Como a crise econômica afetou os brasileiros que moram no Japão?

DEKASSEGUIS

POR:
Paula Sato
Ex-dekassegui que vivia no Japão e voltou ao Brasil por causa da crise econômica, com familiares, no Aeroporto Internacional de Guarulhos. Foto: ROBERTO SETTON/VEJA
Ex-dekassegui  abraça  familiares no
Aeroporto Internacional de Guarulhos.
Foto: Roberto Setton / Veja

A história das relações entre Brasil e Japão começou oficialmente em 5 de novembro de 1895. Nesse ano, foi assinado o Tratado de Amizade, de Comércio e Navegação entre os dois países, firmando que "os cidadãos e súditos respectivos terão o direito de transitar livremente e com inteira segurança com seus navios e mercadorias em todos os portos, rios e lugares onde igual favor for permitido aos cidadãos ou súditos da Nação". Mas foi só em 1907, depois da visita de fiscais japoneses às fazendas brasileiras, que a Companhia Imperial de Emigração e a Secretaria de Agricultura de São Paulo assinaram o contrato. Pelo documento, 3 mil japoneses seriam enviados ao Brasil em um período de três anos para trabalhar como colonos. Os primeiros imigrantes chegaram ao Porto de Santos em 1908, a bordo do navio Kasato Maru, que demorou quase dois meses em viagem, e trouxe 158 famílias, com 781 pessoas no total.

Os japoneses se instalaram principalmente nos estados de São Paulo e Paraná. Segundo o relatório O ciclo e a tangente: Dekasseguis brasileiros no Japão, publicado em 2008 pela Associação Brasileira de Dekasseguis (ABD), esses primeiros imigrantes eram trabalhadores rurais em seu país de origem e vieram para cá atraídos pela promessa de bons salários. Tinham como sonho juntar dinheiro e voltar ao Japão. Porém, a remuneração baixa fez com que a grande maioria deles nunca conseguisse retornar. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 1920, havia 28 mil japoneses vivendo em terras brasileiras. Em 2000, o número passava de 70 mil, sem levar em conta os descendentes. A estimativa do Governo do Estado de São Paulo é que existam 1,5 milhão de nikkeis (descendentes diretos) no Brasil. Desses, 1 milhão vivem no estado paulista.

A partir de 1990, o fluxo de imigrantes mudou de direção. O boom econômico e a falta de mão-de-obra fizeram com que o Japão mudasse sua legislação, permitindo que os descendentes de japoneses recebessem visto de longa estadia e pudessem trabalhar livremente no país. Foi a partir de então que se popularizou o termo "dekassegui", que, na língua japonesa, designa quem sai de sua terra para trabalhar temporariamente em outro lugar. Em 2007, o Ministério das Relações Exteriores do Japão declarou haver 317 mil brasileiros vivendo no país. Uma pesquisa realizada pela ABD traçou o perfil desses imigrantes. A maior parte, 73,3%, estudou até o Ensino Fundamental ou Médio; 22,9% trabalhavam como operários no Brasil e 17,5% declararam estudar no Ensino Médio antes de emigrar. Ou seja, o dekassegui médio é descendente de japoneses, com pouca escolaridade e com um emprego de baixa remuneração no Brasil. No Japão, 90% dos dekasseguis trabalhavam no setor de produção, ou seja, como operários em indústrias. A maior parte dos entrevistados declarou ter planos de juntar dinheiro e voltar para sua terra natal.

Em 2008, quando se iniciou a atual crise econômica mundial, a história de sucesso dos brasileiros no Japão ficou abalada. Não há dados sobre quantos perderam seus empregos, já que eles entram nas estatísticas oficiais de 4,5% de desempregados no país. Porém, muitos dekasseguis relatam que, mesmo quando continuam trabalhando, não há mais tanto serviço e nem horas extras, o que diminui a remuneração. O presidente da ABD, Kiyoharu Miike, acredita que a situação nunca foi tão difícil. "Sem dúvidas, essa é a pior crise desde o início do movimento. Em 1998 houve o estouro da bolha econômica e muitos brasileiros tiveram de voltar, mas nada tão ruim quanto se vê hoje", diz. Ainda não há dados exatos sobre quantos dekasseguis deixaram o país, mas pesquisas divulgadas pelo Ministério das Relações Interiores do Japão indicam que, entre outubro de 2008 e março de 2009, 61 mil brasileiros retornaram ao Brasil. Miike ainda conta que, de volta ao país, os ex-dekasseguis têm dificuldade em seu se adaptar. "A maioria deles não tinha vontade de voltar, pelo menos não a curto prazo. Por causa disso, eles não têm recursos e, em um primeiro momento, contam com a ajuda da família. Além disso, eles estão procurando emprego, mas ainda com a mentalidade de quem estava no Japão e ganhava um salário em torno de 2 mil dólares por mês. Aqui, a remuneração é bem menor", finaliza. Leia algumas histórias de brasileiros (como mostra a foto acima) que voltaram para o Brasil na reportagem de VejaDesemprego interrompe o sonho dekassegui.

Quer saber mais?

Resistência & integração: 100 anos de imigração japonesa no Brasil, vários autores, 1212 págs., editora IBGE, 0800-721-8181.
O ciclo e a tangente: Dekasseguis brasileiros no Japão. Kaizô Iwakami Beltrão e Sonoe Sugahara. Disponível para download no site: http://www.abdnet.org.br/conteudo.asp?Cod=173  
Centenário da Imigração Japonesa - história de vida de nikkeis: www.japao100.com.br  

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