Aumenta o número de países democráticos na África

Em dez anos, subiu de 11 para 48 o número de países africanos democráticos. Esse avanço fez com que alguns países começassem a atuar com maior desenvoltura no cenário mundial e a negociar questões de seu interesse

POR:
Ana Rita Martins
Foto: Issouf Sanogo/AFP
A NOVA SERRA LEOA Depois de sofrer quatro
golpes de estado, o país realiza, desde 2002,
eleições diretas. Foto: Issouf Sanogo/AFP
Aos poucos, ditaduras africanas violentas e corruptas têm dado lugar a regimes democráticos (veja o mapa na página 3). Fatores internos - como os processos de independência, a organização de partidos e a pressão de movimentos populares - levaram em muitos casos a reformas políticas. "Foi baseado nelas que alguns países puderam realizar eleições multipartidárias e buscar a solução de conflitos políticos pela via institucional. Esse processo, entretanto, foi lento, sofrido e, muitas vezes, permeado por guerras civis", explica Pio Penna Filho, professor de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP).

Foi o caso de Serra Leoa. O país se tornou independente dos britânicos em 1971 e, por sete anos, viveu sob uma república presidencialista de partido único. Depois disso, passou por quatro golpes de estado - o último deles, em 1996, derrubou o primeiro presidente eleito. A luta pelo poder desencadeou uma guerra civil, que durou dez anos e contabilizou 50 mil mortos. Somente em 2001 foi selado um acordo de paz que permitiu a realização de eleições diretas, em 2002. Desde então, a situação é de estabilidade.

Alternância de poder é sinal de consolidação democrática

A democracia, no sentido mais amplo, é um valor africano anterior ao período colonial. O historiador burquinense Joseph Ki-Zerbo (1922-2006) destaca no livro Para Quando a África? que em muitas sociedades tradicionais era comum a família votar quanto às decisões que a afetassem. Vêm de longe também, de acordo com ele, os conflitos étnicos, que seriam antes de tudo contendas sociais. Alguns grupos, que foram privilegiados economicamente na época da colonização, depois acabaram formando partidos. "Não querendo partilhar o poder, formaram regimes monopartidários. Isso, no entanto, tem mudado e a diversidade de legendas é politicamente saudável", afirma Leila Leite Hernandez, especialista em História da África Contemporânea e professora do Departamento de História da USP.

Cabo Verde, independente de Portugal desde 1975, teve apenas um partido político até 1990. Com a aprovação da Constituição, em 1992, o sistema passou a ser pluripartidário. E o mais positivo é que não há hegemonia de nenhuma corrente. O segundo turno das eleições presidenciais de 2006 foi acirrado: o vencedor teve só 2% de vantagem sobre seu adversário.

A solidez de uma democracia também está relacionada à alternância de poder. Independente dos britânicos em 1957, Gana viveu golpes militares intercalados por breves governos civis. Só em 1992, com a aprovação de uma constituição, foram permitidos partidos de oposição. Em 2001, a chegada da oposição à presidência marcou a primeira transferência democrática de poder desde a independência. Os governistas foram batidos em 2008, com uma nova transição pacífica.

O avanço da democracia no continente faz com que alguns países da África comecem a atuar com maior desenvoltura no cenário mundial e a negociar questões de seu interesse. Hoje, despontam focos de autonomia política e econômica que servem como balizas para a construção de um novo futuro.

 

Uma história rica e pouco conhecida

Na escola, que segue a perspectiva eurocêntrica, a África costuma ser citada quando o tema é o surgimento do homem. De fato, é lá que estão os primeiros registros de vida humana. Fora isso, o continente geralmente só volta a ser iluminado quando se trata das grandes navegações europeias. Como se nesse intervalo nada tivesse ocorrido por lá. Essa maneira de pensar prevaleceu entre os pensadores por muito tempo. O filósofo Friedrich Hegel (1770-1831), por exemplo, afirmou que "a África não tem interesse histórico próprio, senão o de que os homens vivem ali na barbárie e na selvageria, sem fornecer nenhum elemento à civilização". A concepção de que o continente tem um passado começou a ganhar força em meados do século 20. Com a independência de diversos países da região, os africanos passaram a pesquisar e divulgar sua história. Veja a seguir exemplos que comprovam o desenvolvimento desses povos.

- Político
Constituído no século 14, o Reino do Congo era organizado em aglomerados populacionais que funcionavam com capitais regionais, além de uma central. A impressionante estrutura do reino despertou o interesse dos portugueses, que quiseram manter relações comerciais com ele.

- Social
Um dos primeiros impérios de que se tem notícia na África subsaariana é o do Mali. Nos anos 800, época dos ataques bárbaros à Europa, seus habitantes já viviam em cidades. Tombuctu, a mais famosa, funcionava como um ponto de descanso das caravanas que atravessavam o Saara.

- Cultural
A escrita é mais um fator citado quando se fala no desenvolvimento da região. E ela não se resume aos hieróglifos egípcios. Outro exemplo africano é o alfabeto do Reino Bamum, no atual Camarões, desenvolvido no século 18. Até então, o histórico do povo era preservado pela tradição oral.

- Comercial
Antes do contato com os europeus, os africanos faziam negócios com árabes e indianos. Veleiros desses dois povos já navegavam no oceano Índico por volta de 1200, época em que o tráfego na costa atlântica ainda era insignificante.

Por razões como essas, é preciso entender que os africanos são protagonistas de sua história. "Não se pode dizer que são apenas explorados e subdesenvolvidos culturalmente", diz Amailton de Azevedo.

Países africanos com governos democráticos

Países africanos com governos democráticos

Países africanos com governos democráticos
1990
2010
1. Argélia
2. Botsuana
3. Egito
4. Gâmbia
5. Madagascar
6. Marrocos
7. Maurício
8. Senegal
9. Sudão
10. Tunísia
11. Zimbábue
1. África do Sul
2. Angola
3. Argélia
4. Benin
5. Botsuana
6. Burkina-Fasso
7. Burundi
8. Cabo Verde
9. Camarões
10. Chade
11. Comores
12. Congo
13. Costa do Marfim
14. Djibuti
15. Egito
16. Etiópia
17. Gabão
18. Gâmbia
19. Gana
20. Guiné Equatorial
21. Guiné-Bissau
22. Lesoto
23. Libéria
24. Madagascar
25. Malauí
26. Mali
27. Marrocos
28. Maurício
29. Mauritânia
30. Moçambique
31. Namíbia
32. Níger
33. Nigéria
34. Quênia
35. República Centro-Africana
36. Repúpluca Democrática do Congo
37. Ruanda
38. São Tomé e Príncipe
39. Seichelles
40. Senegal
41. Serra Leoa
42. Somália
43. Tanzânia
44. Togo
45. Tunísia
46. Uganda
47. Zâmbia
48. Zimbábue

Fonte: Almanaque Abril, 1990 e 2010

Quer saber mais?

CONTATOS
Amailton de Azevedo
Leila Leite Hernandez
Pio Penna Filho

BIBLIOGRAFIA
A África e os Africanos na Formação do Mundo Atlântico - 1400-1800
, John Thornton, 436 págs., Ed. Campus, tel. 0800-026-5340, 99,90 reais
África - Horizontes e Desafios no Século XXI, Charles Pennaforte, 64 págs., Ed. Atual, tel. (11) 3613-3000, 31,90 reais
A África na Sala de Aula - Visita à História Contemporânea, Elikia M’Bokolo, 584 págs., Ed. Colibri, 25 euros
África Negra, História e Civilizações - Até ao Século XVIII, Tomo I, 584 págs., Ed. Colibri, 25 euros
África Negra, História e Civilizações - Do século XIX aos Nossos Dias, Tomo II, 626 págs., Ed. Colibri, 25 euros
História Geral da África - Metodologia e Pré-História da África, Vol. I, J. Ki-Zerbo (coord.), 863 págs., Ed. Ática, tel. 0800-115152 (edição esgotada)
Para Quando a África?, Joseph Ki-Zerbo, 172 págs., Ed. Pallas, tel. (21) 2270-0186, 40 reais

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