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01 de Maio de 2012 Imprimir
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Obras e pintores de todo o Brasil são um rico conteúdo

Ao aproveitar a diversidade da produção que retrata a cultura de sua cidade ou de seu estado, você ajuda a desmistificar o fazer artístico e amplia o repertório dos estudantes

Por: NOVA ESCOLA, Beatriz Vichessi, Camila Camilo

Quais são os pintores que você conhece? O espanhol Pablo Picasso (1881-1973), o holandês Vincent Van Gogh (1853-1890) e o francês Claude Monet (1840-1926) são alguns dos nomes que aparecem na lista de muitas pessoas. Porém, de alguma maneira, uma seleção como essa faz a arte parecer algo distante e até inatingível, talento de gente que mora no exterior ou que já morreu, concorda?

Essa ideia também pode se formar na cabeça dos alunos se o currículo não garantir o estudo da vida e da obra de pintores da cidade em que eles moram, de localidades vizinhas ou então da capital do estado. E, seja lá onde você estiver, pode ter certeza de que há bons nomes para usar como tema das aulas.

Após analisar o que os estudantes do 5º ano entendiam por arte e pesquisar sobre a produção artística de Santa Catarina, a professora Julmara Sefstrom, da EMEIEF Padre Ludovico Coccolo, em Criciúma, a 189 quilômetros de Florianópolis, organizou um projeto sobre dois pintores locais: Vera Sabino e Franklin Cascaes (1808-1983). Até então, a criançada sabia o nome de alguns artistas estrangeiros e pensava que pintar quadros tinha como único objetivo ganhar dinheiro. Concluído o trabalho, todos tinham ampliado o repertório de artistas conhecidos, revisto a ideia de lucro e aprendido muito. Eles exploraram a temática que aparece nas obras estudadas - mitologia da região e paisagem e cultura açoriana - e experimentaram as técnicas e os materiais de trabalho utilizados. Isso permitiu fazer descobertas com tinta acrílica sobre madeira (utilizada por Vera) e grafite e nanquim sobre papel (recursos escolhidos por Cascaes). 

Lista com artistas de todos os estados do Brasil

Sites que permitem visualizar reproduções de obras de arte


Se você não é catarinense ou não mora nesse estado, pode nunca ter ouvido falar da dupla. Ainda assim, conhecer o projeto de Julmara vai ajudá-lo a refletir sobre as possibilidades e a riqueza do trabalho com a temática do lugar onde mora (conheça o passo a passo do trabalho dela na página 3).

"Em muitos casos, a obra de um artista natural ou morador do mesmo lugar que a turma revela o contexto social e cultural da escola e da vida da população", diz Sumaya Mattar, coordenadora do Grupo Multidisciplinar de Estudo e Pesquisa em Arte e Educação da Universidade de São Paulo (USP).

Para organizar o projeto, Julmara buscou informações em fontes diversas, como sites, museus, catálogos de arte e livros. Também participou de encontros de profissionais da área a fim de conhecer mais o assunto. Com isso, pôde selecionar os artistas a serem apresentados à classe, reunir material sobre eles, estudar o tema e elaborar as atividades que fariam parte do projeto. "Ter em mãos boas reproduções das obras é importante, mas não o suficiente", diz.

Estudar obras de artistas locais inspira a turma a criar

Quais pintores escolher para organizar uma proposta como essa? Depende dos objetivos a serem alcançados pelos alunos. Porém um cuidado básico do educador é garantir que haja diálogo entre os temas trabalhados pelos artistas, as técnicas, os materiais e a linguagem. Sumaya sugere, inclusive, que o trabalho não se restrinja aos representantes da arte local. O ideal é pesquisar e também levar à sala pintores de cidades, estados ou até países diferentes que explorem a mesma temática ou técnica. "Isso ajuda a turma a entender como a realidade local influencia a obra do artista", diz ela. No projeto da garotada da Ludovico Cuccolo, por exemplo, uma boa ideia teria sido associar as obras do suíço naturalizado alemão Paul Klee (1879-1940) às de Cascaes, já que os dois pintores trabalham com seres fantásticos.

Como conduzir o projeto? A apreciação das obras é uma das fases fundamentais e isso precisa ser contemplado. Ao apresentar as réplicas de três quadros de Cascaes (Boitatá, Bruxa Fera da Ilha da Madeira e Boitatá do Rio Tavares), Julmara tinha como objetivo que os alunos interpretassem o que viam e observassem os aspectos formais da obra.

As crianças puderam opinar livremente. Uma delas chamou a atenção dos colegas para o fato de todo o espaço da tela ter sido ocupado pelo artista. Outra falou sobre as intenções do pintor ao apreciar uma obra que retratava o mito do boitatá: "Acho que ele queria deixar a gente com medo do que está vendo".

Houve também quem reconhecesse em um dos quadros de Cascaes um personagem folclórico familiar à população local, o boi de mamão. "O desafio dessa tarefa não é errar ou acertar, mas ser sensível à arte", explica Marisa Szpigel, coordenadora de Arte da Escola da Vila e do Departamento Educativo da Fundação Bienal, ambas em São Paulo.

É comum durante a apreciação das imagens o professor intervir demais nas observações dos estudantes. Em vez disso, é melhor deixá-los perguntar o que gostariam de saber, promover debates e socializar opiniões.

A experimentação é outra fase que precisa ser promovida, momento ideal para a criançada vivenciar o processo criativo dos artistas estudados e provar as técnicas e os materiais usados por eles. Julmara analisa que essa foi uma etapa importante para a turma reconhecer que fazer arte não é um dom. "Os estudantes compreenderam que isso exige conhecimento, pesquisa e técnica", diz. Porém essa atividade não pode se tornar uma tentativa de copiar as obras estudadas. Para não cair nesse erro, pensar bem no tipo de proposta a apresentar é fundamental. Se o artista, por exemplo, trabalha com a temática social da região, os alunos podem fazer uma investigação sobre mais questões a esse respeito para fazer delas o foco de suas produções. Os estudantes da Ludovico Coccolo experimentaram trabalhar com natureza-morta, tema explorado por Vera - mas Julmara criou um cenário exclusivo para que eles fizessem desenhos de observação. "A intenção era que se apoiassem no trabalho dela."

Para finalizar o projeto sobre arte local, a educadora encaminhou os alunos a criar obras lançando mão de todos os temas, as técnicas e os materiais que já tinham descoberto, analisado e experimentado. Garantiu, especialmente, que as crianças pudessem vivenciar a oportunidade, cada um a sua maneira. Uma delas, com necessidades educacionais especiais (NEE), por exemplo, optou por outra ferramenta, em vez da pena mosquito na hora de pintar com nanquim (leia a última página).

O trabalho de reflexão - a terceira ponta do triângulo didático de Arte, completado pela apreciação e experimentação - ocorreu durante todo o projeto. Os estudantes sempre eram instigados por Julmara a se aproximar dos artistas estudados e analisar o percurso de trabalho deles, o que as obras despertavam no público e como as imagens dialogavam com a cultura e com a paisagem locais, elementos já conhecidos.

Tão importante quanto a reflexão da criançada foi o empenho de Julmara em refletir sobre sua trajetória como mediadora do conhecimento. Ela fotografou todas as aulas e fez registros escritos delas, hábito que adquiriu no estágio obrigatório durante o curso de licenciatura em Artes Visuais. O material ajudou a educadora a acompanhar o desenvolvimento das crianças e avaliar a aprendizagem delas. "Também uso os registros para analisar o que deu certo e planejar as próximas ideias", afirma.

Como você pode notar, o modo como Julmara organizou as atividades para o projeto foi um ganho para todos, incluindo ela. Uma prova de que qualquer local do país fornece subsídios para um bom trabalho na disciplina de Arte. Estude, pesquise e avalie o entorno da escola em que você atua. Descubra quais os artistas da região que, como Cascaes e Vera, podem descortinar muitas aprendizagens para a turma.

Em foco, análise e produção

Em foco, análise e produção. Foto: Suzete Sandin

1. Para analisar como os estudantes representariam um relato oral, Julmara questionou os mitos que conheciam e pediu que fizessem um desenho

Em foco, análise e produção. Foto: Suzete Sandin

2. Ela apresentou obras de Franklin Cascaes sobre mitologia de Santa Catarina e orientou a observação das cenas, dos temas e das técnicas

Em foco, análise e produção. Foto: Suzete Sandin

3. Com o lápis 6B, os alunos criaram seres imaginários. Durante a apreciação, a educadora ensinou o que considerar, indo além de ideias como feio e bonito

Em foco, análise e produção. Foto: Suzete Sandin

4. A turma conheceu o trabalho de Vera Sabino (o processo criativo, as técnicas e o material usado) ao visitar uma exposição e ver reproduções em livros

Em foco, análise e produção. Foto: Suzete Sandin

5. Os alunos trabalharam um tema caro a Vera - natureza-morta. Julmara montou a cena com objetos da região e propôs um desenho de observação

Em foco, análise e produção. Foto: Suzete Sandin

6. Como produto final, a turma fez pinturas com materiais usados por Cascaes e Vera, como tinta acrílica, lápis 6B, nanquim e guache

Variedade de ferramentas

Variedade de ferramentas. Foto: Suzete Sandin

Aluna do 5º ano da EMEIEF Padre Ludovico Coccolo, em Criciúma, Jéssica Bernardino, 17 anos, tem NEE e apresenta atraso no desenvolvimento cognitivo, na linguagem oral e na coordenação motora. De acordo com a professora Julmara Sefstrom, embora a menina ainda não saiba ler nem escrever, participa de todas as atividades da disciplina de Arte - e recebe apoio de uma estagiária de Psicologia, que fica junto dela durante as aulas. "Ela acompanha Jéssica individualmente para que compreenda com mais clareza o que se espera dela no cumprimento das tarefas e a orienta sempre que necessário", conta.

As representações gráficas feitas por Jéssica no decorrer do projeto apresentaram um bom desenvolvimento gráfico, o que revela aprendizagens importantes. Dentre elas, a ampliação da gama de tons usados, o uso do espaço para pintar e a figuração dos desenhos, indo além das massas de cor.

Daniela Alonso, selecionadora do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10, explica que tão importante quanto garantir a participação da criança com NEE nas aulas é encontrar alternativas para adaptar bem o trabalho, antecipando as estratégias e os recursos necessários para a atividade proposta e não um trabalho paralelo ao do grupo.

Na etapa em que a turma desenhou com nanquim, por exemplo, Jéssica resistiu a usar a pena mosquito e preferiu o lápis 6B, o que foi autorizado pela professora. "Refleti e reconheço que poderia ter oferecido algo mais parecido com a ferramenta, como um palito de churrasco", diz Julmara. De fato, a substituição sugerida por ela proporcionaria uma experiência e um resultado mais parecidos com o alcançado pela turma, já que o tipo de material utilizado seria o mesmo.

Encerrado o projeto, a educadora buscou mais informações sobre a inclusão e fez o curso de Artes e Educação Inclusiva na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Hoje, tem mais segurança para trabalhar com alunos com NEE. "Aprendi que é fundamental acompanhar esses estudantes e que as atividades devem ser adaptadas com intencionalidade, de acordo com as necessidades de cada um."

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