Preguiça é coisa do passado (relato do Caminhos do Brasil)

POR:
Arthur Guimarães

 

De vermelho, a coordenadora Gislaine planeja as aulas de Geografia com os professores Marta e Fernando. Foto: Arthur Guimarães
De vermelho, a coordenadora Gislaine planeja as aulas de Geografia com os professores Marta e Fernando

Ninguém poderia imaginar que gente tão ligeira fosse andar na mesma terra em que, um dia, já pisou a preguiça gigante. Aqui, em Iraquara (BA), na Chapada Diamantina, área que há 11 mil anos foi o habitat desse mamífero herbívoro pré-histórico, a postura dos professores e funcionários da secretaria de educação não tem nada de vagarosa. Pelo contrário. Todo o processo de formação continuada é gerido de forma dinâmica, começando pelo governo e indo até a sala de aula.

Como outras 25 cidades da região, o município é parceiro do Instituto Chapada, entidade que com atua no treinamento de coordenadores, supervisores e diretores pedagógicos - e não diretamente dos professores. A lógica do projeto é a de que, capacitando a equipe técnica, cada prefeitura pode organizar sozinha sua formação continuada internamente, sem precisar de ajuda externa todo o tempo. Nesse sistema, após qualificados (mas sem deixar de se aperfeiçoar), os coordenadores passam a orientar semanalmente os educadores, além de fazer um acompanhamento crítico da postura didática em visitas às classes. Também são organizados grupos de estudo para discutir periodicamente, em conjunto com outros educadores das mesmas séries, os temas mais delicados e de maior dificuldade. Iraquara está trabalhando dentro do modelo há oito anos.

Empenho é tudo
A teoria é linda, mas nada funcionaria sem o empenho que percebi hoje, quando visitei a Escola Rural Rui Barbosa, distante 26 quilômetros do centro, em uma estrada de terra esburacada que, talvez, nem a preguiça gigante com seus seis metros conseguiria atravessar. O terreno irregular, pelo menos, me deu tempo para conversar com a secretária de educação da cidade, Cláudia Rocha, que pegou uma carona comigo. E foi nessa conversa que comecei a perceber o motivo de toda a formação estar dando frutos aqui.

Além dos investimentos, há certos aspectos que passam despercebidos por gestores públicos, mas que fazem toda a diferença na hora de calcular os resultados. São coisas simples, quase banais. Por exemplo, o transporte dos coordenadores pedagógicos. "Não adianta montar um programa de formação se o principal parceiro do professor não consegue chegar até a escola", contava. Foi para evitar faltas abusivas ou descontinuidade nos treinamentos, que o governo passou a alugar táxis para fazer todo esse leva e traz.

Outra ação que mostra que não há preguiça para alcançar a melhor qualificação docente foi a aquisição de uma máquina de cópias. "São quase 15 mil páginas por mês. É a mesma coisa, não adianta falar que vai dar estudo aos professores, se não dá para fazer uma apostila de textos teóricos", conta a titular da pasta de Educação.

Sempre para cima
Chegando à escola, nova surpresa. Por sorte, consegui acompanhar a reunião de planejamento dos professores de Geografia do Ensino Fundamental II da unidade. É exatamente nesse momento que todo o investimento da cidade na formação vira uma ação concreta. É o professor com suas dúvidas, ouvindo um superior capacitado para ajudar. A conversa poderia ser superficial, sem grandes discussões, mas não foi assim.

A coordenadora era Gislaine Brandão. Mostrando que não há espaço para comodismo, ela foi logo fazendo uma pergunta direta: "quais são os recursos didáticos tecnológicos que a escola tem? Quais já foram usados por vocês e para quê?". A provocação, feita de forma pensada, colocou os professores conta a parede. "Temos televisão, vídeo, retroprojetor, mas não usamos tanto", respondeu o educador José Fernando Santos. Foi a deixa perfeita para, com cuidado, a coordenadora começar uma espécie de oficina sobre como enriquecer as aulas com táticas diferenciadas.

Marta Silva, a outra professora, escutou atentamente aos ensinamentos de Gislaine, que falou da importância de usar figuras, fotografias e vídeos com os estudantes. "É muito comum usar o retroprojetor para colocar textos. Mas leitura não é só isso, precisamos mostrar mapas, ilustrações, tudo isso é importante para ensinar conceitos como, por exemplo, paisagem", argumentava.

DVD rural
Mais tarde, sempre colocando os docentes para cima, a coordenadora falou da importância de usar inclusive o aparelho de DVD da unidade, que parecia meio encostado. "Trabalhar Guerra Fria com algum título do cinema é muito bom para os alunos", dizia. Diante do ar espantado dos "pupilos", ambos educadores de uma área rural carente, ela logo deu mais uma dica, que nada tem a ver com a preguiça, muito menos a gigante. "Se precisarem, eu alugo na cidade e trago. O importante é diversificar as aulas", ensinou.

Para os dois professores, ficou a tarefa de casa de montar sozinhos uma seqüência didática que usasse os recursos tecnológicos para ensinar os atuais temas curriculares. Para mim, ficou uma essencial lição. Não basta dinheiro para gerir um programa de formação de qualidade. É preciso também criatividade e força de vontade.

Hoje fiz meu último relato sobre formação. Na segunda, já dentro de outro tema do Caminhos do Brasil, visito em Salvador uma escola que tem pequenos laboratórios de Ciências em cada sala de aula. Até lá.

Compartilhe este conteúdo:

Tags

Guias