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Como ensinar otimismo às crianças

O otimismo é comprovadamente eficaz na prevenção contra a depressão. Saiba como ajudar às crianças a se tornarem mais otimistas

POR:
Ana Carolina C D'Agostini
As crianças com padrão de Pensamento Otimista apresentam melhor saúde física, melhor humor e até mesmo desempenho escolar superior   Crédito: Getty Images

Será que ensinar padrões de pensamento otimista às crianças na escola e em casa pode ajudar a impedir o surgimento da depressão na adolescência e na vida adulta e ainda trazer outros benefícios?

Na tentativa de responder à essa pergunta, o psicólogo norte-americano Martin Seligman fez uso de metodologias cientificamente validadas em neurociência, Educação e psicologia para compreender o que aumenta o bem-estar e impacta a saúde emocional. Dentre os seus achados mais signitificativos está o conceito de "desamparo aprendido". Nos anos 1960, época em que experimentos com animais eram uma prática comum, ele e sua equipe realizaram um experimento com animais de laboratório. Tais animais recebiam choques elétricos leves dos quais não podiam fugir – e aprendiam que suas ações para evitar o desconforto não faziam diferença. Após algum tempo, mesmo sendo colocados em outro ambiente do qual poderiam escapar, os animais se tornavam passivos e não tentavam fazer nada que pudesse aliviar o sofrimento, já que aprenderam anteriormente que não havia saída para mudar a situação.

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O comportamento passivo tornou-se um hábito e chamou a atenção dos pesquisadores para expandir a pesquisa e compreender se os seres humanos atuavam da mesma maneira: será que há formas de proteger um indivíduo contra a sensação de desamparo? Será que é possível ensinar padrões de Pensamento Otimista?

Na tentativa de identificar os fatores que protegem os indivíduos do desamparo, Seligman e sua equipe acompanharam um grupo de 70 crianças por anos e encontraram que aqueles com padrão de Pensamento Pessimista tinham chances até oito vezes maiores de desenvolver quadros de depressão grave na adolescência frente aos que tinham um padrão de Pensamento Otimista. Além disso, as crianças com padrão de Pensamento Otimista apresentavam melhor saúde física, melhor humor e até mesmo desempenho escolar superior. Para o psicólogo, portanto, os padrões de pensamento podem ser tanto um fator que aumenta a vulnerabilidade, como algo que traz mais proteção contra o desamparo. A boa notícia é que suas pesquisas também indicam que podemos ensinar, aprender e praticar como construir novas formas de pensamento, já que apesar da influência do componente genético que determina a nossa personalidade, somos seres maleáveis e fortemente influenciados e moldados pelo meio. 

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O Pensamento Pessimista, por exemplo, analisa as situações majoritariamente das seguintes formas:

- Permanente: Tal coisa será para sempre
- Difuso: Tal coisa estragará tudo
- Personalizado: É tudo culpa minha
- Incontrolável: Não há nada que eu possa fazer a respeito

Já o Pensamento Otimista, analisa as situações predominantemente das seguintes formas:

- Temporário: Isso irá passar
- Localizado: Circunscrito à uma situação específica
- Impessoal: Não é (inteiramente) minha culpa 
- Controlável: Há algo que eu possa fazer a respeito

Para ajudar a identificar o padrão de pensamento mais recorrente, Seligman propõe o olhar atento a três dimensões:

1. Quando algo ruim acontece, a tendência é pensar que aquilo é temporário ou permanente?
2. O problema é descrito como específico ou generalizado?
3. Os acontecimentos ruins são vistos como controláveis ou incontroláveis?

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O psicólogo propôs que podemos ensinar às crianças a desafiarem os próprios pensamentos e a desenvolverem outros estilos explicativos para que o pessimismo não se torna um padrão enraizado em suas personalidades. Segue abaixo algumas dicas para tornar isso possível:

- Identifique e estimule os pontos fortes da personalidade de cada criança;
- Amplie o repertório de alfabetização emocional das crianças, enfatizando seus sentimentos e não somente suas ações concretas;
- Ensine que os sentimentos também são temporários e que podemos ter ações para alterar aquilo que sentimos;
- Fique atento ao uso frequente de palavras como "sempre" ou "nunca", tanto na fala da criança como quando um adulto for conversar com ela ou dar uma bronca. Procure ser específico e não generalizar o comportamento inadequado;
- Quando for chamar a atenção de uma crianca, utilize o estilo do Pensamento Otimista;
- As crianças também desenvolvem os seus padrões de pensamento com base nos adultos que convivem na família e na escola. Portanto, reflita sobre a linguagem que você usa mais frequentemente, e em como descreve os acontecimentos difíceis.

Para Seligman, otimismo não significa repetir frases motivacionais, negar os problemas em suas trajetórias ou sentimentos como tristeza ou raiva. Tampouco é uma cura para todos os males. Ensinar otimismo às crianças significa incentivar a curiosidade em compreender a si mesmo e ao mundo. Significa também estimular a postura ativa frente ao que acontece, instigar a reflexão sobre as próprias ideias e questioná-las, assim como fomentar a perseverança frente às adversidades e a persistir quando tiver que lidar com problemas. O otimismo é simplesmente mais uma ferramenta que pode auxiliar a construção de uma visão do mundo mais harmônica, que pode influenciar positivamente o senso de quem somos, auxiliar no manejo das nossas dificuldades e atuar, por fim, na prevenção de questões relacionadas a saúde emocional.

 

Ana Carolina C D'Agostini é psicóloga e pedagoga com formação pela PUC-SP, especialização em psicologia pela Universidade Federal de São Paulo e mestre em Psicologia da Educação pela Columbia University. Trabalha com projetos em competências socioemocionais e é consultora do projeto de Saúde Emocional da Nova Escola.

 

Referências Bibliográficas

Seligman, M. (2018). The Optimistic Child: A Revolutionary Approach to Raising Resilient Children. Nicholas Brealey Publishing. Versão em inglês. 

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