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Jornalismo

Nosso olhar sobre a expansão da cidade

Ao pesquisar o bairro, a garotada entende o processo de urbanização do país

PorDaniele Pechi

01/12/2014

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Em entrevistas, habitantes de um bairro de São Paulo comentaram problemas relacionados ao crescimento desordenado, como a ocupação irregular das margens de uma represa. Lia Lubambo Em entrevistas, habitantes de um bairro de São Paulo comentaram problemas relacionados ao crescimento desordenado, como a ocupação irregular das margens de uma represa A garotada registrou os problemas e demandas de vizinhos e familiares em um documentário. Lia Lubambo A garotada registrou os problemas e demandas de vizinhos e familiares em um documentário O grupo de Marcela da Silva, 12 anos, sugeriu a instalação de caçambas para o lixo, que hoje se acumula na rua. Lia Lubambo O grupo de Marcela da Silva, 12 anos, sugeriu a instalação de caçambas para o lixo, que hoje se acumula na rua

O bairro onde moramos dá informações sobre a organização de uma cidade, o que ajuda a compreender fenômenos locais e comparar as características do entorno com o resto do município. Sabendo disso, o professor Carlos Alberto Amorim planejou um trabalho com o 8º ano sobre a urbanização de São Paulo tomando como ponto de partida o distrito do Grajaú, onde se localiza a EMEF Padre José Pegoraro. "Percebi que a classe tinha certa dificuldade de entender esse processo levando em conta uma visão macro. Com base na investigação, aproximamos o conteúdo do cotidiano."

Para apoiar o debate, o docente apresentou músicas que falam sobre a metrópole: Sampa, de Caetano Veloso, Lá Vou Eu, de Rita Lee, Pânico em SP, de Clemente Nascimento, São Paulo, São Paulo, de Oswaldo, Biafra, Claus, Marcelo e Wa, Saudosa Maloca, de Adoniran Barbosa (1910-1982) e Cidade Cinza, de Wally. Uma reportagem que indicava o bairro como o pior para morar na capital foi exibida, assim como o documentário Grajaú, Onde São Paulo Começa, de João Cláudio de Sena, que foge dos estereótipos associados ao local, como a violência.

Com base nesse repertório e nas discussões que vieram na sequência, os estudantes começaram a entender os motivos que deram ao Grajaú a cara atual. Alguns disseram que ele era cor de laranja, pois os tijolos das construções são visíveis. Outros comentaram que eram "ilegais", já que moravam em casas sem escrituras. A turma descobriu a existência do polo industrial de Santo Amaro - que chegou a ser responsável por 30% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil - e fomentou o crescimento da região na década de 1970. Também soube que a expansão urbana em São Paulo acompanhou o restante do país. Assim, a garotada compreendeu que muitos problemas relacionados à falta de moradia, à poluição da represa Billings e à violência do Grajaú surgiram como parte do crescimento desordenado. "Com base na fala deles, pudemos chegar a conclusões importantes: que a ocupação irregular e o déficit habitacional contribuem para o aumento da população de rua, da favelização e da periferia", conta Amorim.

Na próxima etapa, o professor pediu que todos fotografassem livremente, com seus celulares, elementos da paisagem que chamassem a atenção no trajeto de casa para a escola e vice-versa. As fotos deveriam receber títulos. Os alunos confeccionaram também um mapa com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da capital paulista, com base em uma tabela com dados de todos os distritos da cidade. Foram usadas cores diferentes para identificar os indicadores encontrados. Depois, eles saíram para um passeio de ônibus até uma região nobre, no qual verificaram as desigualdades contidas no mapa. "Propor a observação de elementos do cotidiano, como a diferença no número de hospitais, praças, linhas de ônibus e bibliotecas entre os bairros ajuda a entender as contradições e investigar suas possíveis causas. Num segundo momento, é possível ampliar as comparações com outros municípios ou países, utilizando o Google Earth ou o Street View", explica Valéria Roque, docente da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Na sequência, chegou a hora de eleger um problema e pensar em soluções. Cinco pontos foram levantados: a falta de conscientização sobre a importância de preservar a área de mananciais onde o Grajaú surgiu, o problema de moradia, pois estão ocorrendo invasões de terrenos, a ausência de aparelhos de cultura e lazer, o baixo engajamento dos moradores com a sociedade de amigos do bairro e o pouco conhecimento sobre a história do local. Devido ao grande número de temas possíveis, a garotada decidiu fazer um documentário em vídeo com várias entrevistas.

Para garantir a qualidade técnica do material, Amorim fez parcerias com produtores, que deram oficinas no contraturno. O filme foi produzido e editado pelos alunos. No total, foram envolvidos 80 estudantes, responsáveis pelas mais de 80 horas de gravação, que resultaram em um vídeo de 15 minutos.

Se essa rua falasse

Na EMEF Casarão, na comunidade de Paraisópolis, também na capital paulista, a professora Maria José Ferreira da Costa estava preocupada em desconstruir estereótipos dos estudantes do 6º ano. Muitos achavam que o lugar era ruim para viver, violento, sem opções de lazer e sujo.

Para iniciar, a docente leu em classe o livro Do Outro Lado Tem Segredos (Ana Maria Machado, 88 págs., Ed. Alfaguara, tel. 21/2199-7824, 34,90 reais). Ele trata das descobertas de um garoto, que investiga suas próprias origens com a ajuda dos avós. "O protagonista provocou nas crianças o desejo de produzir seu próprio conhecimento com base nas referências familiares, sociais, étnicas, políticas e culturais delas", afirma Maria José.

Divididos em grupos de seis integrantes, os alunos escolheram um espaço representativo para eles em Paraisópolis. A rua da escola e a quadra, um dos únicos ambientes de recreação, fizeram parte da lista. Depois, a professora propôs uma roda de conversa sobre história oral. "Assim, pude motivá-los a identificar o local como um espaço de pertencimento", diz Maria José. O objetivo era fazer os estudantes valorizarem as memórias que não constam nos registros oficiais e prepará- los para entrevistas com familiares e vizinhos sobre suas origens e relações com o lugar. Muitos tinham vindo de outras regiões do país em busca de uma vida melhor e tiveram de morar ali porque o custo era mais baixo.

Entre as sugestões de melhoria apresentadas pelo grupo que estudou a rua estavam o alinhamento das calçadas, a canalização do esgoto e a instalação de caçambas de lixo. Os trabalhos finais foram apresentados aos colegas. "Fazer a turma reconhecer a periferia como espaço importante da cidade é fundamental", diz Simone Scifoni, da Universidade de São Paulo (USP).

1 Investigação da realidade Selecione materiais sobre o bairro e apresente à turma. Convide-a a fotografar o entorno e coletar informações com moradores sobre as questões que afetam a região em que vivem.

2 Conceituação dos problemas Discuta os dados encontrados, atrelando-os ao processo de urbanização do país, que nem sempre ocorre de forma ordenada e traz problemas diversos.

3 Formulação de propostas Sugira que a turma elabore sugestões de melhoria para os problemas identificados, baseando-se nas entrevistas e em suas próprias percepções.

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