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Nós estamos vivendo a era dos massacres escolares

2018, segundo algumas estimativas, foi o ano mais letal para a comunidade escolar nos EUA

POR:
Leandro Beguoci
Homenagem às vítimas do massacre de Columbine, nos Estados Unidos   Foto: Marc Piscotty/Getty Images

O massacre de Columbine vai completar 20 anos no próximo mês de abril. Ele não foi o mais letal, tampouco o mais elaborado nem o primeiro assassinato em massa em uma escola americana. Outras pessoas mataram antes e mataram mais. Porém, ele traçou uma linha que não se apagou com os anos. A partir daquele 20 de abril de 1999, nós entramos na era dos massacres escolares. Os dois adolescentes assassinaram 13 pessoas, feriram dezenas e depois se suicidaram.

Por que Columbine define uma época? Há várias explicações. Todas conversam com o espírito daqueles anos e ainda não se esgotaram com o tempo.

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Os dois adolescentes eram viciados em videogames violentos, aprenderam a fazer explosivos e a manejar armas pela internet e escolheram as vítimas a dedo. Também eram vítimas de bullying intenso dentro da escola e tinham problemas psicológicos. Por fim, tiveram uma enorme facilidade para conseguir as armas e materiais usados no massacre escolar.

Columbine mostrou ao mundo uma combinação explosiva: as mudanças na cultura juvenil, como videogame e internet, se uniram a traços existentes há anos em escolas americanas, como o bullying e o abuso. E, claro, o acesso indiscriminado a armas no país deu concretude à violência planejada dentro dos quartos adolescentes. Algo novo e perverso surgiu.    

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O simbolismo da ação, a sofisticação do ataque, a complexidade das personalidades e os enigmas em torno dos jovens renderam estudos, conferências e filmes como “Tiros em Columbine”, de Michael Moore, e Elefante, de Gus Van Sant. É daqueles episódios que encapsulam os males e dores de uma época. Doem até hoje e só vão parar de arder quando os massacres acabarem – o que parece longe de acontecer.

2018, o ano da morte

Segundo vários levantamentos e estudos, 2018 foi o ano mais violento nas escolas americanas. Reportagens do site Vox (em inglês) e do jornal britânico Guardian (também em inglês) resumem as descobertas. No ano passado, houve 94 casos de violência com armas de fogo em instituições de ensino nos EUA – maior número desde 2006, quando foram registrados 59. Também foi o ano com mais mortes, 55, quebrando o recorde registrado em 1993, de 40.

Claro, esses números são pequenos quando comparados ao número de mortes por arma de fogo nos EUA. Entre assassinatos e suicídios, 39 mil pessoas morreram a tiro no país em 2016, número mais recente disponível. Porém, há o simbolismo da escola. Um massacre em sala de aula mexe com os nossos medos e desperta fantasmas que muitos de nós acalmamos a muito esforço.

E, além das vítimas diretas, há os sobreviventes. Em reportagem recente, o jornal Washington Post (em inglês) estima que pelo menos 187 mil americanos foram expostos a violência com armas dentro das escolas desde  Columbine. São as pessoas que vemos correndo, fugindo das escolas, nos vídeos de hoje de Suzano, por exemplo. São marcas que duram para a vida, como mostra esse ensaio fotográfico com sobreviventes de massacres escolares nos EUA. 

Escolas, tal como igrejas, possuem uma certa sacralidade. Idealmente, a escola é a instituição em que as pessoas vão para ensinar e para aprender, para exercitar a curiosidade e a paixão pelo conhecimento. Teoricamente, são espaços de livre expressão e experimentação. Por isso há tanta resistência em armar professores e reforçar a segurança nos corredores. A presença ostensiva da polícia é uma confissão de falência. Significa, na prática, que aquela escola perdeu a alma e é incapaz de engajar sua comunidade numa aventura comum.  Tem menos a ver com a polícia em si, que é uma instituição legítima e necessária, do que com a própria identidade da escola. Alunos mortos são como templos profanados. É uma violência que nos corta na carne e provoca uma dor incontrolável.

Pois bem, o parágrafo anterior falou da escola ideal. Entre o ideal e o real há uma grande distância. Sabemos o quão violenta uma escola pode ser.

Ainda há pouco entendimento e compreensão sobre o bullying e seus efeitos devastadores em quem é vítima, em quem assiste e em quem pratica. Não sabemos traçar a linha entre brincadeira e abuso nem avaliar os efeitos sobre a comunidade escolar. Em muitos lugares, o problema é tratado como um não-problema. A lógica aplicada é “se você para de falar, a questão para de existir”. Erro grave, que se estende para outros temas difíceis. Ainda falamos pouco de saúde mental dentro da escola – depressão ainda é vista como fraqueza ou falta de fé.

Também conversamos pouco sobre o caldo que se forma entre hormônios a flor da pele (muitas pesquisas mostram que homens jovens são mais propensos a crimes violentos) e como isso é direcionado para a violência por um certo tipo de cultura escolar. O fato é que muitas escolas nos EUA, no Brasil e em outras partes do mundo são ambientes tóxicos – e ainda não damos a esse fato a gravidade que ele merece. A doença individual, traço de muitos dos autores de massacres escolares, ganha potência numa cultura medonha.

O que vem por ai?

Enquanto não arrumamos uma solução, os casos se multiplicam. Depois de Columbine veio o massacre da Universidade Virginia Tech em 2007, com 32 mortos – o mais letal em território americano até hoje.  Com os anos, os casos foram se multiplicando e, por uma série de características, se transformaram em símbolos. Teve Sandy Hook e seus 28 mortos, em 2012. A maioria dos mortos era de crianças entre 6 e 7 anos. Em 2018, houve massacres no Texas e na Florida.

Não há nada no horizonte que aponte o fim ou diminuição dessas mortes em série. Além de não tratar os problemas como deveria, os EUA têm uma dificuldade atávica em lidar com sua obsessão por armas. A quantidade de crianças e adolescentes mortos ainda não levou a mudanças profundas nem no ponto mais óbvio, o controle de armas.

No Brasil, o cenário ainda não é trágico em volume de casos, mas é parecido na dimensão da tristeza. Columbine inspirou o assassino do Realengo, em 2011. Ele matou 12 crianças e adolescentes. O jovem que matou dois colegas em Goiás seguiu a mesma trilha. Enquanto escrevo este texto, ainda não sabemos as motivações dos assassinos de Suzano.

O que sabemos, apenas, é que muitos assassinos, como os de Suzano, frequentam foruns obscuros da internet. Neles, grassa uma cultura de violência e misoginia. Nesses lugares, adolescentes desequilibrados, com pouco contato social, encontram na frieza do teclado o acolhimento que não recebem nem na escola nem em casa. Eles passam a fazer parte de uma comunidade mórbida, mas, ainda assim, uma comunidade. Nos foruns mais radicais, massacres como os de Suzano são comemorados e seus autores, celebrados como herois de uma causa tão difusa quanto cheia de ódio. 

O fato é que a escola virou alvo, e nós ainda não pensamos o suficiente sobre essa tragédia. Como o lugar para promover o pensamento virou cemitério de corpos e sonhos? 

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