Gravura com azulejo, isopor ou papelão

Aprendizado das técnicas de impressão gera repertório importante para a classe

POR:
Elisângela Fernandes
Na frotagem, a textura de um objeto é obtida com a fricção do giz de cera no sulfite. Arquivo pessoal/Cecília Luiza Etzberger Na frotagem, a textura de um objeto é obtida com a fricção do giz de cera no sulfite No azulejo cheio de tinta, os desenhos são feitos com um lápis na técnica de monotipia. Arquivo pessoal/Cecília Luiza Etzberger No azulejo cheio de tinta, os desenhos são feitos com um lápis na técnica de monotipia Solas de sapatos, mãos e pés recebem o guache e carimbam o painel coletivo no papel pardo. Arquivo pessoal/Cecília Luiza Etzberger Solas de sapatos, mãos e pés recebem o guache e carimbam o painel coletivo no papel pardo A matriz de isopor é gravada como na xilografia e os sulcos geram a impressão. Arquivo pessoal/Cecília Luiza Etzberger A matriz de isopor é gravada como na xilografia e os sulcos geram a impressão As imagens são recortadas no papelão, coladas em uma folha e pintadas para imprimir. Arquivo pessoal/Cecília Luiza Etzberger As imagens são recortadas no papelão, coladas em uma folha e pintadas para imprimir Os traços do desenho cego são feitos com palitos no papel grudado à área pintada. Arquivo pessoal/Cecília Luiza Etzberger Os traços do desenho cego são feitos com palitos no papel grudado à área pintada

Com papel sulfite e giz de cera, os alunos do 8º ano da EMEF 25 de Julho, em Ivoti, a 55 quilômetros de Porto Alegre, saíram da sala de aula com o objetivo de colocar no papel algumas marcas de superfícies como a parede e o piso da escola. Enquanto cumpriam a tarefa, a professora Cecília Luiza Etzberger recomendava variarem as cores e a força para obter tons mais claros ou escuros. E, assim, com a frotagem, começou o estudo sobre gravuras, que durou um semestre (veja os trabalhos da turma na galeria acima). "Ao conhecer vários procedimentos, os adolescentes criam um repertório de produção e apreciação e podem optar por utilizá-lo ou não em seus processos criativos", comenta o arte-educador José Cavalhero Simon Júnior.

Após a experiência inicial, Cecília apresentou aos jovens a monotipia. Eles passaram o rolo com guache em superfícies lisas, como azulejos, e, depois, desenharam com os dedos sobre a tinta. Então, pressionaram a folha sobre a área pintada e a retiraram. Viram que a cópia trazia a imagem espelhada e que tinham de fazer os traços com isso em mente para obter o resultado desejado.

Para a aula seguinte, todos levaram sapatos e chinelos velhos que tiveram as solas pintadas com guache. Os passos foram carimbados em painéis de papel pardo. Empolgados, muitos usaram os pés e as mãos e a educadora aproveitou para contar que pintar partes do corpo é uma das representações artísticas mais antigas.

Teoria apenas depois da prática

Ao avaliar a sequência, a docente considera que os estudantes se envolveram mais do que em outro ano, quando ela começou apresentando o conceito de gravura. Dessa vez, ela entrou na teoria apenas após três experimentações. Fez isso questionando o que as técnicas testadas tinham em comum. "Alguns citaram os materiais usados. Questionei sobre o que havia sido registrado. Aí, perceberam que nos três casos eles transpuseram uma imagem já existente para o papel", diz.

Ela esclareceu, então, que gravura é uma linguagem visual em que o artista gera impressões com uma matriz. "Outra reflexão a ser feita é sobre a reprodutibilidade e a circulação dessas obras", ressalta Bartolomeo Gelpi, pintor e professor da Escola da Vila, na capital paulista. Além de apreciar as que estão nos museus, os alunos devem ter contato com as que figuram em meios populares, como a literatura de cordel.

No encontro seguinte, Cecília apresentou o quadro Noturno, de Oswaldo Goeldi (1895-1961). Na apreciação, a turma notou os traços escuros, a ideia de solidão, a presença de uma pessoa caminhando e o vento. Alguns lembraram que o painel realizado por eles, com os passos carimbados no papel, também abordava o caminhar, mas de uma maneira bem mais colorida e colaborativa.

Questionados sobre a técnica de Goeldi, uns disseram que parecia um desenho feito com carvão. A educadora explicou se tratar de uma xilogravura, que utiliza uma matriz de madeira. Em seguida, esclareceu que também é possível usar a base de metal (na litografia) e a tela (na serigrafia), entre outras opções.

Cecília reconhece que explorou pouco a xilografia. Ela mostrou para a turma instrumentos usados nessa técnica, como a goiva e o formão, mas teve receio de que alguém se machucasse, por isso não propôs a prática. Fabrício Lopez, coordenador do Instituto Acácia de Responsabilidade Social, concorda que o cuidado é importante. "Temos de posicionar a ferramenta na direção oposta ao corpo para não correr riscos", diz.

Uma das maneiras de se aproximar da técnica é com o isopor. A turma de Cecília reaproveitou bandejas desse material. Cada aluno rascunhou sua criação em papel sulfite e, depois, passou para o isopor. Os sulcos foram feitos com lapiseiras. A placa com o desenho em baixo-relevo foi entintada (pintada com o rolo) e os sulcos resultaram em linhas brancas no papel.

Nessa fase, a professora apresentou um arquivo de powerpoint da série 36 Vistas sobre o Monte Fuji, do japonês Katsushika Hokusai (1760-1849). "O monte Fuji está sempre presente. Às vezes, é só um detalhe lá no fundo. Às vezes, tem um destaque maior", lembra a aluna Nicoly Câmera Rodrigues, 14 anos. Inspirados por essas imagens, os adolescentes produziram, com papelão, a série Dez Pontos de Vista sobre o Tempo e definiram que todas as peças teriam um relógio. Para garantir o relevo, desenharam em um papelão, recortaram e colaram cada elemento em uma placa maior do material. E o molde repleto de tinta guache preta foi usado para imprimir em uma folha A3.

A docente ainda levou os jovens à Universidade Feevale, onde eles entrevistaram a artista Lurdi Blauth e experimentaram o desenho cego, que é parecido com a monotipia. Nesse caso, a tinta é aplicada em uma superfície lisa, o papel é colocado sobre ela e os traços são feitos com um palito, sobre a folha, que depois é descolada e revela o desenho no verso.

No fim dessa intensa incursão, os alunos conheceram os macetes da impressão e as possibilidades dessa linguagem. "Achava que qualquer desenho era uma gravura. Agora sei que há técnicas específicas para produzir uma", resume Nicoly.

1 Texturas e azulejos Possibilite que os alunos experimentem algumas técnicas de gravura, começando pelas mais simples, como a frotagem e a monotipia.

2 Introdução aos conceitos Em uma aula expositiva, explique as características dessa linguagem artística. Mostre fotos dos instrumentos utilizados para produzir essas peças.

3 Artistas consagrados Selecione imagens de gravuristas consagrados, como Maria Bonomi e J. Borges, e apresente para a classe. Promova uma visita a um ateliê ou a uma exposição de um profissional que se dedica a essa arte.

4 Uma exposição gravada Defina um tema e uma técnica para a produção final dos estudantes. Prepare com eles matrizes de isopor, papelão ou madeira. Deixe que realizem várias impressões e comparem os resultados obtidos. Peça que escolham a que melhor atingiu seus objetivos para compor uma mostra.

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