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Tragédias em escolas: como recomeçar depois de tanta dor?

A experiência mostra que o processo de recuperação após eventos traumáticos, como o massacre na escola estadual de Suzano (SP), requer tempo e acompanhamento especializado

POR:
Paula Salas, Pedro Annunciato
Policiais fecham entrada da Escola Estadual Professor Raul Brasil, de Suzano (SP), onde dois jovens mataram alunos e funcionários. Os adolescentes cometeram suicídio em seguida.  Foto: Mauricio Sumiya/Futura Press/Folhapress)

Não há como estar preparado para isso. Qualquer palavra parece pequena. Tragédias como o massacre na EE Professor Raul Brasil, em Suzano (SP), que deixou dez mortos – incluindo os dois jovens atiradores – são tão chocantes quanto inexplicáveis.

Nestas primeiras horas após o acontecimento, a dor se sobrepõe a tudo nos corações de pais, alunos, professores, gestores e funcionários. Com o passar dos dias, inevitavelmente surgirá uma questão difícil de equacionar: como retomar a vida da comunidade escolar depois do horror? Como voltar a conviver nos corredores, nas salas de aula, no pátio da escola, onde tudo ocorreu? Como consolar os amigos, as famílias, os funcionários? Existe remédio para essa dor?

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O trauma em Suzano não é inédito. Em 2011, uma escola em Realengo, no Rio de Janeiro (RJ), foi alvo de um ataque parecido. No ano passado, em Goiânia (GO), um estudante atirou contra colegas e professores. Nos Estados Unidos, atentados com armas de fogo acontecem com frequência.

Diante da recorrência de fatos como esse, a experiência mostra que é possível superar as tragédias e retomar a vida. A prefeitura de Suzano e o governo do Estado de São Paulo já ofereceram, inclusive, os serviços de assistentes sociais, psicólogos e psiquiatras para dar suporte à comunidade. “Esse trabalho deve levar um ano, pelo menos”, afirma Karen Scavacini, mestre em Saúde Pública na área de Promoção de Saúde Mental pelo Instituto Karolinska, da Suécia.

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Em busca de respostas, NOVA ESCOLA buscou estudos e reuniu uma série de conteúdos de seu acervo a respeito do assunto. Abaixo, você encontra alguns caminhos que as experiências nacionais e internacionais sugerem, e que podem ser adotados pelas autoridades daqui para frente.

Como deve ser a retomada da rotina escolar?

Deixar de falar sobre o assunto ou forçar um retorno rápido à vida normal da escola não são medidas adequadas. A retomada das atividades precisa ser gradual, com acompanhamento permanente de profissionais da área de assistência social e saúde mental. Professores e funcionários devem ter uma conversa aberta com a gestão, de maneira a fortalecer e apoiar a equipe que acolherá os alunos. E quando as aulas forem retomadas, a escola deve abrir espaços de conversa coletivos, para que as pessoas – incluindo as famílias – possam expressar seus sentimentos.

Além dessas ações, é necessário identificar quem está mais fragilizado e precisa de acompanhamento individual. A equipe escolar pode ajudar os especialistas a identificar algumas mudanças de comportamento: "A criança que não brinca como antes, o adolescente que deixa de conversar com os colegas ou, ao contrário, era quieto e passa a falar demais", explica o médico Fernando Asbahr, coordenador do Programa de Ansiedade na Infância e na Adolescência do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) em entrevista à NOVA ESCOLA. Essas alterações podem acontecer até seis meses após o evento traumático.

Outra atitude importante é respeitar o processo de luto. É natural, por exemplo, que a comunidade queira homenagear os mortos, e a escola precisa estar sensível a essa necessidade, discutindo com todos como essa homenagem pode ser feita.

Como trabalhar o sentimento de insegurança?

A resposta imediata da comunidade escolar pode ser o isolamento e a aposta no policiamento. Mas, segundo o sociólogo Pedro Bodê, especialista em segurança pública da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a saída pode não ser a mais indicada. "Afastar a escola do mundo exterior vai contra a função dela, que é integrar", afirma. Uma alternativa possível é ter um controle maior da entrada e saída, porém isso não significa afastar a comunidade da vida escolar. Ela precisa ser vista como aliada e parte de uma rede de proteção da escola.

Quais os efeitos causados nas pessoas que vivenciaram uma experiência traumática como um massacre?

Segundo a Associação Psicológica Americana (APA), uma das mais importantes organizações da área de Psicologia do mundo, no artigo What happens to the survivors (“O que acontece com os sobreviventes”, em tradução livre) as vítimas de tiroteios, em geral, apresentam resiliência – isto é, conseguem superar a situação traumática que vivenciaram. Mas há quem apresente um quadro mais grave, desenvolvendo problemas como transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), depressão, ansiedade ou dependência química.

A associação afirma, com base em diversas pesquisas, que os sobreviventes geralmente passam por três etapas de recuperação.

A primeira se caracteriza pela negação acompanhada do choque e da descrença. Nessa fase, a equipe de especialistas tem o papel de providenciar recursos e informações necessárias para resolver questões mais práticas, como os procedimentos burocráticos para o sepultamento, até o primeiro auxílio psicológico contra os sentimentos de medo, ansiedade e desamparo. O essencial é responder aos efeitos imediatos causados pela tragédia, zelando pela segurança física, psicológica e emocional das vítimas.

A segunda etapa é marcada pelos sentimentos de medo, raiva, além de dificuldade de concentração, ansiedade, depressão e problemas para dormir. As vítimas ainda necessitam de apoio constante de psicólogos e psiquiatras.

Por fim, meses após o evento, os sobreviventes entram na terceira fase, na qual não será mais preciso o suporte constante de psicólogos, ainda que alguns ainda apresentem recaídas. Paciência com o tempo de cada pessoa é essencial. A associação alerta que há pessoas que experimentam um agravamento do estresse pós-traumático quando percebem que os demais já conseguiram seguir em frente, enquanto eles ainda não. Especialistas indicam que os sintomas persistem, pelo menos, um anos após a tragédia.

O que outras experiências ensinam que é possível fazer para se recuperar?

No dia 7 de abril de 2011, a história da E.M Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro foi marcada pela tragédia que ficou conhecida como o Massacre do Realengo. O ex-aluno Wellington Menezes de Oliveira entrou armado na escola e matou 10 meninas e dois meninos com idade entre 12 e 14 anos.

No artigo “Voltando a ser escola" – estudo de caso da tragédia de Realengo no município do Rio de Janeiro (RJ)”, Luciana Oliveira dos Santos conta a experiência da escola após o episódio trágico. Com os horrores ainda recentes, a escola voltou às atividades uma semana após o evento. Cada turma retornou à escola em dias separados, as últimas duas foram aquelas mais atingidas pela chacina. Durante as primeiras duas semanas, o foco foi permitir que os alunos se expressassem. Depois desse período, as turmas voltaram às salas de aula – aquelas onde aconteceram os tiroteios foram interditadas. O recomeço marcou a estrutura física da escola: o prédio foi totalmente reformado. Com apoio psicossocial, a saída encontrada pela direção foi dar uma nova cara à escola. O diretor Luis Marduk Bráz apresentou um vídeo com as mudanças e, em seu discurso, promoveu a união da comunidade escolar e aproveitou para reforçar que a essência da escola permanecia inalterada. A recuperação da escola foi longa e difícil. Um mês após o acontecido toda a escola ainda tinha muito dificuldade de falar sobre o acontecido.

Como a cobertura jornalística pode atrapalhar no processo de retomada?

Após o evento na escola de Realengo em 2011, uma das dificuldades relatadas por gestores e funcionários para retomar a rotina da escola foi a presença constante da imprensa na porta da escola. “A exposição exagerada do caso na mídia é extremamente prejudicial, não só pelo desgaste emocional que isso pode causar aos envolvidos, mas porque a repercussão pode influenciar outras pessoas a praticarem ataques violentos”, diz a psicóloga Karen Scavacini.

 

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