Revolução Francesa e Conjuração Baiana: dois fatos separados apenas geograficamente

Do outro lado do oceano, a Revolução Francesa. Deste, a Conjuração Baiana. A distância é grande, mas os dois fatos tiveram muito em comum

POR:
Anna Rachel Ferreira
Praça do Hospício, local de grande movimentação, onde foram enforcados e esquartejados os líderes da Conjuração Baiana. Louis-Julien Jacottet. Hospice de N. S. da Piudade a Bahia. Acervo da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil
Praça do Hospício, local de grande movimentação, onde foram enforcados e esquartejados os líderes da Conjuração Baiana

O dia: 12 de agosto de 1798. Panfletos com ameaças à Coroa Portuguesa estão afixados em muros de Salvador e convocam a população a uma revolução, à instauração da República Baiana, na qual "todos serão iguais, não haverá diferença, só haverá liberdade, igualdade e fraternidade". Os revoltosos se reúnem para arquitetar uma luta armada, mas o governo português interrompe o encontro. Os participantes fogem, mas nos dias seguintes 41 deles são presos. As investigações policiais levam um ano e têm como resultado o enforcamento e o esquartejamento em praça pública de quatro líderes.

O fato - conhecido como Conjuração Baiana, Revolta dos Búzios, Revolução dos Alfaiates e Inconfidência Baiana - não pode ser estudado apenas como mais uma revolta do período colonial, como por exemplo a Inconfidência Mineira. Isso porque faz parte do estudo de História saber que fatos estão interligados. Quando o foco é a Conjuração, portanto, é essencial levar em conta seu contexto. A Revolução Francesa, por exemplo, teve grande influência no conflito baiano (leia o que diz uma recente pesquisa sobre o tema no quadro abaixo).

Pensando nisso, o professor Manoel Cantalejo, da EM Ministro Alcides Carneiro, na capital fluminense, fez seu planejamento para trabalhar com a garotada do 8º ano. Ele já tinha dedicado aulas expositivas à Revolução Francesa e proposto a leitura da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que fez parte da primeira constituição do governo revolucionário. Os alunos sublinharam o texto destacando as reivindicações da população e escreveram no caderno as conclusões das discussões feitas, formando seu material de consulta.

Os registros foram retomados quando o educador ensinou a Conjuração Baiana. Primeiro ele explicou quando e onde o conflito havia ocorrido e lembrou a importância da participação do povo, que lutava pela criação de uma república, pela abolição da escravatura, pelo aumento de salário e pelo livre comércio. "Queria que os alunos entendessem como as pessoas se sentiam. Eles diziam: ?Se fosse eu, faria uma revolução!? Expliquei que foi isso o que ocorreu. Não uma luta com armas, mas de ideias."

Para guiar suas apresentações orais, o professor organizou slides com dados sobre o que influenciou a revolta, destacando o levante francês e o iluminismo. Em seguida, pediu que lessem trechos de livros dos historiadores Boris Fausto (História Concisa do Brasil, 328 págs., Ed. Edusp, tel. 11/3091-4008, 45 reais), Claudio Vicentino e Gianpaolo Dorigo (História do Brasil, 544 págs., Ed. Scipione, tel. 11/4003-3061, 118,90 reais) e discutiram sobre eles. Por fim, todos receberam o Manifesto da Conjuração Baiana, escrito para conclamar o povo à revolução. Os alunos grifaram frases com insatisfações e pedidos do povo e compararam com a declaração francesa, usando para isso os registros do caderno (leia frases dos dois documentos e comentários na próxima página).

O professor notou que, quanto mais compreendiam o conteúdo e se aprofundavam nas leituras, mais dúvidas tinham, como estas: "Como os homens pobres conheceram essas ideias?" e "Todos frequentavam a escola naquela época?".

A leitura e a análise de documentos históricos propiciaram aos estudantes conhecer o discurso de época e ter contato com fontes primárias de informação. Outra possibilidade seria mostrar que as ideias difundidas na Revolução Francesa influenciaram também a Independência do Brasil, mesmo ela tendo ocorrido mais de 20 anos depois, apenas em 1822.

Depois das discussões, análises e comparação de textos e aulas expositivas, Cantalejo propôs que os alunos respondessem às seguintes perguntas: "Quais fatores motivaram a Conjuração Baiana?" e "Quais as influências da Revolução Francesa no movimento?". "Minha intenção era que eles pudessem tirar dúvidas, discutir com os colegas e consultar o caderno, o livro didático e os textos complementares. Com essa atividade, eu pude perceber os pontos que ainda não estavam bem compreendidos e retomá-los em seguida."

Aléxia Pádua Franco, docente da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e pesquisadora de práticas de ensino em História, lembra que o importante é garantir aos jovens a compreensão de que qualquer transformação, no passado ou no presente, não ocorre de forma repentina. "Eles devem entender que isso se dá por meio de um combinado de ações de homens e mulheres em diferentes épocas e espaços sociais."

Quase perfeito
Um acordo teria mudado a Conjuração Baiana

Os laços entre os movimentos ocorridos na Bahia e na França poderiam ter sido ainda mais estreitos. Em sua dissertação de mestrado, a historiadora Patrícia Valim afirma que houve uma tentativa de acordo intermediada pelo capitão Antoine- René Larcher (1740-1808). Em 1797, os articuladores da revolta baiana propuseram a Larcher uma troca de favores com a França: o país europeu se beneficiaria com o comércio brasileiro e, de outro lado, a Bahia receberia homens e armamentos para a luta contra os portugueses. A proposta chegou ao governo francês, mas foi recusada. "Os baianos pensaram estrategicamente. Na época, Inglaterra e França eram as grandes potências mundiais. Já que Portugal era parceiro da Inglaterra, restava ao Brasil buscar apoio da França para lutar contra o colonizador", explica Patrícia.

Declaração francesa x Manifesto baiano

Leia os trechos dos documentos elaborados durante as revoltas e que foram comparados pelos alunos do professor Manoel Cantalejo

Declaração francesa versus Manifesto baiano. Simone Veloso
Sem corrupção Os problemas sociais existem por causa da corrupção e do não-cumprimento dos direitos.
Abaixo à opressão A liberdade é vista como uma forma de escapar da opressão dos governantes, como a escravidão.

Declaração francesa versus Manifesto baiano. Simone Veloso
Não ao monarca Os documentos, que começam com essas frases, mostram mais crença nas pessoas do que nos monarcas e orientam o povo a não se curvar ao rei.
Bons salários Os textos defendem que todos - inclusive soldados e negros - podem ocupar cargos e merecem receber salários apropriados ao seu exercício.

*Trechos extraídos do livro Presença Francesa no Movimento Democrático Baiano, Kátia de Queirós Mattoso, Ed. Itapuã (edição esgotada).

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