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Saúde emocional e redes sociais: como o limite ao uso pode diminuir a solidão

Pesquisas apontam os riscos do uso excessivo das mídias sociais e iniciativas tentam proteger e orientar jovens e crianças

POR:
Ana Carolina C D'Agostini
Pessoas reunidas em círculo, cada uma com um smartphone na mão
Foto Getty Images

Muito tem se discutido sobre o impacto do uso das mídias sociais na saúde emocional da população. Dentre as principais preocupações estão o aumento da solidão, já que as interações passam a acontecer com maior frequência pela internet, e o aumento do índice de depressão, pois, supostamente, há o aumento da sensação de isolamento e os indivíduos passam a comparar as suas vidas com as de outras pessoas com base, muitas vezes, em imagens enganosas e que transmitem uma felicidade constante em que não há espaço para a tristeza.

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Em 2018, foi conduzida pela BBC a maior pesquisa já feita sobre solidão, na qual participaram mais de 55 mil pessoas ao redor do mundo. Claudia Hammond, a pesquisadora responsável por esse estudo, aponta que, contrariando o estereótipo que a solidão atingiria majoritariamente às pessoas mais velhas, os resultados indicam que indivíduos entre 16 e 24 anos de idade são aqueles que apresentam os índices mais altos dessa sensação, chegando a quase 40% dos entrevistados. Para ela, o que pode explicar a solidão entre pessoas dentro dessa faixa etária é que geralmente as pessoas nessa fase da vida costumam enfrentar maiores crises de identidade e a habilidade regular as próprias emoções ainda é mais frágil, o que pode intensificar esse sentimento.

Mesmo com esses resultados, o estudo indica também que a solidão é um tema importante independentemente da idade. Quando a solidão se torna crônica pode trazer consequências preocupantes para a saúde emocional e para o estado geral de bem-estar. Frente a esses dados, será que de fato a internet e o uso das mídias sociais contribuem para sentimentos e emoções mais difíceis de lidar?

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De acordo com relatório Digital in 2019: The Americas, divulgado pelas empresas We are social e Hootsuite, 66% da população brasileira é ativa nas redes sociais, o que representa 140 milhões de pessoas. O relatório aponta também que o tempo médio diário utilizado na internet é de 9 horas, sendo que dentro desse tempo, mais de 3 horas são gastas utilizando diferentes mídias sociais e 85% da população utiliza a internet diariamente.

No Brasil, as mídias sociais mais utilizadas pela população são o Youtube, com 95% do acesso, o Facebook, com 90%, seguido pelo WhatsApp com 89% e pelo Instagram, com 71%.  Já a pesquisa feita pela TIC Kids Online Brasil aponta que crianças de 6 anos já começam a criar perfis nas mídias sociais e que 90% dos jovens entre 9 e 17 anos de idade possuem, ao menos, um perfil em rede social. 

Pesquisas como Limitar o uso das mídias sociais diminui a solidão e a depressão (Hunt, Marx, Lipson e Jordan, 2018) indicam que reduzir o tempo de uso nas mídias sociais para até 30 minutos diários é um fator protetor e eficaz para a redução de depressão e para a sensação de solidão.

De maneira similar, uma pesquisa divulgada pela empresa Cigna apontou que o problema da solidão não está no uso das mídias sociais, pois elas nos permitem manter o contato com amigos e criar comunidades. O problema está na quantidade de horas que são dedicadas a essa interação e na forma como é feito esse uso, pois se as mídias sociais chegam a substituir as conexões reais, então o sentimento de solidão e outras implicações na saúde emocional provavelmente irão piorar.

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Iniciativas de saúde emocional promovidas na internet

Em parceria com o Google, o Unicef Brasil lançou a campanha Internet sem vacilo, incentivando uma atitude positiva dos adolescentes e jovens no uso da web. Em parceria com os youtubers Jout Jout e Pyong Lee, foram produzidos conteúdos para auxiliar essa geração a tomar decisões responsáveis e a avaliarem o próprio comportamento online. Além dessa ação, o Google, por meio do projeto Seja incrível na internet tornou possível acessar um Guia de Segurança Digital gratuito para professores, além de material que pode ser utilizado na escola.

Já o Facebook disponibiliza um guia para a prevenção de bullying produzido em diferentes linguagens para educadores, pais, vítimas e testemunhas. Essa  mídia social fornece também ferramentas para a prevenção de suicídio, tanto no bloqueio de conteúdos de incentivo ao comportamento suicida, como na possibilidade de obter ajuda online com um voluntário ou entrar em contato com um amigo. A SaferNet, além de prover informações relacionadas ao universo das mídias sociais, oferece uma linha de orientação e ajuda gratuitas para quem foi vítima de algum crime digital, como por exemplo o vazamento online de imagens íntimas. A empresa trabalha também com a denúncia de crimes na web via plataforma.

Sem dúvidas o advento da internet e o uso das mídias sociais afetam as nossas relações pessoais, a lidar consigo mesmo e o acesso a informação, propondo novas formas de interação, de expressão e de conhecimento. O uso excessivo das mídias sociais pode sim aumentar o sentimento de solidão e trazer outros comprometimentos para a saúde emocional. Entretanto colocar a culpa exclusiva nesse meio seria simplificar questões muito mais complexas e outras construções culturais que impactam o nosso bem-estar. 

Seria uma inocência querer negar o uso das mídias sociais na atualidade e propor que voltemos aos tempos em que esse tipo de tecnologia não existia. Frente a essa realidade, o que podemos fazer como educadores é promover debates e fornecer informações para que haja uso consciente e responsável nesse meio. Pois, conforme vimos, há diversas ferramentas disponíveis que podem nos auxiliar a interagir com as mídias sociais de maneira mais saudável e, até mesmo, ampliar o debate e formas de auxílio em saúde mental.  

Ana Carolina C D'Agostini é psicóloga e pedagoga com formação pela PUC-SP, especialização em psicologia pela Universidade Federal de São Paulo e mestre em Psicologia da Educação pela Columbia University. Trabalha com projetos em competências socioemocionais e é consultora do projeto de Saúde Emocional da Nova Escola.

Referências bibliográficas

Estudo sobre solidão conduzido pela BBC: https://www.bbc.com/news/stories-45561334 

TIC Kids Online Brazil: https://www.cetic.br/pesquisa/kids-online/

Internet sem vacilo: https://www.unicef.org/brazil/internet-sem-vacilo 

No more fomo: Limiting Social Media Decreases Loneliness and Depression (2018). Mellisa G. Hunt et.al. Journal of Social and Clinical Psychology, Volume 37, pp.751-768

Social Media Use and Perceived Social Isolation Among Young Adults in the U.S. (2018) Primack, Brian A. et al. American Journal of Preventive Medicine, Volume 53, Issue 1, 1 - 8

We are social: Global Digital Report: https://digitalreport.wearesocial.com

e https://datareportal.com/reports/digital-2019-global-digital-yearbook?utm_source=Reports&utm_medium=PDF&utm_campaign=Digital_2019&utm_content=Global_Overview_Promo_Slide

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