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Nem heróis nem vilões. Mostre ao 7º e ao 8º ano que a descrição dos bandeirantes depende da intenção do narrador

POR:
Ana Rita Martins

Um herói. É esse o modelo que transpira da pose altiva, do olhar penetrante, das armas novas e da roupa impecável do bandeirante Domingos Jorge Velho, retratado por Benedito Calixto na pintura que ilustra esta página. Mas o desbravador não era branco, e sim mameluco, fruto da mestiçagem entre portugueses e índios. Usava tão bem o arcabuz, sua arma de fogo, quanto o arco e a flecha, que aprendeu a manusear com os nativos. Falava mais tupi do que português, como a maioria dos paulistas. E ainda tinha sete esposas índias. Uma realidade, portanto, mais próxima da recriação da página ao lado (veja o quadro abaixo).

Essa contraposição pode ser útil para apresentar a visão crítica da História ao 7º e ao 8º ano (leia a seqüência didática no quadro da página 69). "Basicamente, trata-se de mostrar que existem várias maneiras de narrar os fatos, e que cada uma delas carrega interesses de pessoas que optaram por recortar a realidade de uma forma específica", explica Manuel Pacheco Neto, autor de duas teses sobre os bandeirantes. Em um desses trabalhos, ele investigou a forma como os desbravadores foram descritos em coleções de livros didáticos publicados entre 1894 e 2006. "Muitas vezes, encontrei nas obras escolares o mesmo tom triunfalista da pintura de Calixto, com os bandeirantes aparecendo como indivíduos corajosos e patrióticos, que tinham como objetivo expandir o território nacional. Esse tipo de ocorrência diminuiu na produção dos últimos 20 anos, mas ainda existe", diz ele. Por isso, é importante que o professor intervenha para questionar essa interpretação cristalizada no senso comum.

Um mito criado por paulistas
Comece contando como nasceu essa visão romantizada, explicando que os bandeirantes viraram heróis por causa de motivações políticas específicas no início do século passado. Com a proclamação da República, em 1889, os cafeicultores paulistas se tornaram, a um só tempo, a elite econômica e política do país até o fim da década de 1920. Nesse ambiente, o mito do bandeirante corajoso caiu como uma luva para um grupo que precisava se afirmar como líder. "O sertanista paulista serviu como sugestão histórica de que o poder deveria emanar de São Paulo, já que seu povo seria descendente de comandantes natos", afirma a historiadora Luíza Volpato, especialista no tema.

Aqui, o bandeirante ideal. Ali, o real

QUADRO CLÁSSICO Domingos Jorge Velho e o Loco-tenente Antônio Fernandes Abreu, de 1903, é idealização do pintor. Ilustração: Reprodução Hélio Nobre
 

APARÊNCIA MAJESTOSA
O bandeirante aparece como homem imponente e altivo, de olhar severo. A inspiração são as representações majestosas dos quadros de Rigaud, pintor que se consagrou representando o rei francês Luís XIV.

PELE CLARA
Os dois sertanistas do quadro de Benedito Calixto são brancos, traços tipicamente europeus. A cor também remete à elite paulista, que no início do século passado quis se associar à imagem dos desbravadores.

FÍSICO ROBUSTO
O retrato mostra um desbravador opulento, forma pouco provável para um homem que se embrenhava na selva. A silhueta avantajada se justifica porque essa é a representação típica dos ricos da época.

TRAJE DE GALA
Impecavelmente alinhados, o chapéu, a baeta (manta), a calça, a camisa e as botas eram um vestuário urbano, geralmente utilizado em festas religiosas - jamais durante expedições no meio da mata.

PAISAGEM FANTÁSTICA
A mata aberta é uma licença poética do pintor para mostrar a serra onde ficava o Quilombo dos Palmares, reduto de escravos fugidos que o bandeirante Domingos Jorge Velho dizimou numa expedição.

ARMAS DA BATALHA
A faca do quadro é muito fina, inadequada para a tarefa de cortar as folhas e abrir caminho na mata fechada. A arma de fogo, um arcabuz, é uma das poucas coisas que correspondem à realidade.

O SUBALTERNO
Com a intenção de destacar ainda mais a figura de Domingos Jorge Velho, o pintor aparece atrás do sertanista. Como o líder da bandeira, ele também tem pele de cor clara.

NOSSA RECRIAÇÃO A ilustração retrata os sertanistas segundo a descrição de documentos históricos. Ilustração: Éber Evangelista
NOSSA RECRIAÇÃO A ilustração retrata os sertanistas segundo a descrição de documentos históricos. Ilustração: Éber Evangelista
 

QUADRO CLÁSSICO 
Domingos Jorge Velho e o Loco-tenente Antônio Fernandes Abreu, de 1903, é idealização do pintor. Reprodução Hélio Nobre

APARÊNCIA CANSADA 
Aqui, o bandeirante surge sem a imponência forçada retratada por Benedito Calixto. Ao contrário: na casa dos 60 anos e desgastado pelas expedições e combates na mata, parece cansado e abatido.

PELE MORENA 
Documentos indicam que os sertanistas eram produto da mestiçagem - a maioria deles era de mamelucos. Por isso, a ilustração mostra uma pele morena, com traços indígenas e envelhecida pelo sol.

FÍSICO RAQUÍTICO 
Nada de gorduras corporais: acostumados a longas caminhadas, os bandeirantes eram magros. Em alguns casos, quase desnutridos: na selva, comiam pouco e, não raro, passavam fome.

ROUPA VELHA 
Botas eram artigo de luxo: os desbravadores andavam descalços, usavando chapéu e colete de couro de anta para se protegerem das flechas. Colares e penas índigenas se misturavam a crucifixos.

PAISAGEM DRAMÁTICA 
A visão mais comum para os desbravadores era um mar de árvores, que tinha de ser aberto a golpes de facão. Além disso, os expedicionários ficavam sujeitos a todas as dificuldades e perigos da vida selvagem.

AS ARMAS DA BATALHA 
Apesar de usarem arma de fogo e escudo, os bandeirantes incorporaram influências dos nativos no armamento. Por serem simples de construir e muito eficazes, arco e flecha eram muito presentes.

O COMPANHEIRO 
O índio - que, além de mostrar os caminhos, era o responsável pela alimentação - aparece aqui ao lado do bandeirante, reforçando a idéia de parceria que nem sempre é mencionada nos livros didáticos.

Na virada do século 20, o que era sugestão virou política pública. A partir de 1903, o governo paulista começou a destinar verba pública a obras de arte que apoiassem a concepção mítica dos bandeirantes - naquele ano surgiram quadros como o de Calixto, por exemplo. Como boa parte dos historiadores "comprou" essa visão engrandecedora dos desbravadores, foi assim que eles figuraram nos livros por muito tempo.

Nas últimas duas décadas, a análise cuidadosa dos registros de época ajudou a contar outra versão dos fatos. Já há consenso entre os historiadores, por exemplo, sobre os objetivos principais das bandeiras dos séculos 17 e 18. Longe de buscar conscientemente a ampliação do território em nome de um suposto nacionalismo, o que os desbravadores tinham como meta era buscar metais preciosos e aprisionar índios. Depois de capturados, os nativos eram vendidos para trabalhar nos canaviais do Nordeste ou usados como mão-de-obra particular dos paulistas. No seu encalço, os sertanistas andavam enormes distâncias mata adentro - Raposo Tavares, por exemplo, percorreu 12 mil quilômetros durante três anos (leia o quadro acima).

Isso tudo seria impossível se os bandeirantes não tivessem a ajuda dos índios, que acompanhavam os paulistas em suas andanças ou até colaboravam na captura de membros de suas próprias tribos (é importante ressaltar esse fato como exemplo de que personagens históricos são figuras complexas e até contraditórias, traços que acabam escondidos quando se ensina História por generalizações). Foram os indígenas que guiaram os sertanistas pelas trilhas desconhecidas e os ensinaram a andar descalços. "Eles mostraram uma pisada específica que evitava lesões e possibilitava percorrer distâncias maiores. A própria descoberta de ouro em Cuiabá foi feita não por bandeirantes, mas por dois índios coletores de mel", explica Pacheco Neto.

Objetivos X conseqüências

Com viagens tão longas, era quase inevitável que os sertanistas acabassem aumentando o território da colônia ao desrespeitar o Tratado de Tordesilhas, acordo firmado por Portugal e Espanha em 1494 para delimitar a extensão de terras que cabia a cada país. "Os sertanistas contribuíram, sim, para o estabelecimento das dimensões territoriais do Brasil atual, mas foram movidos pelo desejo de sobrevivência. Como naquela época a ocupação dava o direito sobre a terra, os bandeirantes acabaram fazendo um favor a Portugal mesmo sem ter esse intuito", diz o historiador John Monteiro, da Universidade Estadual de Campinas.

 Expedições que desbravaram um país

Ilustração: Éber Evangelista
Ilustração: Éber Evangelista
 

As bandeiras que mais impactaram a história foram as que alargaram o território brasileiro, apresaram uma quantidade significativa de índios ou descobriram ouro - essas últimas responsáveis pelo deslocamento de grupos que se concentravam no litoral. A maioria foi fruto de ações particulares, não apoiadas pela coroa portuguesa. No mapa à esquerda, estão representadas oito grandes bandeiras, todas realizadas nos séculos 17 e 18. Em termos de distância percorrida, a mais impressionante foi a liderada por Antonio Raposo Tavares (no mapa, em vermelho), que de 1648 a 1651 percorreu 12 mil quilômetros de São Paulo à região de Gurupá, no atual Pará, para capturar indígenas. Tavares, aliás, foi provavelmente o bandeirante mais experiente. Entre 1628 e 1633, ele comandou, junto com Manuel Preto, uma incursão no atual Paraná (em rosa) para destruir missões jesuíticas em Guairá. Com o mesmo objetivo de capturar índios, Fernão Dias se embrenhou pelo atual Rio Grande do Sul, em direção a Tape (bandeiras ilustradas em azul e verde).

A revisão histórica também jogou luz sobre a brutalidade dos desbravadores. A visão vem sobretudo dos registros históricos feitos por jesuítas que assistiram as matanças. Os religiosos relatam que, quando chegavam ao seu destino - geralmente, missões jesuíticas apinhadas de índios -, os sertanistas faziam ataques-surpresa e matavam uma enorme quantidade de indígenas apenas para causar terror e evitar que os remanescentes resistissem. Decapitações e esquartejamentos eram estratégias comuns. O jesuíta Antonio Ruiz de Montoya descreveu com horror uma dessas invasões: "(Eles) entraram a som de caixa e em ordem militar nas duas reduções de Santo Antônio e São Miguel, destroçando índios a machadadas. Os pobres dos índios com isso se refugiaram na igreja, onde os matavam - como no matadouro se matam vacas -, tomaram por despojo as modestas alfaias litúrgicas e chegaram mesmo a derramar os santos óleos pelo chão".

Relativizar os rótulos

Por mais que a narrativa seja chocante, é papel do professor relativizá-la, mostrando como ela está impregnada da emoção típica do testemunho em primeira pessoa e do interesse dos jesuítas em demonizar os sertanistas, apesar de alguns religiosos terem até participado de bandeiras. A visão crítica da História nos ensina que não devemos julgar nem bandeirantes nem jesuítas pelos parâmetros de hoje, mas entendê-los como indivíduos sujeitos às condições de sua época. Encarar esses personagens como mocinhos ou vilões rouba-lhes a verdade histórica e a única riqueza que talvez tenham conquistado - já que, segundo os testamentos da época, comprovou-se que a maioria morreu pobre : a de ter lutado por interesses próprios e, por acaso, ajudado a traçar a história de um país.

Quer saber mais?

CONTATOS
Daniel Vieira Helene
John Monteiro

Luíza Rios Ricci Volpato
Manuel Pacheco Neto

BIBLIOGRAFIA
Motricidade e Corporeidade no Brasil Colonial: Bandeirantes
, Índios e Jesuítas, Manuel Pacheco Neto, 154 págs., Ed. Seriema, tel. (67) 3422-4664, 25 reais

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