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Que bicho é este?

Crianças do Recife descobrem insetos no pátio da escola e ganham até prêmio científico por causa da curiosidade

por:
PA
Paulo Araújo
Abril de 2007

No começo do ano passado, Maria do Carmo Junqueira, da Escola Arco-Íris, no Recife, percebeu um movimento estranho entre as crianças do Grupo III (4 e 5 anos) na hora do recreio. Mal tocava o sinal, todos deixavam para trás bolas, bonecas e carrinhos e corriam em direção a um tanque de areia onde se formavam, como num passe de mágica, dezenas de buracos no chão.Corajosos, os meninos e meninas não hesitavam em enfiar os dedos neles para tentar descobrir que bicho era aquele que construía tão esquisita morada. A resposta, percebeu-se mais tarde, atendia pelo nome de vespaescavadora, um tipo de inseto que tem listras verde-limão pelo corpo e patas que furam a terra como uma máquina. "Todos acharam isso fantástico, e a novidade dominou as conversas durante o resto da semana", lembra Carmita, como é conhecida a professora. Foi o primeiro passo para ensinar os procedimentos básicos de metodologia científica."As turmas de Educação Infantil estão na idade mais apropriada para fazer um trabalho desse tipo", atesta Antônio Carlos Pavão, diretor da Estação Ciência, em Olinda, Pernambuco. "Isso porque os pequenos não têm vergonha e perguntam do jeito mais espontâneo possível."

Durante os quatro meses seguintes, não faltou trabalho. As etapas correspondem exatamente aos principais componentes do método científico clássico, adaptado à lógica do pensamento infantil.

O trabalho, em cinco etapas
1. Levantamento de hipóteses
Antes de dizer que inseto fazia aqueles buracos (a hipótese de que eram abelhas foi refutada por causa das cores preta e verde-limão), Carmita pediu que as crianças perguntassem em casa quem sabia de que bicho se tratava. "Muitos passaram a ser vistos pelos pais como pesquisadores, tanto que alguns vieram comentar comigo que se sentiam constrangidos por não saber a resposta." Em paralelo, começou uma pesquisa em livros, enciclopédias e revistas científicas disponíveis na biblioteca da escola. O pai de um menino, biólogo, salvou a turma e mandou a informação correta: vespa-escavadora.

2. Fazer observação e registros
Algumas crianças descobriram com os irmãos mais velhos uma técnica interessante para observar o inseto de perto. Usando copos descartáveis, retiravam porções de terra com a vespa-escavadora dentro. Além disso, mexiam nos buracos com gravetos. Enquanto elas não escapavam voando, os grupos observavam tudo bem de perto e faziam ilustrações. "Nessa fase, os desenhos representam o imaginário sobre os bichos", explica Vera Acioli, coordenadora pedagógica da escola. "Por isso, é comum ver tudo fora da escala real."

3. Comparar hipóteses
Logo em seguida, a professora fez uma pergunta que deixou as crianças ainda mais curiosas: para que a vespa faz tantos buracos? Confira algumas das respostas.

Ela escava o solo com as mandíbulas e constrói um túnel para fazer ninhos.
O bicho caça lagartas e aranhas e consegue paralisar as presas graças ao veneno que injeta durante a ferroada.
A vespa carrega a presa para o buraco e lá deposita seus ovos. Desse ovo nasce uma pequena larva que se alimenta do corpo da presa até se tornar uma vespa adulta.
Numa colônia de vespas, existem uma rainha e várias operárias, além de machos. As fêmeas fazem os buracos, defendem e alimentam as larvas.

4. Organizar o pensamento
Na sala de aula, a professora ajudou os pequenos cientistas a anotar as informações colhidas no quintal e na biblioteca para que todos chegassem a uma só conclusão. O grupo discutiu muito, voltou a campo e confirmou que o inseto tem seis patas, seis asas, seis antenas e dois olhos. Além disso, a observação apontou que ele só visita o pátio da escola nos primeiros meses do ano. Para facilitar a pesquisa, a professora transformou um aquário vazio num terrário. "Todos passaram a representar os insetos do jeito que eles realmente são", enfatiza Vera. Impedidas de voar, algumas vespas morreram - e isso foi um novo aprendizado.

5. Construir conhecimento
Na reta final do projeto, iniciado em março e concluído em junho, algumas crianças sugeriram incluir borboletas, lagartas e grilos - que aparecem constantemente na escola. A solução foi confeccionar uma versão mais simples de uma caixa entomológica (suporte usado pelos museus de botânica para exibir insetos mortos). O passo-a-passo foi o mesmo: nada de respostas prontas, mas pesquisas sobre as características de cada bicho, o grande barato do método científico. Em agosto, Carmita leu num jornal local que a Estação Ciência de Olinda estava organizando a décima segunda edição de sua feira para jovens pesquisadores. "Por que não exibir o trabalho?", pensou. Para descobrir se eles poderiam ou não participar, pediu autorização à coordenadora e levou todo o grupo para visitar o lugar. Na chegada, as crianças surpreenderam o diretor e sua equipe. "Todos saíram pelo pátio caçando fungos, borboletas e grilos com entusiasmo", conta Pavão. A escola apresentou o texto do projeto Que Bicho É Esse e foi autorizada a participar da feira na categoria Iniciação à Pesquisa. A "brincadeira" de caçar vespas no pátio ficou em terceiro lugar por sua contribuição à Ciência.

Estudar o comportamento de insetos...

- Ensina a observar e registrar descobertas.
- Inicia os pequenos no método científico 

 

Quer saber mais?

CONTATOS
Escola Arco-Íris
, R. Mendes Martins, 92, 50741-040, Recife, PE, tel. (81) 3271-2485
Espaço Ciência, Complexo de Salgadinho, s/no, Parque 2, 53111-970, Olinda, PE, tel. (81) 3424-8704

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