Um espaço para brincar e aprender

O pátio pode ajudar na aprendizagem. Organizado, ele melhora a relação entre os estudantes e diminui a agressividade e a ocorrência de brigas

POR:
NOVA ESCOLA, Luciana Zenti
Horta na Aymar Baptista, em Ribeirão Preto: antes, o lugar era um lixão; agora, graças à parceria com uma universidade, os legumes incrementam a merenda Foto: Marcelo Min
Horta na Aymar Baptista, em Ribeirão Preto: 
antes, o lugar era um lixão; agora, graças à 
parceria com uma universidade, os legumes 
incrementam a merenda Foto: Marcelo

Sala de aula é lugar de aprender. Pátio é lugar só de brincar, certo? Errado. Cada vez mais escolas estão percebendo que esse espaço tem um papel essencial na formação da criançada. Quando não é bem planejado, ele acaba rimando com algazarra e brigas. Mas transformá-lo num ambiente de aprendizagem, capaz de reduzir a agressividade e a indisciplina dentro da classe, é mais fácil do que parece. "O pátio ajuda a criar nos estudantes a sensação de que eles são donos do colégio", diz Paulo Zimbres, arquiteto e consultor do Fundo de Fortalecimento da Escola (Fundescola), órgão do Ministério da Educação dedicado a melhorar a infra-estrutura da rede pública de ensino. "Ele abre possibilidades na construção dos saberes e inova o processo de aprendizagem", acrescenta Beatriz Fedrizzi, paisagista formada em Agronomia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com mestrado e doutorado feitos na Suécia.

Especialista nas relações pátio-estudo, ela coordenou, em parceria com a Fundação Gaia (organização não-governamental que trabalha pela preservação do meio ambiente), um projeto de remodelação da Escola Municipal Chapéu do Sol, em Porto Alegre. Quando as instalações foram abertas, em abril de 2000, o cenário era bem pouco animador. A prefeitura ergueu os prédios para atender à população carente que havia sido transferida de uma área de risco para aquela região, recém-urbanizada, na periferia da capital gaúcha. E, numa tentativa de ganhar tempo, as aulas começaram antes mesmo da conclusão das obras. Apesar de o terreno ser enorme (11359 metros quadrados) e ter uma pequena mata nativa num dos cantos), não havia árvores nos arredores das salas de aula, que se transformavam em verdadeiros fornos no verão.

Além disso, faltavam brinquedos para as 650 crianças. O recreio, que no início tinha dois horários diferentes por falta de espaço, era sinônimo de brigas e confusões. Só em agosto do ano passado ficaram prontas as duas quadras de esportes e o campo de futebol, todos descobertos. Foi quando Beatriz e a Fundação Gaia entraram em cena. Com a participação efetiva da comunidade, a escola rapidamente mudou da água para o vinho. "Pesquisas mostram que o ambiente influi na auto-estima das crianças", diz a consultora. "Em lugares alegres e bem cuidados, elas se sentem amadas e têm mais disposição para aprender."

Saiba agora como ocorreu a transformação na Chapéu do Sol. Quase tudo foi feito com material doado e o trabalho voluntário de pais e vizinhos, além dos próprios alunos, professores e funcionários. Do caixa da escola não saiu um centavo sequer. O "milagre" pode ser resumido em seis grandes passos.

Conscientização

Sempre há alguém disposto a começar o trabalho. Em Porto Alegre, foi Rosane Salete Ribeiro Pereira, coordenadora cultural e atual vice-diretora. Ela contou com a ajuda das colegas Cláudia Ludcke e Dulce Cornelet dos Santos. Juntas, elas criaram as condições necessárias para envolver a comunidade escolar no processo.

Discussão

Todos devem expor suas idéias. Os gaúchos partiram da seguinte pergunta: "Como eu gostaria que fosse a escola?" É importante não deixar ninguém de fora. "Pais, alunos, funcionários e professores apropriam-se do projeto e têm afeto pelo que foi feito", ensina Beatriz. Algumas técnicas podem ser usadas para estimular o grupo a pensar. Uma delas é a visualização criativa. De olhos fechados, cada um se imagina sobrevoando o ambiente. Onde as crianças vão brincar? Há espaços vazios? O que devemos manter e o que precisa ser jogado fora? Como estará o lugar daqui a cinco anos? Em tiras de papel, escrevem-se algumas idéias iniciais.

Radiografia

Com uma planta bem simples, os estudantes da Chapéu de Sol dividiram a escola em quadrantes e avaliaram o tipo de solo e o relevo do terreno. Em classe, fizeram uma grande tabela com tudo o que viram em cada setor pesquisado. Assim, todos passam a conhecer o local (no caso, uma área enorme) nos mínimos detalhes.

Projeto

O passo seguinte é a planta baixa. Pode-se desenhar numa cartolina ou no chão, com giz. Peça que o grupo faça uma maquete dos prédios usando material reciclável sobre o molde original. Destaque algumas informações climáticas, como de que lado nasce o sol e onde venta mais, por exemplo. Em seguida, parta para a lista de necessidades. Como efetuar cada modificação? É importante montar uma planta final, mesmo que artesanal. O desenho ajuda a lembrar o que falta fazer.

Execução


Comece as mexidas com o material disponível. Na Chapéu de Sol, professores e alunos foram atrás de pneus velhos em borracharias e de mudas de árvores na Secretaria do Meio Ambiente. Num dia pré-determinado, foram plantadas as árvores e as flores, e feitos os canteiros da horta, a sementeira, a espiral de ervas e a composteira. O piso, de cimento, ganhou pintura colorida e, na área de jogos, foi construído um tanque de areia cercado pelos pneus. Os familiares entraram com ferramentas e carrinhos de mão. Atenção: não queira resolver tudo em poucos dias. O projeto da escola porto-alegrense ainda não está concluído. A cada semana, tem uma novidade aqui, outra ali.

Manutenção

A tarefa agora é manter tudo em ordem. Se alguma coisa quebrou, é essencial consertar o mais rapidamente possível. As crianças tenderão a conservar melhor um pátio organizado.

Na maior parte dos casos, a revitalização do pátio começa pela conscientização ambiental, na forma de uma horta. A Escola Estadual Aymar Baptista, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, fez uma parceria com o Centro Universitário Barão de Mauá, que levou um técnico agrícola para passar as primeiras orientações. O lugar era um lixão e a violência rolava solta no colégio. No início, a diretora Vera Lúcia Bernardo convidou a participar os alunos que tinham problemas de relacionamento, mas não demorou para o grupo aumentar. Todas as quartas e sábados, voluntários começaram a se reunir para aprender a cultivar legumes e verduras. Rapidamente, a turma promoveu a limpeza e análise do terreno, a montagem dos canteiros, a adubação.

Hoje as crianças plantam cenoura, alface, rúcula e almeirão e usam a produção para enriquecer a merenda. A idéia deu tão certo que a Aymar Baptista resolveu ampliar a parceria. Coordenados pelo professor Mauricio Estellita, universitários voluntários da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Barão de Mauá já estão tocando novas modificações, que incluem a criação áreas arborizadas e outras destinadas a brincadeiras. 

Mais uma prova de que o lazer e o lúdico não devem ser barrados no portão. Em Feira de Santana, interior da Bahia, pequenas atitudes mudaram não apenas o pátio, mas principalmente o comportamento dos alunos. A engenheira civil Eufrosina de Azevêdo Cerqueira comandou as reformas na Escola Municipal Marília Queiroz Silva, localizada perto do aterro sanitário municipal. O muro foi pintado de branco e do lixão vieram alguns objetos, como troncos de árvores e pneus velhos, reciclados na forma de bancos e brinquedos.

A inauguração do pátio foi um dia inteiro de festa. Em grupos, professores e alunos plantaram mudas de árvores, enquanto artistas locais ajudavam as crianças a fazer os desenhos que ilustram as paredes. No refeitório, a turma fez um colorido mural. Em pouco tempo, o cinza dos prédios deu lugar a muitas cores e o pátio tornou-se, de fato, um espaço para brincar e aprender.

Sala de aula ao ar livre
Confira alguns exemplos de como cada disciplina pode usar o pátio

Educação Física: Jogos, ginástica e esportes promovem a saúde e o desenvolvimento das habilidades motoras.

Língua Portuguesa: Histórias podem ser lidas debaixo de árvores ou em um "canto de leitura". Ao ar livre fica mais fácil promover debates e encontrar inspiração para escrever.

Matemática: Na horta, que tal anotar o número de sementes plantadas e conferir quantas de fato germinaram para ensinar porcentagem? O chão pode ser usado para desenhar figuras geométricas e os muros e cercas, para estudar área e medidas.

Ciências Naturais: É possível falar sobre o globo terrestre, o clima, as ciências físicas e biológicas. Um relógio de sol ensina o conceito de tempo e as estações do ano.

Geografia: A confecção de mapas e plantas baixas e a observação do sol ajudam os alunos a ter noções de espaço.

História: Uma maneira de estudar a disciplina é questionar a turma sobre o que pode ter acontecido na área no passado. Aproveite também para organizar apresentações e eventos.

Artes: Folhas, galhos de árvores e terra podem ser facilmente usados como material artístico. Incentive a criação de desenhos em superfícies lisas usando giz ou tinta.

Língua Estrangeira: Explore o vocabulário do pátio caminhando ao ar livre. Basta treinar conversação e ensinar os nomes dos objetos, seja em inglês, francês, espanhol, alemão...

Quer saber mais?

Escola Estadual Professor Doutor Aymar Baptista Prado, R. Min. Victor Nunes Leal, 200, CEP 14051-370, Ribeirão Preto, SP, tel. (16) 633-4911

Escola Municipal Chapéu do Sol, Estr. Juca Baptista, s/nº, CEP 91755-000, Porto Alegre, RS, tel. (51) 3245-6401

Escola Municipal Marília Queiroz Silva, Rua Tefé s/nº, CEP 44017-630, Feira de Santana, BA, tel. (75) 223-6192

BIBLIOGRAFIA
Paisagismo no Pátio Escolar
, Beatriz Fedrizzi, Ed. da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 60 págs., tel. (51) 3224-8821, 22 reais

 

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