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Uma odisseia no espaço

A turma fez da classe um universo repleto de foguetes e conhecimento

POR:
Daniele Pechi

Com a ajuda dos pais, cada criança construiu uma nave supersônica com material reciclado.
Foto: Arquivo pessoal/Fernanda Ferreira de Oliveira. Ilustração Melissa Lagoa

Aos poucos, a classe foi se transformando... Em vez de teto e paredes, um céu cheio de planetas e estrelas. Garrafas e copinhos plásticos viraram foguetes supersônicos. Brincadeiras cotidianas se uniram a investigações científicas. E, onde havia crianças, surgiram astronautas prontos para uma nova aventura. Tudo isso aconteceu na sala de pré-escola da EM Antônio Boldrin, em Piracicaba, a 158 quilômetros de São Paulo.

Valorizar o faz de conta e a forma própria das crianças pensarem foi o foco do projeto de Fernanda Ferreira de Oliveira com a turma de 4 e 5 anos. Durante quatro meses, a sala imitou o espaço sideral, cheio de desenhos e colagens feitos pela meninada. "Notei o interesse pela temática nos momentos de brincadeira dos pequenos, em que ingressavam em guerras intergalácticas e lançavam foguetes no pátio", conta.

Com base nessa observação inicial, a educadora decidiu enriquecer as brincadeiras da turma. A classe foi organizada para deixar tecidos e caixas de vários tamanhos ao alcance de todos. Havia ali também papel, canetinha, livros e revistas. Enquanto um grupo pegava um caixote de papelão e o transformava em um foguete, outro procurava panos para montar roupas de astronauta. "É muito importante reconhecer as crianças pequenas como criadoras da cultura. Elaborar projetos com base nas brincadeiras delas exige um olhar atento e investigativo do professor. Ele precisa conduzir um processo mais dirigido, porém, de uma forma muito respeitosa com a turma", explica Virginia Gastaldi, formadora de professores do Instituto Avisa Lá.

Tendo essa orientação em mente, Fernanda propôs que os pequenos fizessem desenhos das naves espaciais que imaginavam. Foi assim que começaram a colocar as invenções no papel e a explorar diferentes formas, linhas, proporções, profundidades e planos em suas produções.

Para aprofundar o conhecimento da meninada sobre o tema, a professora pediu que investigassem algumas informações em livros e revistas que selecionou previamente e levou para a sala. A cada foguete encontrado, os pequenos recorriam a ela para que lesse o que estava escrito nos textos que acompanhavam as imagens.

Além do trabalho feito em classe, a docente pediu que perguntassem aos pais o que sabiam sobre o assunto e trouxessem as descobertas escritas em bilhetes que foram lidos coletivamente. "Envolver os familiares e incentivar a investigação científica e estética são atitudes que enriquecem ainda mais a produção infantil e contribuem para a ampliação da visão de mundo da turma", explica Gandhy Aires, artista plástico e pesquisador das práticas da criança em comunidades tradicionais. Por meio da pesquisa realizada, todos ficaram sabendo como o foguete sobe, o que faz com que ele pare no ar e qual é a alimentação de quem viaja pelo espaço. Os pequenos descobriram também que existem astronautas brasileiros e que o homem já chegou à Lua.

A professora propôs, também, que usassem o que aprenderam para transformar a sala em um pedaço do espaço sideral. O ambiente foi, ao poucos, se tornando um pequeno centro de investigação sobre foguetes. As crianças começaram desenhando não só no papel mas também nas paredes. Pintaram planetas e linhas imaginárias do sistema solar, recortaram imagens de foguete e penduraram nos armários.

"Criar oportunidades de exploração de recursos plásticos é uma ação que deve ser mais incentivada na Educação Infantil. Ao conhecer diferentes abordagens sobre um mesmo assunto, as crianças ganham autonomia e mais subsídio para trabalhos e discussões em grupo", explica Denise Tonello, orientadora educacional da Educação Infantil do Colégio Miguel de Cervantes, em São Paulo. Durante todo o processo, livros e revistas sobre o assunto permaneceram na biblioteca da sala, acessíveis às crianças.

 

Buscar referências e ampliar saberes

A parede da sala se transformou em um céu estrelado, cheio de foguetes e astronautas.
Foto: Arquivo pessoal/Fernanda Ferreira de Oliveira. Ilustração Melissa Lagoa

Para enriquecer ainda mais as discussões, a professora apresentou a imagem do Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC) - projeto do arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012) inspirado em um disco voador - e relacionou arte e ciência. As crianças, então, compararam coletivamente os desenhos dos colegas com as imagens vistas nos livros. Elas discutiram sobre a função dos botões das naves e falaram das cores e do brilho delas. "Percebi que eles tinham descoberto muitas coisas e passaram a ter preocupações científicas e tecnológicas, como a função do painel de controle e o local que seria reservado para o combustível", conta Fernanda.

Com tanto aprendizado, a meninada já estava quase pronta para construir o próprio foguete, mas a professora quis instigar ainda mais a imaginação. Havia, na biblioteca de sala, um exemplar do livro Como Pegar uma Estrela, de Oliver Jeffers (32 págs., Ed. Salamandra, tel. 0800-172- 002, 39 reais). A educadora reuniu os pequenos para uma leitura em voz alta, deixando, em seguida, que manuseassem a obra. O livro conta a história de um menino que almeja voar até a Lua e buscar uma estrela com uma nave espacial. Ao longo das páginas, o garotinho cria diferentes estratégias para alcançar seu objetivo e a história termina de forma inusitada e poética. "É interessante oferecer recursos variados para que as crianças continuem aprendendo sobre o tema escolhido. A música e a literatura ajudam-nas a formar novas imagens mentais. Mas as atividades devem sempre respeitar e valorizar o que elas sabem", explica Virgínia.

Para finalizar o trabalho, os pequenos foram desafiados a buscar estrelas, como fez o personagem. Fernanda explicou que, para tanto, cada um tinha de construir um foguete em casa, com a ajuda dos pais. A professora pediu sugestões à turma sobre quais materiais usar e o que priorizar na hora de criar as naves. "Ouvi todas as ideias e juntos concluímos que poderíamos produzir foguetes reaproveitando materiais que todos tinham em casa", explica. A educadora colocou no papel a proposta, explicando às famílias que teriam duas semanas para elaborar a tarefa e enfatizando os combinados feitos em sala. "Elaborei um bilhete que incluía as principais regras da atividade: a participação efetiva das crianças, a colaboração dos adultos e o uso dos materiais escolhidos por eles", afirma.

Depois de algumas semanas, todos trouxeram para a escola seus foguetes. As produções foram reunidas na classe e cada um pode contar aos colegas como construiu sua nave, que material usou, como ela funciona, quem ajudou na produção e quanto tempo levou a empreitada. Um a um, os pequenos expuseram suas obras e mostraram o que aprenderam. A roda foi um treino para a semana cultural anual da escola, em que as crianças puderam explicar a meninos e meninas de outras turmas e convidados como criaram naves realmente capazes de viajar pelo espaço, chegar até a Lua e pegar estrelas. Ao menos dentro do mundo do faz de conta.

Passo a passo

1. Escolha do tema

Observe as brincadeiras das crianças, identifique assuntos que as encantam (foguetes, por exemplo) e aproveite-os em sala.

2. Ampliação de saberes

Disponibilize diferentes materiais de pesquisa, caixas, tecidos e brinquedos voltados ao tema escolhido. Instigue a turma a investigar mais e mais.

3. Produção em sala

Proponha que a turma transforme o ambiente da sala. Sugira que desenhem, pintem e organizem o espaço, usando a imaginação.

4. Participação dos pais

Estabeleça uma atividade que as crianças realizem em casa, com os pais, baseada nas descobertas de sala. Construir um foguete é uma das opções.

5. Socializar o aprendizado

Peça que os pequenos apresentem os  trabalhos feitos aos colegas. Organize o momento de modo que todos possam compartilhar o que aprenderam.