Como trabalhar a escrita de contos de terror com os alunos

Histórias de terror entram em sala de aula e dão aos alunos a possibilidade de trabalhar com esse gênero, cheio de mistério e suspense

POR:
Bianca Bibiano, Thais Gurgel, NOVA ESCOLA
Foto: Meireles Jr.
NOVOS AUTORES Contos dos alunos do 6º ano da Escola Crescimento foram para o acervo da biblioteca. Fotos: Meireles Jr.
Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10

Não leia esta reportagem se você evita as histórias de terror. Pare imediatamente, pois ela pode causar arrepios. Este é o último aviso. Se prosseguir, por seu próprio risco, é porque sabe que o suspense e o medo típicos desse gênero são cativantes. Narrativas envoltas em uma aura de mistério, criaturas assustadoras e o uso eficaz de um dos sentimentos mais antigos - o medo - garantem a esse gênero uma legião de fãs, conduzidos por mestres como Edgar Allan Poe (1809-1849), Clive Barker e Stephen King. Entre a realidade e referências folclóricas, eles criaram textos que refletem a sociedade e seus maiores pavores - fundamentados ou não.

Além desse estilo característico, o terror também tem outras marcas que o distinguem. Costurando ações, personagens e ambientes, os autores transportam o leitor para o que pode ser chamado de transgressão, como explica Heloísa Prieto, escritora e doutora em Literatura pela Universidade de São Paulo (USP). "Por meio de recursos linguísticos, como a construção detalhada das descrições espaciais, os textos deixam o leitor o mais a par possível da história para, logo em seguida, estabelecer um momento de ruptura, no qual nada mais é conhecido e eventos novos ocorrem sem que o leitor possa prever", explica.

A atração que o gênero provoca vem de longa data. "Os primeiros instintos e emoções do homem foram sua resposta ao ambiente. O medo é uma reação ao desconhecido e deixa em estado de alerta mesmo quando a pessoa está diante de um assombro", explica Howard Phillips Lovecraft (1890-1937), famoso escritor norte-americano de obras de terror que tinha como marca o uso da primeira pessoa para narrar suas histórias.

Ciente do apelo do tema entre os alunos, a professora de produção de texto Maria das Dores de Macedo Coutinho Raposo resolveu levar a temática para a sala de aula (leia o quadro abaixo). Os alunos do 6º ano da Escola Crescimento, em São Luís, já haviam estudado outros gêneros, entretanto, ela ainda sentia que os textos não avançavam. "Eles ficavam presos ao que achavam que eu queria e não conseguiam transmitir a criatividade que tinham para o papel", lembra.

Além de definir qual estilo de narrativa trabalhar, ela também desenvolveu um projeto que combinava a leitura de textos de referência, clássicos e modernos, com a escrita dos estudantes. Deu tão certo que lhe garantiu o Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10 e uma seleção de textos digna de escritores renomados. "O diferencial desse trabalho é o encontro eficaz da leitura com a escrita. A professora consegue ensinar o aluno a buscar subsídio para sua criação em textos do gênero", aponta Claudio Bazzoni, assessor da Prefeitura de São Paulo e selecionador do Prêmio.

Escrita de arrepiar

Foto: Meireles Jr.
NOVOS CONCEITOS Apresentando textos de referência, Maria das Dores obteve produções cada vez melhores

Maria das Dores de Macedo Coutinho Raposo nasceu há 35 anos em Balsas, a 793 quilômetros de São Luís, mas mudou para a capital do Maranhão ainda criança. Há 12 anos, ela atua na Escola Crescimento como professora de produção de texto. Inconformada com a dificuldade que tinha para melhorar a escrita dos alunos, ela fez cursos de formação e entrou em grupos de estudo que ajudaram a rever suas ações e desenvolver o projeto de contos de terror. A referência foi o material que chamou de "pautas de produções", com o qual se preparava. "Com elas, planejo melhor minhas intervenções", conta.

Objetivo
Com os contos de terror, Maria das Dores queria que os alunos do 6º ano produzissem textos de qualidade e, para isso, começou com o reconhecimento do estilo. Usando obras de referência e ajudando a turma a diferenciar o terror dos outros gêneros, ela definiu objetivos específicos que possibilitassem o avanço geral. "Usar o foco narrativo corretamente, criar momentos de suspense, adequar situações iniciais, problemáticas e finais ajudou todos a se situar de forma mais efetiva", explica.

Passo a passo
Depois de mostrar aos alunos o caminho a ser percorrido, a professora os levou a identificar o gênero: leituras guiadas ajudaram a perceber o que diferenciava o terror de um conto de fadas, por exemplo. A turma, então, partiu para as escritas parciais sem deixar as leituras de referência, que permearam todo o trabalho. Depois, veio a produção final, que começou com a definição da estrutura a ser seguida - um "esqueleto" dos contos, composto de situações iniciais, problemáticas e do fim. "Isso permitiu delinear o texto que seria produzido", explica. Para finalizar, foram feitas correções coletivas para a troca de ideias e a indicação de novos rumos. "Essa parte foi essencial porque consegui notar o avanço de todos e a busca por mais qualidade, que antes era uma cobrança só minha", observa.

Avaliação
Com pautas e esquemas de produção, Maria das Dores pode observar o avanço da classe. Além disso, ela compartilhou o momento de revisão, possibilitando que todos observassem os próprios erros ao ler e revisar o texto dos colegas. Ela também se valeu de um portfólio com o percurso de cada um. "Esses instrumentos me possibilitaram avaliar de onde partimos e aonde queríamos chegar. Com pausas estratégicas nos momentos de maior dificuldade, consegui resultados acima do esperado", conclui.

Não basta ser assustador para ser um conto de terror

Foto: Meireles Jr.
PRODUÇÃO REVISADA Momentos de leitura com colegas e a professora ajudam a detectar problemas

Nem toda história que tenha cenas de suspense, monstros e seres fantásticos pode ser considerada literatura de terror. É preciso mostrar marcas que se apresentam exclusivamente nesse gênero, como a ausência de desfechos felizes. "Em um conto de fadas, também vemos momentos de crise, com as bruxas, por exemplo, mas desde o começo da leitura já sabemos que o fim será tranquilo. Enquanto isso, no terror existe a perda, a morte, e o encerramento pode só aumentar a tensão porque nem sempre a causa do medo se esclarece", explica Heloísa.

Outra ressalva a fazer: a questão moral, sempre presente nessas histórias, merece uma reflexão após a leitura. "O personagem entra num mundo cheio de terror e medo porque passou por cima de algum conselho ou determinação. É a famosa frase: 'A única porta que você não pode abrir é essa', que dá a deixa para a violação das regras e para o começo de todos os perigos", completa a escritora.

Por causa dessas questões, é importante levar em consideração a faixa etária dos alunos. "Não existe uma idade específica para esse trabalho, porém os de 5º e 6º ano têm maturidade e repertório suficientes para adentrar nesse universo com mais profundidade", afirma Bazzoni. Heloísa concorda, pois acredita que as crianças, nessa fase, começam a perceber a sociedade e os aspectos mais sombrios dela, sendo conquistadas por narrativas que trazem à tona seus temores. "Não é uma questão de expô-las ao medo, mas de discutir o que, por muitas vezes, é incompreensível e mostrar como isso pode ser retratado na literatura", observa.

Mesmo quem não gosta de sustos pode escrever terror

Foto: Meireles Jr.
TROCA DE IDEIAS A leitura atenta dos colegas aponta caminhos para melhorar a qualidade dos contos

Na turma da Maria das Dores, nem todos gostavam do gênero terror. Contudo, isso não impede de trabalhar o conteúdo (le­ia a sequência didática). "Muitas vezes, a criança é mais cética e se adapta bem a outros gêneros, como a paródia do terror", explica Heloísa.

O estilo a que a autora se refere ficou conhecido no Brasil principalmente pelos filmes de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. "Esse terror exagerado, que não deixa o medo de lado, mas extrapola as dimensões da realidade, pode ser uma saída ao aluno que não se deixa levar pelo clima de mistério", conclui.

Tanto o humor quanto o terror têm em comum a característica de colocar o personagem diante de situações ridículas, sejam cômicas ou assustadoras. Essa é a deixa para você ajudar os estudantes a "perder o medo do medo".

Uma questão-chave é o uso de características específicas dos contos, como os advérbios, que podem tomar muito tempo. Uma saída é trabalhá-las com foco no texto. "O professor pode preparar versões dos contos sem, por exemplo, os substantivos, ou sem os advérbios, e refletir com a turma sobre o que ocorre com o sentido da narrativa", orienta Bazzoni.

Outra dica é levar para a sala filmes com adaptações de obras literárias. Mostrar como a descrição presente no texto influencia a criação da atmosfera da história, e outros recursos que o autor e o cineasta usam, ajuda os estudantes.

O sucesso dos contos foi tanto que Maria das Dores optou por antecipar a produção. "Agora, os alunos começam a escrita logo que têm contato com os textos de referência e vão melhorando, construindo e desconstruindo suas histórias conforme o desenrolar do projeto."

Quer saber mais?

CONTATOS
Cláudio Bazzoni
 
Escola Crescimento
Maria das Dores Coutinho Raposo
Sandra Medrano

BIBLIOGRAFIA
Histórias para Não Dormir
, Luiz Roberto Guedes (org.), 152 págs., Ed. Ática, tel. (11) 0800-115152, 22,90 reais
O Horror Sobrenatural em Literatura, H. P. Lovecraft, 160 págs., Ed. Iluminuras, tel. (11) 3031-6161, 38 reais

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