Estudar detalhes de dois conflitos armados

Comparar a Primeira Guerra Mundial com a do Contestado ajuda a entendê-los melhor

POR:
Paula Peres, NOVA ESCOLA, Beatriz Vichessi
À esquerda, José Maria, líder dos revoltados da Guerra do Contestado (1912-1916). Eles lutavam contra o governo brasileiro por causa da construção de uma estrada de ferro na Região Sul. A morte dele deflagrou o conflito. À direita, Francisco Ferdinando, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro. O assassinato dele foi o estopim para a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que envolveu o governo de diversas nações europeias. Ilustração: Bruno Algarve. Fotos André Penner/Reprodução álbum de família e STR/AFP Personagens À esquerda, José Maria, líder dos revoltados da Guerra do Contestado (1912-1916). Eles lutavam contra o governo brasileiro por causa da construção de uma estrada de ferro na Região Sul. A morte dele deflagrou o conflito. À direita, Francisco Ferdinando, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro. O assassinato dele foi o estopim para a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que envolveu o governo de diversas nações europeias. A Guerra do Contestado se deu em uma área pequena, entre os estados brasileiros do Paraná e de Santa Catarina. Já o conflito de 1914 ocorreu em um amplo território europeu, envolvendo os aliados e o grupo dos impérios centrais. Ilustração: Bruno Algarve. Fotos André Penner/Reprodução álbum de família e STR/AFP Localização A Guerra do Contestado se deu em uma área pequena, entre os estados brasileiros do Paraná e de Santa Catarina. Já o conflito de 1914 ocorreu em um amplo território europeu, envolvendo os aliados e o grupo dos impérios centrais. Devido aos planaltos da Região Sul, soldados rebelados podiam usar os vales para se proteger. As tropas do governo até tinham equipamentos semelhantes aos da Primeira Guerra, porém os civis possuíam facões simples <em>(à esquerda)</em>. Na Europa, foi diferente. Por causa da geografia, os soldados combatiam em trincheiras <em>(à direita)</em> e enfrentavam armas químicas. Ilustração: Bruno Algarve. Fotos Renata Ursaia e reprodução do livro Primeira Guerra Mundial Modos de combate Devido aos planaltos da Região Sul, soldados rebelados podiam usar os vales para se proteger. As tropas do governo até tinham equipamentos semelhantes aos da Primeira Guerra, porém os civis possuíam facões simples (à esquerda). Na Europa, foi diferente. Por causa da geografia, os soldados combatiam em trincheiras (à direita) e enfrentavam armas químicas.

Conflitos entre povos e nações são conteúdos clássicos das aulas de História. Para que os alunos se apropriem dos fatos, além de conhecerem dados básicos, eles precisam entender o contexto e estabelecer relações com outros combates. Para alcançar esse objetivo, Valdirene Chitolina, da EM Dom Bosco, em Xaxim, a 526 quilômetros de Florianópolis, fez um estudo comparado entre a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a do Contestado (1912-1916), ocorrida em terras catarinenses. O alvo do trabalho era compreender as formas de combate, os motivos que deflagaram os embates, os envolvidos e os territórios atingidos, além de entender que, apesar de ambos serem guerras, foram diferentes por várias razões (veja as imagens da galeria acima).

Estudar dessa maneira ajuda a aproximar os jovens do passado e faz com que eles reflitam sobre os impactos na sociedade da época e as diferenças entre os fatos. Rogério Rosa, da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), sugere outra possibilidade de comparação: em vez do Contestado, o Tenentismo, série de movimentos militares dos anos 1920, em vários pontos do Brasil. "Outra opção é eleger guerras de períodos distintos", diz João de Carvalho, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Produtores versus fornecedores

Valdirene iniciou falando de aspectos da Primeira Guerra (tais como causas, interesses e consequências) e abordou a dinâmica econômica em voga - que gerou um cisma entre dois grupos: uns eram fornecedores de matéria-prima e outros produtores, que enriqueciam mais rápido. A corrida por desenvolvimento provocou uma tensão no continente europeu e, para se proteger, as nações investiram na formação de alianças e também em tecnologia bélica.

Em seguida, os alunos do 9º ano leram a respeito no livro didático, sempre com a atenção voltada para o que já sabiam sobre a expansão industrial europeia desde o século 19 e a necessidade de ampliar as fontes de matéria-prima e o mercado consumidor de cada nação. Grifaram os trechos que julgaram importantes e conversaram a respeito com os colegas. A professora ainda apresentou o documentário Dias Que Abalaram o Mundo: Assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando (Richard Bradley, Adam Kemp e Neil McDonald, Lion Television para BBC e The History Channel, 50 min), sobre a relação entre a corrida imperialista, as disputas de territórios na Europa e a causa imediata da guerra: o assassinato de Francisco Ferdinando (1863-1914), herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, por Gavrilo Princip (1894-1918).

Para mostrar as dificuldades enfrentadas nas trincheiras, forte marca do conflito, foi exibido As Batalhas da I Guerra Mundial - Trincheiras: Além da Conta (Edward Feuerherd, Focus Filmes, 90 min) e um trecho de Cavalo de Guerra (Steven Spielberg, 146 min, Disney/Buena Vista). As trincheiras tornavam difícil a mobilidade das tropas e sacrificavam muitos homens em prol de pouca conquista territorial. Nelas, os soldados conviviam com ratos, doenças e frio ou calor intensos, entre outros males. "A concepção de guerra como espaço da honra passa a ser questionada a partir de então por causa dos horrores vividos e do uso de gás de cloro e de mostarda, que são armas químicas", diz Renata Schittino, da Universidade Federal Fluminense (UFF).


Sulistas contra o governo brasileiro

Para dar início ao estudo da Guerra do Contestado e depois às comparações, Valdirene mostrou recortes de jornais regionais da época e contou brevemente a história do conflito, apontando os interesses envolvidos. Também levou objetos do período, como a bandeira do Contestado, o grupo que lutava contra tropas do governo pelo direito à terra onde vivia, expropriada para dar lugar à estrada de ferro da empresa Southern Brazil Lumber & Colonization Company.

Depois, a turma foi à cidade vizinha de Irani, a 448 quilômetros de Florianópolis, palco da primeira batalha. Antes da visita, os alunos colheram informações sobre o sítio arqueológico local e prepararam as entrevistas a ser feitas com os guias e Vicente Telles, folclorista, fundador do Museu Histórico do Contestado e neto de ex-combatentes. "O objetivo era buscar dados para relacionar o Contestado com a Primeira Guerra", conta a educadora. Telles falou sobre o sentimento de insatisfação do povo expulso. "A história dos livros geralmente é a versão dos vencedores. Temos de conhecer o lado dos perdedores também", diz a professora.

Por fim, a moçada visitou o sítio arqueológico que abriga o cemitério do Contestado, onde está a sepultura de José Maria (falecido em 1912), líder dos rebelados. A morte dele, no primeiro confronto com as forças do governo, desencadeou a guerra. Os estudantes viram de perto os objetos e o vestuário dos combatentes. "Eles notaram as diferenças entre as armas. Algumas, dos soldados brasileiros, eram iguais às europeias, mais potentes. Já os rebelados tinham outras mais rústicas, como os facões de madeira", diz Valdirene.

De volta à escola, os alunos completaram uma tabela comparativa sobre território, armas e táticas dos dois eventos. Concluíram, por exemplo, que a geografia influencia o tipo de combate: Santa Catarina é uma região de planaltos. Assim, os confrontos ocorriam nas áreas dos vales e os soldados ficavam protegidos neles, dispensando as trincheiras. A classe também resgatou o que tinha aprendido sobre o imperialismo e como ele influenciou o Brasil. "Éramos fornecedores de matéria-prima, ou seja, sem tecnologia desenvolvida. Por isso, no Contestado não foram usadas armas químicas, e o os aviões não eram tão eficientes como os da Europa", conta a educadora.

1 Lá na Europa, década de 1910 Selecione um conflito para ser estudado e comparado à Primeira Guerra Mundial. Apresente os principais dados sobre ele e peça que a turma leia a respeito no livro didático.

2 A vida nas trincheiras Converse com a moçada e apresente documentários sobre o evento que começou em 1914, focando no contexto europeu da época e na vida dos soldados.

3 O conflito no Brasil Apresente outra guerra a ser estudada, como a do Contestado. Se possível, organize uma visita ao local onde ela ocorreu ou proponha entrevistas com ex-combatentes ou familiares deles.

4 Lá foi assim. Aqui, não Peça que a garotada complete um quadro comparativo entre os dois conflitos, elegendo pontos como a geografia de cada local, as táticas, a tecnologia empregada nos embates, os motivos e os atores envolvidos.

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