Democracia Corinthiana, futebol e política

Aproveite o título brasileiro para explicar aos alunos o que foi a Democracia Corinthiana e sua relação com o ídolo Sócrates. Seis respostas ajudam a esclarecer o assunto

POR:
Daniele Pechi
O jogador Sócrates, do Corinthians

No ano de 1981, enquanto muitos estudantes, artistas e intelectuais participavam das campanhas pelo fim da ditadura militar no Brasil, um clube de futebol brasileiro encampou uma experiência inédita de gestão compartilhada e democrática. A Democracia Corinthiana - movimento liderado pela direção de futebol do Corinthians e por alguns jogadores do clube, como Sócrates, Wladimir e Casagrande - teve o efeito de um sopro renovador na estrutura autoritária que costumava (e ainda costuma) dar o tom na  administração de clubes de futebol. Os ventos da mudança, como você vai ver, ultrapassaram as quatro linhas.

A experiência do Corinthians é um bom ponto de partida para que a turma compreenda como esse momento tão particular da história do futebol brasileiro, personificado na figura de Sócrates (1954-2011), influenciou politicamente a redemocratização do Brasil. A consultoria é de Celso Dario Unzelte, jornalista, pesquisador e autor dos livros "Timão 100 anos", "Bíblia do Corinthiano", "Os dez mais do Corinthians", entre outros títulos.

1. O que foi a Democracia Corinthiana?
Foi um movimento que buscou mais participação dos atletas e dos funcionários do Corinthians nas decisões que diziam respeito ao clube: a abolição da concentração para alguns jogos, a definição dos horários de viagem, a contratação de novos jogadores e as mudanças na comissão técnica. O movimento durou do final do ano de 1981 até o início de 1985.

A Democracia Corinthiana não foi uma revolução ou uma proposta concebida pelos dos jogadores do Corinthians. No ano de 1981, o sociólogo Adilson Monteiro Alves foi convidado pelo então presidente do clube, Waldemar Pires, para ser diretor de futebol. Alves, que nunca havia integrado a direção de um clube, apresentou uma proposta inovadora para as tomadas de decisões no Corinthians, que envolvia a participação dos jogadores e da comissão técnica na tomada de decisões. Um modelo de gestão democrática.

2. O movimento deu certo?
Pode-se dizer que sim. Além de unir a equipe que jogava no time, a Democracia Corinthiana ajudou o clube a se recuperar de uma fase difícil: em 1981, após um mau Campeonato Paulista, o time havia sido obrigado a disputar a Taça de Prata do Campeonato Brasileiro (equivalente à série B atual). Com o movimento e o consequente envolvimento dos jogadores e equipe técnica, em 1982 e 1983 o Corinthians conquistou o bicampeonato paulista e retornou à elite do futebol brasileiro. Também é correto dizer que uma das heranças do período é que os jogadores de hoje têm uma voz mais ativa junto às diretorias e comissões técnicas de seus clubes.

3. Que contexto histórico favoreceu essa mudança de postura?
De acordo com o estatuto que regia o Corinthians no ano de 1981, o então presidente do clube, Vicente Matheus, não poderia mais se reeleger para o cargo. Por isso, Matheus se candidatou a vice na chapa de Waldemar Pires, convicto de que continuaria a tomar as decisões do clube. Porém, ao ser eleito, Pires rompeu com Matheus e resolveu que mudaria a forma como o Corinthians vinha sendo administrado até então. Foi aí que Pires convidou o sociólogo Adilson Monteiro Alves para ser diretor de futebol do clube. Juntos, eles idealizaram o movimento da Democracia Corinthiana. A gestão de Pires durou até março de 1985, quando foi eleito Roberto Pasqua, membro da ARENA (a Aliança Renovadora Nacional, partido criado em 1965 para apoiar o regime militar), que encerrou o projeto de gestão compartilhada entre direção, jogadores e comissão técnica no Corinthians.

4. A Democracia Corinthiana contribuiu para a redemocratização do país?
Provavelmente, sim. Em 1981, o Corinthians já era um time extremamente popular. O apelo do clube junto às massas foi fundamental para divulgar a necessidade da democracia no Brasil, principalmente para os torcedores mais jovens. A experiência bem sucedida do movimento, que rendeu títulos, reforçava e estimulava a luta pela redemocratização. Pela linguagem do futebol, os jogadores conseguiam mobilizar pessoas que tinham pouca formação política. A Democracia, que surgiu como uma proposta nova de relação profissional de um clube de futebol, logo se tornou um evento político.

5. Quais outros eventos da História do Brasil envolveram esporte e política?
As ocasiões mais conhecidas envolvem o futebol:

Copa de 1970 Em plena ditadura militar, o Brasil foi tricampeão mundial de futebol, ao levar a taça da Copa do Mundo do México, em 1970. Para muitos historiadores e pesquisadores do assunto, o futebol serviu para mascarar a realidade e colocar em segundo plano a violência praticada pelo Estado no período. Durante o governo Médici (1969-1974), um dos mais repressores do período militar, a campanha ufanista do "Pra frente, Brasil" tomou corpo. O slogan divulgava a ideia de um Brasil em pleno desenvolvimento, com a construção de usinas hidrelétricas e outras grandes obras e a seleção vitoriosa era a personificação do sonho desenvolvimentista.

Copa de 1982 O último presidente militar, João Batista Figueiredo, tentou usar a mesma estratégia em 1982, com a seleção que saiu do Brasil como grande favorita da Copa da Espanha, com jogadores como Zico, Falcão e o próprio Sócrates. Acabou frustrado pela derrota da seleção para o time da Itália, nas quartas de final.

6. Qual foi o papel de Sócrates na Democracia Corinthiana?
O jogador Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira era o principal líder da Democracia Corinthiana no chamado "braço operário" do movimento. Ele foi o grande ideólogo do processo que envolvia os jogadores e a comissão técnica nas decisões do clube e o principal entusiasta da ideia de que o projeto de cidadania e gestão compartilhada que estava sendo implantado no Corinthians poderia se tornar uma ação maior.

Médico de formação, "doutor" Sócrates, como ficou conhecido, tinha interesse político em disseminar a ideia de democracia no Brasil em plena ditadura. Nos anos 1980, ele já era um grande ídolo do país e se engajou politicamente, inclusive na campanha das Diretas Já (movimento popular de reivindicação de eleições diretas para presidente do Brasil nos anos de 1983 e 1984). O jogador acreditava que por meio do futebol, esporte de grande apelo popular no país, ele poderia se tornar um canalizador de informações sobre a importância e a necessidade da democracia. Sócrates participou das Copas do Mundo de 1982 e 1986 e foi um dos maiores jogadores da história do Corinthians.

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