Por que o café foi o motor do país

Mais do que citar o produto como o principal fator do nosso crescimento econômico, é preciso explicar de que forma ele se tornou tão importante

POR:
Mariana Queen, Elisa Meirelles, NOVA ESCOLA
Os alunos se deram conta de que o ramo de café colocado na bandeira simboliza a força ecomômica e política que o produto tinha no Império. Foto Pedro Motta. Ilustração Diego Martinez
Os alunos se deram conta de que o ramo de café colocado na bandeira simboliza a força ecomômica e política que o produto tinha no Império

Apesar de ser um clássico nas aulas de História, o comumente chamado Ciclo do Café muitas vezes é abordado de uma maneira superficial em classe. Os estudantes sabem que o produto foi - e ainda é - importante para o país, mas não têm claros os porquês disso. Mais do que descrever os acontecimentos do período, é preciso levar a turma a compreender quais estratégias comerciais da Coroa portuguesa, somadas a condições nacionais e internacionais, possibilitaram o bom andamento da produção por aqui.

Para dar início a uma explicação contextualizada, vale recorrer a uma pequena cronologia. Relembre a força da canade- açúcar, de 1580 a 1610, e a época do ouro, entre 1690 e 1760, para então falar sobre a ascensão do café a partir de 1780.

Foi o que fez Túlio Lopes, professor do 8º ano da EM Francisco Sales, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. Antes de introduzir a moçada no contexto da Primeira República, marcada pela força do produto, ele optou por falar sobre as modificações do país ainda durante o Império. "Mostrei como o Brasil foi se desenvolvendo economicamente desse período em diante, com uma produção diversificada, em que o café ganhou importância", explica.

Para que a classe conseguisse visualizar as estruturas sociais e comerciais da época, o professor apresentou a bandeira do Brasil Imperial e propôs a análise da presença do ramo de café na imagem. "Por meio da atividade, a turma começou a se dar conta da dimensão e da força que o produto tinha", explica ele.

Em seguida, Lopes pediu que os alunos observassem a bandeira atual do país e traçassem um paralelo entre ela e a vista anteriormente. "Por meio da atividade, os estudantes notaram as mudanças na base de produção e citaram as grandes evoluções técnicas que ocorreram nesse processo", avalia. Tendo em mente essas observações, ele aprofundou o estudo do tema.

Os erros mais comuns

Dar a entender que Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais só produziam café. Mesmo em baixa, a mineração continuou em Minas Gerais e o cultivo de cana-de-açúcar, no Rio de Janeiro. Havia também produção de alimentos nos três estados. 

Dizer que existiu um Ciclo do Café, com começo e fim. A produção do grão continua em curso no Brasil até hoje, mantendo o país entre os líderes em exportação.

Um conjunto de fatores internos e externos interligados

Uma conjuntura favorável ao café brasileiro. Ilustração Diego Martinez
Uma conjuntura favorável ao café brasileiro

- Concorrência A queda na produção do grão no Caribe ajudou o Brasil a se firmar.
- Opção nacional O declínio do ouro e do açúcar abriu espaço para a coroa investir em café.
- Consumo O terceiro turno de trabalho fez com que o consumo de café aumentasse.
- Transporte O investimento em ferrovias facilitou o escoamento da produção brasileira.

Para compreender a ascensão do café, há quatro fatores - dois nacionais e dois internacionais - que é preciso relacionar (confira no mapa acima). O primeiro diz respeito aos aspectos que fizeram o produto ganhar espaço em território nacional. Mais do que mero acaso, o investimento no grão foi uma decisão da Coroa portuguesa, tomada frente ao declínio do ouro e da cana-de-açúcar. Como o café apresentava grandes vantagens comerciais - o pé durava entre 30 e 40 anos, enquanto o de cana apenas três -, foi fácil cativar os produtores.

Com a expansão do café, veio também o investimento em logística. O grão trouxe uma alta margem de lucro para os produtores logo de início, e praticamente todo o dinheiro foi aplicado em ferrovias. Isso permitiu um escoamento mais eficiente e contribuiu para a inserção do país no mercado externo. "Os alunos devem estabelecer essa relação porque muitas vezes eles acham que as ferrovias nacionais foram criadas para o transporte de pessoas", explica Lopes.

Apenas mudanças internas, no entanto, não seriam suficientes para o sucesso da produção. É essencial que a moçada estude quem eram os consumidores e concorrentes internacionais. Com a Segunda Revolução Industrial (1850-1870) e a vinda do terceiro turno de trabalho à noite, era preciso ficar acordado e o consumo de café aumentou. "O hábito das cafeterias se consolidou mundo afora, sobretudo quando a vida conheceu um novo ritmo, ditado pela produção das fábricas", diz Ana Luiza Martins no livro História do Café (320 págs., Ed. Contexto, tel. 11/3832-5838, 49,90 reais).

Ao mesmo tempo, a diminuição da produção cafeeira nas ilhas de São Domingos e Cuba fez com que o Brasil ocupasse o posto de maior produtor latinoamericano, quase sem concorrentes.

Entendida a relação entre esses fatores, a turma pode observar que, em muitos momentos da história, o mercado e a economia interferiam na política. E no período da cafeicultura não foi diferente. O excelente desempenho do grão permitiu aos produtores grande influência no círculo de poder do Segundo Reinado e das primeiras décadas da República. Mesmo após a estagnação da cafeicultura, o seus barões se mantiveram - e continuam até os dias atuais - como atores políticos bastante importantes no país.

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