia de que há mais atores envolvidos em conflitos no mundo do que pensamos", afirma a autora do relatório, Anyssa Bellal. Ela aponta que os exemplos não precisam ser guerras entre países. O conflito do Estado colombiano com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) durou décadas e só saiu do relatório suíço com o acordo de paz no fim de 2016. Até dois anos atrás, o México constava do documento como dominado por ganguesa rmadas. Dá para fazer relações entre o local e o global, e, nesse caso, fica fácil se lembrarmos que a mesma motivação, o narcotráfico, está presente também em cidades brasileiras.

"A guerra é um assunto para ser explorado de forma ativa, com conclusões e soluções a serem propostas", afirma John McLaverty, educador da ONG Oxfam, do Reino Unido, que desenvolveu planos de aula sobre conflitos mundiais (leia em inglês). O foco do professor, segundo o especialista inglês, deve ser o entendimento crítico sobre o que acontece hoje no mundo. O debate sobre xenofobia e violência no entorno da escola, por exemplo, pode servir para aproximar os alunos e engajar professores pouco confiantes em falar de assuntos ainda em curso.

NIGÉRIA

Situação: na região africana em torno do lago Chade, 4,2 milhões de pessoas saíram de suas casas, ameaçadas pela insurgência do grupo radical Boko Haram.

Com a turma: trabalhe as origens do extremismo do Boko Haram e as diferenças de outros grupos radicais, como a Al Qaeda.

Contexto da foto: no noroeste da Nigéria, mulheres e crianças deslocadas de suas casas fazem fila por alimento em um posto do Unicef, em setembro de 2015.

MÉXICO

Situação: em 2016, 34 mil indivíduos foram mortos por conflitos de gangues do narcotráfico, número igual ao do Afeganistão no período.

Com a turma: compare a situação mexicana com o acordo entre a Colômbia e as Farc.

Contexto da foto: queima da maior apreensão de maconha feita no país: 40 toneladas, em maio de 2014.

TURQUIA

Situação: os separatistas do partido dos trabalhadores do Curdistão (PKK) lutam contra o Estado turco. Em 2016, após uma tentativa de golpe e do cessar-fogo, 500 mil pessoas se deslocaram e 2 mil morreram.

Com a turma: peça para um grupo pesquisar a motivação dos separatistas. O outro, a situação política e econômica da Turquia.

Contexto da foto: telão exibe a imagem do presidente Recep Erdogan após tentativa de golpe, em julho de 2016.

 

Os conflitos e o discurso político

Ataques do Estado Islâmico e a onda de migrações influenciam as políticas internas mundo afora. Não foram casuais as eleições de líderes conservadores nos Estados Unidos e no Reino Unido, além do crescimento de partidos de extrema direita na Europa. "Os preconceitos contra os imigrantes e os posicionamentos políticos se reproduzem, de algum modo, aqui no Brasil", aponta Douglas Santos, autor da série de livros didáticos Geografia das Redes. Há pontos em comum entre a marcha contra a lei de migração brasileira promovida pelo grupo Direita São Paulo na Avenida Paulista, em maio deste ano, e a presença da França na guerra da Síria. "Quando os discursos se tornam dominantes, eles são justificadores de ações", aponta Douglas. Ou seja, se há líderes políticos defendendo ideias contra estrangeiros, práticas intolerantes parecem mais legítimas.

Se você acha que o assunto ficou complexo demais, volte à linguagem que os alunos mais conhecem: a imagem. Podem ser fotos em redes sociais, vídeos do YouTube, filmes, charges. "Com esse material, eles conseguem enxergar a situação e ficam curiosos", diz Marcelo Ribeiro de Carvalho, professor e autor da área de Geografia. É preciso orientar a turma a citar as fontes e entender qual a origem da notícia. Indicar mídias alternativas é a sugestão de Antonio Almeida, coordenador do Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos da USP. Ele lembra que as versões dos fatos divulgados por veículos norte-americanos nem sempre são confiáveis. Na invasão do Iraque, por exemplo, informações falsas foram usadas para justificar os ataques. "Um professor bem informado oferece novas possibilidades de pensamento para os alunos", observa.


FOTOS: STEFAN HEUNIS (ÁFRICA), ALONSO ROCHIN (MÉXICO), CHRIS MCGRATH(TURQUIA), AMER ALMOHIBANY(SÍRIA)/ AFP/GETTY IMAGES