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Aprendizagem | Matemática


Por: Bruna Tiussu

Como ensinar Matemática para alunos surdos?

Crianças com deficiência auditiva precisam de imagens para aprender o universo dos números. E elas aprendem de forma diferente.

MEIO VISUAL: Explorar o lúdico e manipular objetos ajuda a aproximar os alunos da Matemática

Ensinar a tabuada ou as quatro operações fundamentais fica mais fácil quando o professor consegue criar histórias capazes de abarcar esses conceitos. Ou dá conta de formular situações-problema para discutir em sala de aula. Mas como ensinar aos surdos o mesmo conteúdo matemático, por vezes abstrato, e garantir que todos os alunos aprendam?

O aumento dos estudantes com alguma deficiência auditiva nas escolas tem levado educadores a pesquisar mais a fundo um elemento que permeiatodo o processo da aprendizagem: a linguagem. Afinal, trata-se de crianças e adolescentes que se comunicam, exploram e conhecem o mundo principalmente por meio da Língua Brasileira de Sinais (Libras). No caso da Matemática, o conteúdo é mais bem aprendido pelos alunos quando se exploram recursos visuais.

Para encontrar os estímulos certos para seus alunos, Inay Rijo faz um diagnóstico logo no início do ano letivo. Responsável pelas aulas de Matemática do 6º e do 8º ano do Fundamental na Emebs Anne Sullivan, de educação bilíngue para surdos, em São Paulo, ela propõe uma atividade de lógica para entender as potencialidades individuais e, então, adaptar a aula-base de maneira que todos acompanhem. “O professor precisa ter esse olhar atento, aguçado. Não é porque todos são deficientes auditivos que aprendem da mesma forma. Uma turma de surdos também é heterogênea”, afirma.

“Deficientes auditivos não têm impeditivo cognitivo para a aprendizagem, mas sem a imagem eles não conseguem assimilar o conteúdo. No caso da Matemática, é preciso ir para o concreto, confeccionar materiais”, diz José Gilson Bezerra da Silva, professor da Emeb Durvalina Cardoso Pontes, em Santana do Ipanema (AL), que repensou as estratégias didáticas em sala de aula quando recebeu um aluno surdo na turma do 4º ano em 2018, optando por jogos, objetos do cotidiano e cédulas para trabalhar operações e conceitos monetários. A alternativa beneficiou também os demais alunos.

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“A pedagogia visual é ótima para surdos e ouvintes. Principalmente na Matemática, onde há muita abstração e um medo historicamente criado, o conteúdo é mais bem compreendido quando a criança manipula objetos, assiste a vídeos ou trabalha o lúdico em jogos”, explica Adriana Bellotti, professora da disciplina de Libras do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos.

Formada em Matemática, Inay conta que passou a entender melhor os caminhos para a aprendizagem dos alunos em um curso de especialização. “É preciso adotar recursos que exploram a visão”, diz. Diariamente, ela busca formas concretas de representar conceitos, adapta jogos que encontra na internet e contextualiza os conteúdos para o universo dos alunos. Quando foi ensinar operações com números inteiros para o 6º ano, por exemplo, trabalhou uma série de situações com dados coloridos, em que os vermelhos representavam os números positivos e os azuis, os negativos.

No 8º ano, se por um lado foi fácil ensinar conteúdos de Geometria, que são bem visuais, ela precisou da criatividade para apresentar conceitos monetários. “Meus alunos não estavam acostumados a lidar com dinheiro e troco. Isso não fazia parte do dia a dia deles”, conta Inay, que simulou um mercado na aula, tornando palpável um conteúdo ainda abstrato para a turma.

“Ao pensar em contextos que deem à criança condições de formular hipóteses, ele está instigando a produção de questionamentos, que mais tarde serão validados. O professor apenas facilita o ensino, não dá o conhecimento. É o aluno que o constrói”, explica Ana Carolina Petreche Harris Sampaio, que pesquisa didática da Matemática na pós-graduação do Instituto Vera Cruz.

Escassez de materiais e de formação

Um dos desafios que Inay enfrenta é a escassez de material didático adequado para que os alunos pesquisem sozinhos, após o horário escolar. “Há poucas videoaulas de Matemática em Libras disponíveis. E para usar este suporte é preciso primeiro ter acesso à internet.” A professora também aponta a falta de incentivo para a formação continuada dos educadores.

“Existir uma lei que garanta às crianças com deficiência o acesso à educação pública é muito bacana. Mas não é suficiente. Ela exige do governo outros tipos de investimento: o físico, para que as escolas estejam adequadas para a inclusão desses alunos; e o intelectual, para que os professores tenham domínio dos recursos didáticos necessários para atendê-los”, diz Ana Carolina.

Adriana destaca ainda o apoio do intérprete para fazer a interlocução entre as línguas: “O ideal é que eles trabalhem juntos. Na Matemática, o professor deve entregar o plano de aula com antecedência para que o intérprete tenha tempo de estudar e se preparar. É a partir dessa parceria e do contato com o aluno deficiente que se descobrem os melhores caminhos”.

Como já dominava Libras, José Gilson não contou com o auxílio de um intérprete na sala de aula, e tinha de se desdobrar na comunicação com os dois públicos. “Ou você oraliza ou faz sinais. A otimização do tempo neste caso foi um desafio”, diz. Por lei, todo aluno deficiente auditivo tem direito a um intérprete durante as aulas, mas ainda há grande escassez desse profissional em muitas cidades brasileiras. Outro ponto importante é o envolvimento dos pais, que, se possível, devem ser incentivados pelo professor a participar do processo educacional da criança com deficiência. Segundo Adriana Bellotti, muitas vezes a família não aceita a deficiência ou possui poucos recursos para aprender Libras. A escola, portanto, acaba sendo peça essencial.

Ciente disso, a escola de José Gilson desenvolve uma oficina voltada aos pais de alunos com deficiência. Uma vez por semana, eles aprendem Libras e trabalham alguns conteúdos junto aos filhos, para que entendam melhor o funcionamento de seu raciocínio lógico. “Os pais precisam saber conversar, ajudar nas tarefas, participar do aprendizado”, explica o educador. Ele também criou um projeto para ensinar aos alunos ouvintes noções básicas de Libras, a fim de facilitar a comunicação e o convívio. “Inclusão significa estar apto para receber. É isso que precisamos fazer.”

DO ABSTRATO PARA O VISUAL
Cinco dicas para incluir o aluno com deficiência no mundo matemático
  1. Materiais concretos: Objetos e jogos devem fazer parte das aulas. Pesquise referências na internet e pense em maneiras de adaptá-las para o conteúdo a ser ensinado
  2. Imagens e ilustrações: Faça uso de vídeos e do datashow para complementar ou contextualizar a explicação de conceitos mais abstratos
  3. Parceria: Atue em conjunto com o intérprete. Crie uma rotina de trabalho, compartilhe o plano de aula e converse sobre o desenvolvimento dos alunos
  4. Olha atento: Foque na individualidade de cada estudante. Perceba as potencialidades e explore as habilidades que facilitarão o aprendizado deles
  5. Interação: Faça atividades em grupos para incentivar a troca entre ouvintes e surdos. As habilidades de um podem ajudar o outro na compreensão do conteúdo

 

Fotos: Christian Braga