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O que acontece na sua escola com as novas competências?

Saiba como as propostas vão transformar gestão, formação de professores, avaliação e PPP

Autor: Sarah Fernandes e edição Rosi Rico

As dez competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) são um conjunto de conhecimentos, habilidades, valores e atitudes que buscam promover o desenvolvimento dos estudantes em todas as suas dimensões: intelectual, física, social, emocional e cultural. Mas, para o aluno ser capaz de exercer plenamente todas elas, não bastam práticas em sala de aula. Elas demandam a incorporação de mudanças nos vários âmbitos da escola.

Gestão, formação de professores, processos de avaliação e o próprio projeto político-pedagógico (PPP) são pontos que deverão ser repensados para que tudo esteja alinhado com os princípios da BNCC. A autonomia, por exemplo, é uma capacidade em destaque no documento, então, necessita ser vivenciada também no cotidiano escolar. “Estudos internacionais mostram que o estudante que desenvolve criatividade, cooperação, autoconhecimento e resiliência está mais preparado para construir relacionamentos, continuar estudando, ter renda estável e cuidar da sua saúde,” afirma Simone André, gerente-executiva de Educação do Instituto Ayrton Senna

Atenção coordenadores: formação é fundamental
Para trabalhar com as competências gerais, o professor também terá que desenvolvê-las em si mesmo, além de rever posturas, atitudes e comportamentos para que possa ensinar pelo exemplo. Também necessita refletir sobre quais aspectos de sua disciplina contribuem para o desenvolvimento dessas dez competências e incluí-los, com intencionalidade, no planejamento das aulas. Isso não deve ser feito de maneira isolada. A parceria com a coordenação pedagógica e com os demais docentes é fundamental para que possa trabalhar de forma complementar e reavaliar conjuntamente suas práticas pedagógicas. Para saber mais, leia a edição de NOVA ESCOLA sobre trocas entre pares (só para assinantes):  

Para isso, é importante que escolas e redes de ensino elaborem um plano de capacitação com formatos diversificados. “A formação fora da escola, com especialistas, é um modelo importante, mas ele precisa ser completado por outro horizontal, onde os professores troquem conhecimento entre si”, diz Simone.

Uma sugestão é o docente assistir a aula do colega e dar a ele um parecer. Outra opção é ter nas escolas um professor-coordenador por área de conhecimento que sirva de apoio aos demais. Os dois tipos demandam maturidade e abertura para receber e fazer críticas e sugestões, o que acaba sendo um exercício coerente para quem precisará estimular o mesmo entre crianças e jovens.

“O professor é mentor, mediador e facilitador dos estudantes no desenvolvimento das competências. Ele entra no lugar de parceiro do aluno e para isso tem que ser suportado por formação e materiais de apoio. Como vai seguir as competências que valorizam cooperação, criatividade, orientação de projetos de vida se não praticar isso na escola?”, questiona Simone.

Gestão democrática ganha espaço
Na gestão escolar, diretores e coordenadores pedagógicos necessitam analisar e debater o que, dentro da instituição, já colabora para desenvolver as competências gerais e o que terá de ser modificado – tanto em termos de infraestrutura quanto de cultura, práticas e projetos.

Uma das competências prevê, por exemplo, a utilização de tecnologia em todos os componentes curriculares. A escola está preparada? Se não estiver, cabe ao diretor verificar os caminhos para tornar isso possível. “Os banheiros estão limpos e os brinquedos e espaços bem cuidados? Isso também é importante quando falamos de respeito”, diz Tereza Perez, diretora-presidente da Comunidade Educativa Cedac, mencionando outro valor exigido.

O gestor que está mais voltado para questões administrativas terá de assumir com ênfase seu papel de liderança pedagógica, afinal a Base propõe um modelo de ensino no qual o estudante tem grande protagonismo e o clima escolar e as relações humanas merecem atenção especial (Leia mais: Como o coordenador pedagógico pode ser o melhor formador de professores). 

Nessa perspectiva, espaços de convivência ganham relevância, o que não combina com salas de leitura, bibliotecas e laboratórios fechados. “Muitas vezes, colocar isso em funcionamento não exige grandes investimentos em infraestrutura, mas sim ajustes em limpeza e manutenção”, diz Simone.

Será necessário criar espaços de diálogo e debate de ideias, construir um ambiente acolhedor – como a instituição de ensino trabalha para combater preconceitos e evitar a violência? – e estabelecer mediação de conflitos. Há várias maneiras de envolver os estudantes. Convide-os a participar da elaboração de regras de convivência e mesmo na tomada de decisões para resolver questões da escola. Essa autonomia pode ser gradual, de acordo com a faixa etária. (Leia mais: Como os alunos podem mediar conflitos)

Como avaliar desenvolvimento social
Para Anna Penido, diretora-executiva do Instituto Inspirare, ainda é cedo para oferecer sugestões prontas de avaliação tendo em perspectiva as competências gerais. Mas uma coisa é certa: serão necessárias mudanças para avaliar questões que têm mais relação com desenvolvimento do que com absorção de conteúdo.

Quaisquer que sejam as propostas, elas devem estar mais alinhadas com a avaliação formativa ou contínua, em que a aprendizagem é examinada constantemente, por meio das atividades realizadas em aula, como autoavaliação, observação, produções, comentários, criações e trabalhos em grupos. Essas abordagens permitem acompanhar o desenvolvimento das competências, identificar dificuldades e planejar práticas específicas para permitir que todos avancem. Ao colocar a avaliação a serviço da aprendizagem, e não como mecanismo de punição ou recompensa, a escola alinha sua prática com o princípio de equidade, central na BNCC. (Leia mais: Como fazer avaliação processual e acompanhar o desenvolvimento dos estudantes). 

A Base trata também de como o conhecimento adquirido pelo estudante será utilizado. “Se a avaliação for apenas para mensurar o quanto eu aprendi de matemática, esse processo comunica que o importante é a nota. Na proposta das competências, o que deve ser considerado é como eu vou usar a matemática para meu projeto de vida, para resolver problemas ou para meu autoconhecimento”, exemplifica Simone.

PPP deve refletir princípios da BNCC
É neste documento que a escola registra seus objetivos e os meios que pretende utilizar para alcançá-los. Ele abrange currículo – que deverá conter as aprendizagens essenciais previstas na BNCC –, a definição das metodologias de ensino da instituição e os recursos disponíveis. Em sua construção também precisam ser considerados o contexto local e a relação entre todos os atores da comunidade escolar.

O PPP é um instrumento fundamental para planejar e compartilhar com professores, pais e estudantes como a escola vai incorporar os princípios propostos pela BNCC no seu dia a dia. “Se ele prevê que a aula de português seja apenas para a fixação de regras de gramática isso não será suficiente para formar alunos na perspectiva integral da Base. Agora, se a disciplina se voltar para a construção de sentido pela linguagem ela poderá trabalhar e desenvolver uma série de competências”, defende Simone. “Os professores precisarão ter pautas conjuntas de trabalho”, defende Amábile Mansutti, coordenadora técnica do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

Uma estratégia para que a equipe escolar se aproprie da BNCC é convidar todos a participar ativamente da readaptação do currículo e do PPP. Nesta reportagem, sugestões sobre como revisar o documento.

Navegue pelas competências da BNCC: 

1- Conhecimento

2- Pensamento científico, crítico e criativo

3- Repertório cultural

4- Comunicação

5- Cultura digital

6- Trabalho e projeto de vida

7- Argumentação

8- Autoconhecimento e autocuidado

9- Empatia e cooperação

10- Responsabilidade e cidadania

Para saber mais sobre a BNCC, leia nossa edição especial (só para assinantes):

Imagem de capa da revista Nova Escola número 309