Coloque a turma para correr

Apresente a corrida e suas variações aos jovens e discuta questões de saúde

POR:
Elisângela Fernandes
Natalia Gonçalves planejou vivências de corrida em ruas do entorno da escola. Patricia Stavis Natalia Gonçalves planejou vivências de corrida em ruas do entorno da escola Ao praticar a corrida de obstáculos, os alunos tinham de desviar de barreiras ou pulá-las. Patricia Stavis Ao praticar a corrida de obstáculos, os alunos tinham de desviar de barreiras ou pulá-las Duplas foram formadas para realizar a corrida de revezamento. Era só bater na mão do colega e correr. Patricia Stavis Duplas foram formadas para realizar a corrida de revezamento. Era só bater na mão do colega e correr A corrida de longa distância aconteceu em torno de um canteiro durante dez minutos. Patricia Stavis A corrida de longa distância aconteceu em torno de um canteiro durante dez minutos Para o tiro rápido, Natalia cronometrou o tempo dos alunos para correr 100 metros. Patricia Stavis Para o tiro rápido, Natalia cronometrou o tempo dos alunos para correr 100 metros

Foi só a professora Natalia Gonçalves aparecer usando camisetas de provas de corrida na EMEF Professor Roberto Plínio Colacioppo, na capital paulista, para que a garotada demonstrasse curiosidade sobre o esporte. Embora comum entre moradores do entorno, ele ainda não tinha sido abordado nas aulas de Educação Física. Dado o interesse da turma e a validade do conteúdo, a educadora desenvolveu uma sequência didática para os alunos do 6º e 8º anos.

De início, ela propôs desafios - como agachar, saltar e depois atravessar a quadra correndo - para fazer um diagnóstico. "Muitos tropeçavam, não tinham fôlego, não elevavam as pernas e corriam na ponta dos pés", diz. Em seguida, ela convidou a classe a aprender mais sobre o esporte e orientou o uso de tênis. Caso alguém precisasse, poderia calçar um par do acervo da escola.

Hora de correr. Natalia planejou para que meninos e meninas praticassem e cuidou para que os limites de todos fossem respeitados. Dessa forma, poderiam experimentar o esporte sem medos. Confira as modalidades vivenciadas.

- Corrida de revezamento A turma foi dividida em duplas e cada integrante ficou em uma extremidade da quadra. Um deveria correr até o colega, entregar-lhe um objeto ou bater na mão dele e este deveria correr até a outra ponta.

- Corrida de obstáculos Bambolês, cones e plintos (aparelhos de ginástica para saltos) foram espalhados pela quadra e os estudantes também serviram como barreiras. Para correr com velocidade e não tocá-las, a turma aprendeu a desviar delas e a separar as pernas e elevá-las ao máximo ao pular. Natalia e os alunos cuidaram para que a altura de alguns obstáculos fosse diminuída. Assim, Lucas Martins, 14 anos, que tem um comprometimento motor leve devido a paralisia cerebral, pôde participar.

- Corrida na subida e na descida O objetivo era experimentar correr em terrenos inclinados. Natalia aproveitou áreas de pouco movimento do entorno da escola e levou a garotada para a rua (com autorização dos pais).

- Corrida de longa distância Novamente na rua, a educadora orientou os alunos a correr em volta de um canteiro por dez minutos no ritmo em que quisessem. Muitos aceleraram ao máximo no início e se cansaram logo. "Eles aprenderam que o mais adequado para completar uma prova como essa é manter um ritmo regular. Natalia também problematizou o sprint (maior velocidade possível atingida por um corredor em alguma etapa da corrida, em especial no fim).

- Corrida de curta distância ou tiro rápido Com o cronômetro na mão, a professora marcou o tempo de cada estudante em uma série de três tiros de cerca de 100 metros. "A ideia era que eles refletissem sobre a aceleração em um espaço pequeno e como diminuir o tempo."

- Corrida em circuito Todos foram convidados a cumprir desafios em série. A atividade consistia em correr na grama e em um terreno com pedregulhos, pular bancos e desviar de cones.

As escolhas de Natalia foram interessantes porque contemplaram diversos estilos, e a turma foi estimulada a analisar as particularidades de cada um. As vivências do tiro e da corrida de longa distância, por exemplo, fizeram a classe pensar nos tipos de esforço. "Para espaços curtos, é preciso usar força a fim de obter a maior velocidade possível. Nas provas mais longas, o corredor tem de dosar o esforço para concluir o percurso", diz Osmar de Souza Júnior, professor da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

A educadora organizou sessões de vídeo para os jovens observarem os profissionais em provas, como a Corrida Internacional de São Silvestre. Para complementar o trabalho, Souza Júnior recomenda orientar os estudantes a pesquisar o tema. O site da Confederação Brasileira de Atletismo tem até uma área específica para tratar da prática escolar.

Correr sem descuidar da saúde

Antes de cada aula, os alunos alongavam por dez minutos, fazendo movimentos como o afundo (um tipo de agachamento). "Gestos que simulam a corrida, quando feitos isoladamente, lubrificam as articulações e estimulam os músculos utilizados no esporte", diz André Lucas Somerfeld, personal trainer.

Outra intervenção de Natalia foi pedir que os estudantes observassem o próprio jeito de correr e o dos colegas. A turma notou, por exemplo, que muitos corriam em superfícies planas apoiando só o calcanhar. Esse é um erro comum, segundo Somerfeld. Ele diz que os tênis funcionam como muletas: amortecem a pisada e, por causa dessa ajuda, em superfícies planas, a tendência é apoiar primeiro (ou às vezes somente) o calcanhar, o que pode acarretar lesões. Com base nisso, Natalia problematizou a pisada. "Expliquei ainda que na descida é preciso apoiar a ponta do pé, depois a planta e, por último, o calcanhar. Isso dá equilíbrio ao corpo. Na subida, fazer o rolamento do calcanhar até os dedos", diz ela. Outra maneira para trabalhar a questão é propor que os alunos corram descalços e, em seguida, de tênis, em uma superfície plana, observando a pisada. Ao correr descalço, a tendência é apoiar do meio do pé para a frente e depois os dedos. "Esse é um meio de proteção, pois o impacto com o chão é alto. Devemos fazer assim de tênis", diz Somerfeld.

No decorrer da sequência, Natalia tomou nota das dúvidas da turma. Algumas foram enviadas por e-mail para Somerfeld, que orienta os treinos dela. As respostas dele foram analisadas coletivamente e afixadas no mural da escola. As demais, a própria educadora solucionou no decorrer das aulas. "Conversamos sobre questões que envolvem raça, gênero e perfil socioeconômico dos corredores", diz ela. Foram discutidos, por exemplo, o destaque dos negros nas competições e o perfil democrático do esporte - não é necessário gastar muito dinheiro para praticá-lo.

Os alunos ainda concluíram que chegar em primeiro lugar nem sempre é o objetivo dos praticantes. Muitos correm para superar limites, diminuir o tempo ou aumentar a distância percorrida. No caso da turma, cruzar a linha de chegada significou aprender mais.

1 Aprender a correr Proponha alguns desafios, como correr, saltar e correr novamente, e observe como os alunos fazem. Analise os erros mais comuns para ser discutidos e trabalhados durante a sequência e convide a turma a conhecer algumas modalidades de corrida.

2 Praticar vários estilos Planeje aulas para vivências de corrida de revezamento, de obstáculos, na subida e na descida, de tiro rápido, de longa distância e em circuito. Promova sessões de vídeo para os alunos analisarem como os profissionais correm e oriente pesquisas sobre o esporte.

3 Observar o jeito de correr Durante a prática, oriente os alunos a observar o próprio desempenho e o dos colegas e chame atenção para aspectos de saúde, como o modo adequado de pisar conforme a inclinação do terreno.

4 Pensar sobre o esporte Discuta questões que relacionem a corrida a raça, gênero e perfil socioeconômico dos corredores. Também questione os jovens sobre os motivos que levam as pessoas a investir na prática.

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