Os contatos iniciais com o amigo dicionário

Entender a organização e o funcionamento desse material, assim como aprender a encontrar nele o significado das palavras, é importante desde o início da escolaridade

POR:
Mariana Queen, NOVA ESCOLA, Ana Ligia Scachetti
 Na EMEF Duque de Caxias, o professor Cristiano Alcantara realiza atividades com o dicionário na sala de leitura. Foto: Marina Piedade
Na EMEF Duque de Caxias, o professor Cristiano Alcantara realiza atividades com o dicionário na sala de leitura

Dicionário é "a listagem geralmente em ordem alfabética das palavras e expressões de uma língua com seus respectivos significados", segundo o minidicionário Houaiss. A definição pode dar a impressão de que se trata de algo com pouca utilidade em tempos de respostas instantâneas via internet, mas esse tipo de livro continua sendo de fundamental importância pelo rigor de suas informações. Diante disso, ele deve ser apresentado já na alfabetização inicial às crianças - elas precisam entender que o dicionário vai acompanhá- las durante toda a vida.

Cristiano Alcantara é professor na sala de leitura da EMEF Duque de Caxias, em São Paulo. Em parceria com os docentes responsáveis pelas aulas regulares, ele desenvolve atividades com essa publicação para turmas do 1º ao 9º ano. "Mostro aos estudantes que ela é mais prática e precisa do que os sites de busca que eles consultam na internet", diz.

No trabalho em conjunto com Alcantara, Regina Coeli do Couto ensina ao 3º ano os recursos que esse tipo de livro oferece. Diariamente, a professora usa textos de diferentes gêneros nas aulas, como contos, reportagens e até receitas culinárias. Ela faz uma leitura coletiva e pede que todos anotem as palavras mais difíceis, que depois são escritas no quadro e procuradas nos vários dicionários distribuídos. A atividade é adaptada para um dos alunos, que tem deficiência intelecual (leia o quadro na página seguinte).

A investigação também é realizada para termos desconhecidos lidos em textos de outras disciplinas. E, quando a classe vai exercitar a escrita, Regina indica a mesma publicação para tirar as dúvidas de ortografia. Nos primeiros contatos, ela faz o acompanhamento individual até que todos se familiarizem com a publicação. Durante o manuseio, aproveita as curiosidades da turma e antecipa que o material estará presente nas aulas sobre verbos e outros conteúdos.

Na sala de leitura, Alcantara distribui exemplares de edições diferentes aos alunos e pede que compartilhem os significados encontrados para uma mesma palavra (também coletada com base em um texto trabalhado por ele ou pelos outros professores nas classes regulares). Com a busca em vários livros, o docente consegue demonstrar a diversidade de respostas existentes. "O que define o uso do significado é a compreensão do contexto", alerta. Por isso, é essencial voltar ao texto e discutir a adequação das diferentes definições encontradas. "Esse tipo de atividade também permite que a criança faça uma leitura crítica e crie opinião a respeito de cada dicionário", complementa Egon Rangel, docente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e consultor do Ministério da Educação (MEC).

Nelly Carvalho, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), aponta no artigo Linguagem e Ideologia nos Verbetes do Dicionário que, apesar de esse tipo de publicação ser considerada um oráculo pelos leitores, seus verbetes carregam valores sociais e culturais. Isso também é observado nas atividades realizadas na Duque de Caxias em que se comparam exemplares de autores diferentes. De acordo com a pesquisadora, como o nome do autor não aparece junto do significado, fica a impressão de neutralidade. Mas a definição carrega a interpretação de quem a escreveu.

Que dicionário usar nas séries iniciais?

 A professora Regina Coeli do Couto divide os alunos do 3º ano em duplas para que compartilhem suas impressões e ideias. Foto: Marina Piedade
A professora Regina Coeli do Couto divide os alunos do 3º ano em duplas para que compartilhem suas impressões e ideias

Os dicionários didáticos indicados para os anos iniciais do Ensino Fundamental possuem características específicas para essa faixa etária. A quantidade de palavras aumenta gradativamente de um livro para outro e alguns contam com elementos auxiliares como letras grandes e ilustrações. Desde 2006, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) distribui kits a todas as escolas públicas registradas no Censo Escolar com diversos tipos de dicionário. Destinados às atividades em sala de aula, eles devem ficar em locais de fácil acesso aos estudantes. E o ideal é que o contato comece pelos modelos ilustrados e evolua para os tradicionais.

Durante a alfabetização, o objetivo principal é que os alunos se familiarizem com o livro e o vejam como um recurso a ser consultado sempre. Para isso, os primeiros passos são entender a organização dos verbetes e aprender que as palavras estão ali na ordem alfabética. Para ajudar nessas tarefas, as publicações voltadas para os mais novos reproduzem o alfabeto nas bordas das páginas. Assim, fica mais fácil identificar em que posição está a letra que inicia o termo buscado.

Outras peculiaridades precisam ser compreendidas pelos estudantes: os substantivos de dois gêneros aparecem somente no masculino e todos os termos são apresentados no singular. A apostila Dicionários em Sala de Aula, lançada pelo MEC, indica várias outras atividades para a sequência de aulas, com temas como homônimos e sinônimos. O trabalho em duplas é uma orientação recorrente por favorecer a troca de percepções e de ideias sobre os significados. Na sala de aula, Regina adota essa premissa e sente a evolução da turma. Aos poucos, o vocabulário aumenta e eles passam a ter mais apreço pela leitura. "Eles trazem de casa palavras que encontraram em gibis e começam a recomendar obras lidas para os colegas", relata.

Inclusão: atividades com letras móveis

Os professores Cristiano Alcantara e Regina Coeli do Couto, da EMEF Duque de Caxias, em São Paulo, ficam atentos para garantir que um dos alunos do 3º ano, que tem deficiência intelectual, também aprenda a usar o dicionário. "Desenvolvo com ele o mesmo conteúdo abordado com os demais, mas de uma maneira diferente", afirma Regina. "O trabalho é mais individualizado, mas está sempre dentro do contexto da sala." 

A atitude da professora é aprovada por Ângela Lessa, especialista em Educação Inclusiva e Linguagem. "O mais importante é o aluno participar das atividades com toda a turma. Se a aula é com o dicionário, o professor também deve dar um ao estudante com deficiência, para que ele manuseie", diz. 

A professora utiliza letras avulsas grandes para que o garoto compreenda a escrita das mesmas palavras que os outros procuram durante a atividade. Ajudado por ela, ele compara o que está escrito em letras móveis com as palavras grafadas no quadro. Depois, manuseia o dicionário ilustrado. 

No livro, o aluno faz a associação de gravuras com as palavras. Outras alternativas são possíveis dependendo do tipo de deficiência intelectual. Há casos em que a criança presta atenção apenas em temas específicos. Sabendo quais são, é possível direcionar as atividades em sala para eles. "O professor pode eleger palavras de um campo temático e trabalhar com elas aspectos como o sentido e a ordem alfabética", sugere Egon Rangel, da PUC-SP.

Nas bancas

Nova Escola edição 250. Foto: Paulo Vitale. Ilustração Wiliiam Knack

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